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A fisioterapeuta Letícia Porkony e a saúde da mulher na Nigéria

12/01/2012

Parte 1 – 12 de janeiro de 2012, Nigéria  
 
Olá, meu nome é Leticia Pokorny, sou fisioterapeuta e estou na Nigéria pela terceira vez em minha décima missão. Já estive em missões na África, Ásia, Oriente Médio e América Central.

Minha primeira missão com MSF aconteceu “sem querer” em 2008. Um dia recebi um email de uma ONG com que trabalhei perguntando se eles podiam enviar meu currículo para Médecins Sans Frontières, pois estavam precisando de um fisioterapeuta. Depois disso não parei mais, saio em missão de duas a três vezes ao ano.

Normalmente missões com fisioterapia não são muito comuns nas áreas de ortopedia e traumatologia, em contextos violentos, pós-catástrofe ou acidentes. Recentemente a fisioterapia está sendo incluída em outros projetos relacionados à saúde da mulher, por exemplo, como neste projeto que estou hoje.

Infelizmente em muitos países, especialmente na África e Ásia, mulheres não conseguem chegar ao hospital para seu bebê nascer. Elas acabam apresentando complicações durante o parto, perdem o bebê na maioria das vezes, ficam doentes e muitas vezes morrem.

Em 2009 estive no norte da Nigéria para iniciar um projeto de fisioterapia em mulheres com incontinência urinária causada por fístulas vesico vaginais. Nossa unidade dentro do hospital era composta por quatro tendas, inclusive o bloco cirúrgico, e o número de pacientes admitidas não ultrapassava 30. Retornei dois anos e meio depois e encontrei um hospital diferente; bloco cirúrgico, enfermaria, maternidade e sala de fisioterapia de alvenaria, e uma unidade com mais de 50 pacientes internadas.

As mulheres que chegam ao hospital com incontinência urinária, em geral são muito jovens (menos de 20 anos de idade) e têm história similar: trabalho de parto prolongado (entre 2 e 5 dias), bebês mortos, isolamento em suas comunidades e muitas vezes abandono dos maridos.  Algumas chegam com problemas motores nas pernas, causados pela compressão dos nervos da coluna durante o parto e/ou com fístula retal, desidratadas, desnutridas, em condições precárias de higiene e doentes.

Muita gente me perguntou, e ainda me pergunta, 'mas o que a fisioterapia pode fazer para ajudar estas mulheres?'. Desde 1948 existem exercícios específicos para restaurar função da musculatura do assoalho pélvico após o parto, também usado para reabilitar mulheres com incontinência urinária. Sem esquecer a fisioterapia específica para as mulheres com problemas motores. As atividades ocorrem em grupos e quase sempre terminam em danças a e cantos africanos.

No dia que estas mulheres vão para casa há alegria, risadas e cantos. As que permanecem ajudam as que se vão carregando seus pertences até o portão do hospital. Sempre agradecidas, deixam um enorme sorriso para todos os que ficam. A sensação é de missão cumprida.

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