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Desafios e superações na gestão da cadeia de suprimentos de projeto de MSF na Rep. Democrática do Congo

A brasileira Patricia Tenan fala sobre sua experiência de seis meses como gestora de supply no país africano
07/10/2016
Desafios e superações na gestão da cadeia de suprimentos de projeto de MSF na Rep. Democrática do Congo

Foto: MSF

Há um mês, voltei da minha primeira experiência com Médicos Sem Fronteiras (MSF). Fui para a República Democrática do Congo (RDC) como gestora de supply de um projeto em Masisi, no leste do país, nas montanhas de Kivu do Norte. Se para a maioria das pessoas a RDC é um lugar remoto, Masisi é remoto mesmo para os congoleses.

O plano original era passar seis meses em Masisi, mas houve uma redução da equipe neste projeto por causa da segurança. Masisi é um local onde se encontram muitos grupos armados, e a perspectiva era de que as tensões se agravassem nos próximos meses, devido às eleições no país. A coordenação do projeto achou por bem reduzir a equipe caso houvesse necessidade de uma evacuação de emergência. Fiquei três meses e meio em Masisi e os últimos meses na capital, Kinshasa, para fazer um trabalho junto à coordenação logística dos projetos na RDC.

Masisi fica a 80 quilômetros de Goma, capital de Kivu do Norte, mas a estrada é tão difícil que levei seis horas para chegar – no auge da estação de chuva, pode-se chegar a 12 horas. O projeto dá suporte ao hospital de referência do vilarejo, bem como apoia clínicas móveis no entorno, com objetivo de oferecer cuidados básicos de saúde a uma população extremamente desfavorecida.

Como gestora de supply, eu era responsável por atender as necessidades de suprimentos de todo o projeto. Muitas demandas, algumas urgências, e vários desafios. O maior deles era o transporte. Até mesmo o combustível para os veículos e os geradores vêm dessa cidade mais próxima, Goma, e são transportados em caminhões até Masisi. Algumas vezes o caminhão levava três dias para chegar, então tínhamos de estar sempre alertas em relação ao estoque de segurança/reserva, pois, sem combustível, o projeto para – não tem eletricidade em Masisi. Numa ocasião, o caminhão ficou bloqueado na estrada e foi preciso alugar 70 motos para fazer o transporte a tempo de não cairmos em ruptura.

A casa onde morávamos é simples, sem ducha – o banho é de balde, e os sanitários com latrinas, sem privadas. Sem luz, com horários restritos de gerador, vida extremamente rural. Me senti em casa desde o início; nada me fez falta, pois olhava ao meu redor, onde eu estava, a situação da população, e, nesse sentido, a casa onde morávamos e nossa condição de vida era um luxo. Quando saía de casa e encontrava toda essa vida, isso me preenchia e dava força.

Trabalhávamos em média 12 horas por dia e mesmo nos fins de semana sempre tinha um contratempo, nunca tínhamos hora para receber as cargas. A hora que o caminhão chegava era a hora de descarregá-lo, para que ele pudesse fazer outras viagens. As necessidades eram constantes, bem como as dificuldades.

O que dizer de toda essa experiência? Muitos percalços no caminho, cansaço, desafios, superações. E muita, muita realização e preenchimento. Um dos países mais ricos que eu já tive a oportunidade de conhecer. Rico em cores, cultura, educação, gentileza, alegria. Agradeço cada segundo vivido, pois, sem sombra de dúvidas, eu sou a pessoa que mais ganhou com toda essa jornada.