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Doença de Chagas

Apesar de não ser tão conhecida como a malária e acólera, a Doença de Chagas afeta entre seis e sete milhões de pessoas, matando mais de 12.500 por ano.

Médicos Sem Fronteiras trata pacientes com a doença de Chagas desde 1999, e já atuou em países como Bolívia, Guatemala, Honduras, México, Brasil e Nicarágua. Entretanto, os medicamentos e os diagnósticos existentes são inadequados, caros e escassos.

A doença de Chagas (DC), ou Tripanossomíase Americana, é uma doença negligenciada causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido pelo contato com as fezes dos insetos vetores, conhecidos popularmente no Brasil como “barbeiros”, além de contar com outras formas de transmissão, como a transmissão oral, pela ingestão de alimentos contaminados com os parasitas; a transmissão de mãe para filho ou forma congênita; por transfusões de sangue e transplante de órgãos e por acidentes de laboratório.

Atualmente, a doença de Chagas é endêmica em 21 países do continente americano, e estima-se que entre 6 e 7 milhões de pessoas estejam infectadas, embora mais de 90% delas desconheçam a infecção por falta de oportunidade de diagnóstico. Anualmente, ocorrem no mundo mais de 12 mil mortes associadas à doença, que, devido à globalização, também passou a ser importante na Europa e na Ásia.

No Brasil, estima-se que existam hoje mais de 1 milhão de pessoas infectadas, das quais 60% vivem em áreas urbanas, provocando impactos sociais, previdenciários e assistenciais. Trata-se de gerações de pessoas vivendo com Chagas, a maioria na invisibilidade por não ter sido sequer diagnosticada e, portanto, alheia às possibilidades de tratamentos existentes. Estima-se que no Brasil morram anualmente 6 mil pessoas devido às complicações crônicas da doença. No entanto, pela falta de conhecimento da doença e pelas poucas unidades de saúde a diagnosticar ou notifica-la (na maioria das vezes, a doença de Chagas não é notificada na fase crônica), é possível que exista um grande número casos sem registro.

Os avanços do conhecimento sobre a doença de Chagas nas últimas décadas contribuíram para o consenso entre especialistas sobre a necessidade de diagnosticar e tratar os infectados pelo Trypanosoma cruzi em todas as fases (aguda e crônica) na atenção primária de saúde. Este fato foi corroborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2010 com a publicação da resolução Chagas da Assembleia Mundial de Saúde (WHA 63.20), que marca o compromisso dos Estados-membros em oferecer diagnóstico e tratamento específico para os infectados na atenção primária de saúde.

 Médicos Sem Fronteiras (MSF) desenvolve projetos de atenção a pacientes com a doença de Chagas desde 1999, tendo atuado em diversos países da América Latina, como Honduras, Nicarágua, Guatemala, Brasil, Colômbia, Paraguai, e, atualmente, México e Bolívia. A organização desenvolveu atividades também em países considerados não endêmicos, como o projeto desenvolvido na Itália para oferecer atenção médica a imigrantes infectados. Nesses mais de 16 anos de atividades médicas em Chagas, MSF deu oportunidade de diagnóstico a 114.145 mil pessoas. Desse total, 11.106 pessoas apresentaram a infecção, e 8.206 delas completaram o tratamento satisfatoriamente.


Características clínicas

A doença de Chagas tem duas fases: a fase aguda, caracterizada pela visualização do parasita no exame direto de sangue ao microscópio, logo nos primeiros três meses após a infecção, e a fase crônica, caracterizada pela presença de anticorpos (IgG anti-T.cruzi) que pode se manifestar por meio complicações cardíacas ou digestivas que surgem depois de muitos anos, afetando o coração, causando arritmias e outros transtornos, além de afetar o sistema digestivo, causando dilatação do esôfago (se manifesta com dificuldades para deglutir os alimentos) e do cólon (se manifesta por constipação). 
 
Na fase aguda, a maioria dos casos não apresenta sintomas, o que dificulta o diagnóstico oportuno e o tratamento precoce. Uma pessoa infectada que seja diagnostica nesta fase e receba o tratamento adequado com Benznidazol ou Nifurtimox – atualmente, os únicos medicamentos disponíveis para o tratamento da doença no mundo – tem aproximadamente 100% de chance de cura.
 
Se não houver tratamento durante a fase aguda, a doença de Chagas passa a uma fase crônica, geralmente silenciosa. A manifestação dos sintomas pode ocorrer, como citado acima, muitos anos depois como um problema de coração, em 30% dos infectados, ou do sistema digestivo, em 10% dos casos. Os sintomas na fase crônica podem incluir desmaios, palpitações, dores no peito, inchaço dos membros inferiores, constipação, dores abdominais e dificuldades para engolir.
 
 

Diagnóstico

diagnóstico na fase aguda da doença de Chagas é realizado por meio das provas parasitológicas diretas, com as quais buscamos visualizar diretamente no microscópio o parasita no sangue da pessoa com suspeita de infecção. Muitas vezes, a fase aguda não é diagnosticada. Isso ocorre porque a maioria das pessoas infectadas não desenvolvem sintomas ou eles são inespecíficos e, geralmente, não lhes é oferecido acesso aos cuidados médicos, em parte também devido à falta de conhecimento dos profissionais de saúde sobre a doença de Chagas – o diagnóstico não é considerado e o tratamento não é oferecido para um caso que tem grandes chances de se curar completamente.

Para o diagnóstico na fase crônica da doença de Chagas, buscamos a presença indireta de anticorpos (IgG, anti-T.cruzi) no sangue da pessoa, por meio de exames sorológicos. Para determinar se o paciente está infectado com o parasita, as equipes de saúde precisam fazer de dois a três exames de sangue. MSF tem pressionado pelo desenvolvimento de novos testes rápidos para simplificar o diagnóstico da doença e que possibilitem ampliar o acesso ao diagnóstico na atenção primária de saúde.
 
 

Tratamento

O tratamento específico pode ser realizado com benznidazol, medicamento de primeira escolha, ou nifurtimox (que não está disponível no Brasil), e tem uma duração média de 60 dias. Quanto mais cedo for feito o tratamento, maiores são as chances de cura da pessoa infectada.

Para romper com o ciclo de negligência que envolve a doença de Chagas, é fundamental contar com protocolos de manejo clínico atualizados, profissionais de saúde treinados e a disponibilidade de insumos para a oferta de diagnóstico e tratamento para responder a este problema de saúde pública que representa um grande impacto socioeconômico nos países da América Latina.

Os milhões de pessoas infectadas e negligenciadas no mundo exigem que os conhecimentos atuais sobre a doença sejam traduzidos em políticas públicas efetivas e inclusivas como resposta a esse problema secular.

 

Esta página foi atualizada em agosto de 2016.