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Iraque: “A menina que me deu uma lição”

A anestesista de Vitória (ES) Gabriela Cellia passou um mês trabalhando em Hammam al-Alil no Iraque, onde MSF montou um hospital de campanha para atender feridos na batalha pelo controle de Mossul. Ela fala de sua experiência.
12/06/2017
Iraque: “A menina que me deu uma lição”

Foto: François Dumont / MSF

Hammam al-Alil foi o segundo projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em que trabalhei. Entre setembro e outubro do ano passado, eu já havia passado oito semanas na maternidade Castor, em Bangui, capital da República Centro-Africa. Desta vez, no Iraque, dois aspectos bem diferentes da experiência me causaram impacto.
De um lado, é duro ver como seres humanos podem magoar e machucar seus semelhantes.

De outro lado, fiquei ainda mais apaixonada pelo trabalho realizado por MSF. Em Hamman al-Alil, um projeto novo, pessoas que vieram de várias partes literalmente vestiram a camisa e o colete de médico sem fronteiras e foram para hospital com o intuito de ajudar o próximo. A cada dia eu ficava mais impressionada com a vontade de todos de contribuir para fazer a diferença.

Nossa rotina era ditada pelas necessidades de pacientes que chegavam no pronto-socorro. Ali, os médicos faziam o primeiro atendimento e a triagem da escala de gravidade. Dependendo da quantidade de pacientes que chegava na porta do hospital – e algumas vezes, não poucas, eram muitos pacientes na mesma hora –, nós, anestesistas e cirurgiões, também íamos à sala de emergência para ajudar nos primeiros atendimentos. Feita essa triagem, a equipe do centro cirúrgico e os médicos emergencistas (clínicos do pronto-socorro) selecionávamos os que precisavam de cirurgia e os escalonávamos por gravidade.

Assim fazíamos nosso mapa cirúrgico. Além das cirurgias de emergência, havia os pacientes que tinham sido operados nos dias anteriores e precisavam de uma segunda ou terceira cirurgia. Essas eram somadas às emergenciais, para assim compormos o mapa cirúrgico do nosso hospital.

Iraque: “A menina que me deu uma lição”Nosso dia era bem cheio, e a noite também. Éramos dois anestesistas. Nos revezávamos em plantões de 24 horas, mas durante o dia os dois trabalhavam – ou, mais bem explicado, revezávamos as noites.

Uma história que me marcou ocorreu no meu segundo dia em Hammam al-Alil. Recebi uma paciente de 16 anos, com necessidade de amputação de membro inferior. Mais uma vítima da guerra – um atentado a bomba. Ela estava no pós-operatório e gritava muito. Cheguei para avaliá-la a pedido dos enfermeiros. Já havia feito medicação analgésica, além até do necessário para a dor provocada pela lesão. Não havia mais motivo para que tais gritos fossem consequência da dor física.

O enfermeiro se dirigiu a mim e disse: “Doutora, ela tem motivo para estar agindo assim: a mãe dela morreu na frente dela no atentado a bomba, o pai foi levado ferido a outro hospital, ela não tem notícias do irmão, e a menina que você está operando agora é imã dela”.

Simplesmente sentei do lado dela, segurei sua mão e fiz um carinho até ela dormir um pouco. Naquele momento, entendi que minha visão naquele contexto tinha que ser completamente diferente com os pacientes, com as pessoas, comigo mesma.
 

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