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Águas de Agosto

O pediatra Alexandre Bublitz fala sobre a sua experiência tratando crianças com desnutrição na Nigéria
13/03/2020
Águas de Agosto

Foto: Acervo Pessoal

Acordo no meio da noite com som alto de trovão. Deitado na cama sob uma rede de proteção para mosquitos, ouço o som forte do vento contra a janela do alojamento de Médicos Sem Fronteiras (MSF). A chuva cai do lado de fora e eu penso nos campos de deslocados internos. Será que suas barracas de lona e casas de telhas de zinco irão resistir a essa tempestade?

Pela manhã, de dentro do carro de MSF, vejo as ruas de chão batido alagadas. Maiduguri, a grande cidade do norte da Nigéria, se encontra de baixo da água. De clima muito seco e paisagens amareladas, essa região subsaariana conta com uma longa e quente temporada de seca. Entretanto, estamos em agosto e a temporada de chuvas muda a paisagem da cidade quase desértica e com sol escaldante para tons mais verdes e alagadiços.  

Em direção ao hospital, vemos as ruas se transformarem em verdadeiros lagos. O lixo flutua sobre a água e o carro passa lentamente pela estrada. Ouço crianças gritarem da rua: “bature!”, homem branco em hauçá, uma das mais de 300 línguas faladas no país. O jovem grupo de meninas vestia véus rosa e vestidos azuis enquanto acenavam e sorriam para mim. Eu sorria e acenava de volta pela janela do carro, mas não podia deixar de notar que elas caminhavam descalças com a água até os joelhos.

O mês de agosto marca o pico da desnutrição infantil na região. Pouco antes da colheita, o alimento começa a ficar ainda mais escasso e a fome cresce. Não bastasse isso, a chuva traz consigo a proliferação dos mosquitos da malária e a água parada carrega a cólera. Nos campos de deslocados internos o estrago é ainda maior. São mais de 10 anos de conflito entre o Estado e grupos armados. Com medo da violência, muitas pessoas abandonam suas casas e deixam seus vilarejos para fugir para a capital. Aqui chegando, não encontram emprego, escolas ou sistema de saúde gratuito.

Chegando ao hospital, vejo que as tendas já se encontram cheias de novos pacientes para serem triados. Aqui atendemos crianças com desnutrição grave. São um total de 100 leitos, com mais de 400 pacientes internados por mês e outros mil atendidos no ambulatório. Nossas modestas instalações de lonas ajudam muitas crianças todos os anos. Saio do carro e me dirijo a uma das barracas onde ficam os pacientes mais graves.

O dia recém começava e o trabalho já era intenso; uma criança que viera à noite se encontrava em estado muito grave. Era um menino de pouco mais de 9 meses de vida que pesava menos de 3 quilos. Em seu corpo frágil, a cada respiração profunda, eu observava a proeminência dos ossos em seu peito. Os olhos fundos estavam parados. Infelizmente, nessa época do ano, vemos muitos casos como esses. São crianças oriundas de regiões pobres e afetadas pelo conflito, chegam muitas vezes com quadros de infecção grave que acompanham a desnutrição.

Durante toda a manhã permaneci com esse paciente e sua mãe. Horas difíceis em que vemos, aos poucos, uma criança morrer. Não demorou muito. Mesmo com os antibióticos, o oxigênio e todo suporte que podíamos dar, o menino faleceu. Sua mãe permanecera todo o tempo ao seu lado. Em seu rosto, eu percebia um semblante sofrido e calejado. Esse não era o primeiro filho que ela via morrer. A sua história se repetia entre as mães que eu conhecia. Engravidavam jovens, chegavam a ter mais de 10 filhos, mas quase metade deles vinha a falecer. A Nigéria apresenta ainda hoje números altos de natalidade e de mortalidade infantil; números esses de carne e osso, os quais eu via todos os dias.

Trabalhando em um projeto como esse, a morte se faz presente no dia a dia e logo nos habituamos a conviver com ela. Felizmente, não apenas de casos tristes se faz um hospital. Perto do fim da tarde, ouvi o doutor Bashir rir enquanto conversava com uma mãe que repetia o meu nome. Alexandre, dizia ela com um sotaque muito carregado. Me aproximei e perguntei o que estava acontecendo. A mãe de Usman, um pequeno garoto de pouco mais de 1 ano de idade, segurava a criança no colo. Ele havia passado quase um mês conosco e logo estaria de alta. Suas lesões de pele, típicas de kwashiorkor – um tipo raro de desnutrição – estavam cicatrizando bem e sua mãe estava feliz. A jovem mulher estava grávida novamente e contou a Bashir que gostaria de dar a seu filho o meu nome como forma de agradecimento.

Uma criança com o meu nome nascerá na Nigéria. Ela irá correr pelas ruas de chão batido, sentirá o sol escaldante contra a pele, gritará “bature” ao ver um carro de MSF passar? Qual futuro essa criança terá eu não sei, mas posso ver a vida se recriar nos olhos sorridentes daquela jovem mãe. Ela e seu filho ainda terão muitos desafios por enfrentar. A temporada de chuvas passará e com ela uma nova colheita se aproxima. As águas que carregam consigo a morte e as doenças, são também as que geram a vida e trazem a esperança de dias melhores para as pessoas que vivem em Maiduguri.

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