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Minha experiência em Serra Leoa e Guiné-Bissau

A médica Mariana Valente fala sobre sua atuação com MSF na África e a inusitada razão dos casos de fraturas em Guiné-Bissau
27/07/2018
Minha experiência em Serra Leoa e Guiné-Bissau

Foto: Pedro Cabeleira

Minha primeira experiência com Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi em Serra Leoa, pouco depois da grande epidemia de Ebola, que acabou em 2016. Lá, eu era responsável pela gestão do centro de atenção primária, que atendia pacientes adultos e crianças. A maioria dos casos era de dor muscular (dor nas costas e no ombro). Também ajudei na gestão de casos suspeitos de Ebola, assim como nas regras de higiene das clínicas.

Já em Guiné-Bissau (2017), fui gestora de atividades médicas, incluindo a resposta ao pico de casos de malária. Eu ajudava um médico – que era profissional internacional – e os médicos locais a desempenharem o trabalho deles em uma enfermaria de pediatria. Organizava a escala de plantão e transferia os pacientes que os médicos encaminhavam para Bissau (a capital). Também era responsável por escrever o relatório mensal e coletar os dados semanais. Fizemos processo seletivo para novos médicos, indicamos médicos para serem absorvidos pelo serviço em Bissau e ficamos de olho no número de casos de malária para saber se precisaríamos de mais ajuda ou não.

Eu gostava do trabalho, pois me ajudou a entender melhor o que estávamos fazendo, assim como quanto e em que estávamos ajudando. A maioria dos casos era de malária grave e infecção pulmonar. Também sempre tínhamos pelo menos um caso de queimadura grave e fratura (volto a esta última daqui a pouco).

Eu conseguia dividir meu dia em duas partes. Pela manhã, visitava o hospital e ficava com a equipe, coletava os dados do dia, resolvia problemas, transferia pacientes, às vezes atendia pacientes. Durante a tarde, escrevia relatórios e organizava a escala do próximo mês. Por alguns meses, trabalhávamos até as 21h.

Um fato característico da região de Bafatá, onde ficava o hospital, é que há muitos cajueiros e mangueiras. E essa era a causa de grande parte das fraturas que recebíamos. Era comum recebermos crianças e adolescentes que caíram de árvores, às vezes com fraturas muitos graves que necessitavam de cirurgia. Não me lembro do total de casos, mas acredito que, a cada duas semanas, tínhamos alguma fratura grave. Eu cheguei a solicitar em um único dia transferência para três pacientes por esse motivo, o que era bastante para nossa enfermaria.

Outros casos inéditos na minha carreira médica foram duas crianças com menos de 5 anos que ingeriram soda cáustica, usada pelas mães para fazer sabão, e dois adolescentes com perfuração na barriga por chifre de boi.