Você está aqui

Conquistas para o diagnóstico e tratamento de hepatites virais

O médico Marcelo Naveira fala sobre a alegria de perceber avanços no combate à doença
12/11/2017
Conquistas para o diagnóstico e tratamento de hepatites virais

Foto: Acervo pessoal

Em 2002, eu iniciava o primeiro ano de faculdade e mal abria um livro de medicina, enquanto muitos já completavam anos de luta contra as hepatites virais e exigiam respostas do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Desde então, essa mobilização trouxe o reconhecimento das hepatites como um desafio à saúde pública. Criou-se o Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites Virais, um plano global para seu enfrentamento e diversas plataformas para que ativistas, cientistas e gestores pudessem debater e construir políticas de saúde mais justas, com acesso universal e indiscriminado à prevenção, ao diagnóstico, à assistência e ao tratamento -, afinal, “medicamentos não devem ser um luxo”.

Durante esse mesmo período, as hepatites virais somadas atingiram o segundo lugar em mortes por causas infecciosas em todo o mundo. Esse infeliz salto é atribuído em grande parte à evolução natural da hepatite C e consequente cirrose e carcinoma hepatocelular. Mais de 71 milhões de pessoas vivem com a hepatite C em todo o mundo; muitos desconhecem o diagnóstico e mais de 69 milhões ainda estão sem tratamento. Há países em que ainda não dispõem de qualquer acesso aos serviços de saúde essenciais para a eliminação desta doença.

Já são quinze anos de gratas surpresas e incontáveis desafios em hepatites virais. Tenho orgulho de ter participado da elaboração e implementação de estratégias de quatro países - China e Brasil, ambos sob tutela do Dr. Fábio Mesquita (OMS e Ministério da Saúde); Nepal, com o Dr. Ruben Frank Del Prado (UNAIDS) e agora Ucrânia, com os Médicos Sem Fronteiras (MSF); e de três fóruns internacionais - Global Health Sector Strategies, Assembleia Mundial da Saúde e o primeiro World Hepatitis Summit.

É com muita felicidade que escuto de ativistas e profissionais de saúde que a segunda edição do Summit, realizado na cidade de São Paulo, foi um sucesso e que a declaração resultante do evento demanda não só maior compromisso, acesso e melhores resultados de políticas de saúde, mas também aborda temas como a luta contra o estigma e a discriminação, até então restritos a poucas pesquisas (Varaldo C et al. 2015).

Enquanto celebrava mais uma etapa dessa luta global, nossa equipe em Mykolaiv (sul da Ucrânia) também distribuía os medicamentos sofosbuvir e daclatasvir para uma unidade de saúde parceira de nosso projeto de hepatite C, em parceria com o Ministério da Saúde da Ucrânia. São 1.000 pacientes a serem contemplados com o tratamento nos próximos meses, aproximadamente um terço dos tratamentos disponíveis no país anualmente. O projeto atende pessoas vivendo com HIV e pessoas que injetam drogas e também busca promover o acesso aos medicamentos genéricos no país.

Este não é um momento para estagnação ou desacelerar a resposta. Mais do que nunca, é momento de expandir o acesso ao diagnóstico e tratamento.