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Nigéria: “O que importa é o alimento”

11/11/2016
Devido à falta de chuvas, picos de malária e uma escassez ainda maior de alimentos são fortes ameaças para a população de Maiduguri durante as estações mais quentes
Nigéria: “O que importa é o alimento”

Foto: Aurelie Baumel/MSF

Helle Poulsen-Dobbyns acaba de voltar de Maiduguri, capital do estado de Borno, no nordeste da Nigéria, onde foi coordenadora de um projeto da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Abaixo, ela fala sobre sua experiência e explica como crianças desnutridas começaram a lotar as instalações médicas de MSF em uma região afetada pelo conflito entre o Boko Haram e o exército nigeriano.  

Como é a situação em Maiduguri?

Nossas equipes se depararam com um grande número de crianças desnutridas e uma crescente quantidade de casos de malária. Não esperávamos isso na capital do estado, onde não há conflito e organizações de ajuda humanitária de fato conseguem chegar à população.

Em alguns locais, os índices de desnutrição eram tão altos quanto os registrados em zonas de conflito. Recebemos muitos casos das duas manifestações de desnutrição aguda grave: marasmo grave e Kwashiorkor (edemas nos tornozelos, pés e barrigas da criança), sendo este segundo tão grave que algumas crianças apresentavam erupções e bolhas na pele, como se tivessem sofrido queimaduras. Conduzimos uma distribuição de itens alimentares em um campo de refugiados, e essa foi a primeira vez que aquelas 8 mil pessoas recebiam alimentos em 4 meses.

Quais são as maiores dificuldades?

Distribuição de alimentos conduzida por MSF em Maiduguri, na Nigéria (Foto: Aurelie Baumel / MSF)Nossa triagem estava sobrecarregada com o número de crianças com menos de 5 anos de idade. Elas são as mais vulneráveis, mas também testemunhamos mortes de muitas outras crianças mais velhas. Elas foram vítimas dos graves efeitos da malária em organismos já enfraquecidos pela desnutrição, de modo que não conseguiam lutar contra a doença. Por isso, eu continuava dizendo à equipe que “o que importa é o alimento”.

Para um impacto orientado, estabelecemos critérios para determinar aqueles que receberiam o alimento. Por exemplo: às mães das crianças já liberadas do Centro de Nutrição Terapêutica damos uma porção de alimento para a família que dura cerca de um mês, de modo que as crianças não sucumbam novamente à desnutrição aguda grave. Também fazemos uma distribuição direcionada de alimentos a famílias com seis ou mais crianças, sendo que ao menos uma delas deve ser menor de cinco anos. Isso não substitui a distribuição de alimentos que seria necessária para as pessoas internamente deslocadas que vivem em acampamentos ou nas comunidades. Para complicar a situação, 90% dos deslocados estão alojados em comunidades de Maiduguri em condições precárias, especialmente de saneamento e higiene. Isso dificulta ainda mais o acesso a eles, sem contar que as tristes condições em que essas pessoas vivem fazem do ambiente uma espécie de incubadora para diversas doenças.

Como MSF está respondendo à emergência?

Para lidar com o grande fluxo de pacientes, primeiro melhoramos e aumentamos a nossa capacidade de atendê-los, recrutando novos profissionais, que eram treinados por nossas equipes já existentes ao mesmo tempo em que recebiam e tratavam um grande número de casos de emergência.

Depois, trabalhamos no gerenciamento de nossas instalações médicas. Por exemplo, em nossa clínica em Maimusari, temos enfermeiros fazendo a triagem nas filas de pacientes, a fim de garantir uma identificação rápida, o que então nos permitiria oferecer os cuidados necessários aos casos mais graves. Caso contrário, colocaríamos em risco as crianças, que poderiam até morrer durante a espera por atendimento.

Mantemos uma intervenção significativa nos campos da cidade de Maiduguri e fora dela por meio de uma campanha de distribuição de quatro dias de alimentos e itens não alimentares, como mosqueteiros, galões, esteiras, lençóis e sabonetes. Simultaneamente, mantínhamos uma clínica móvel, na qual exames e tratamentos médicos eram oferecidos sistematicamente e onde oferecíamos, também, tratamentos preventivos como a vacinação contra sarampo e profilaxia sazonal para a malária.

Quais as suas maiores preocupações em relação ao futuro?

A temporada de chuvas foi curta, com poucas chuvas, então criou condições ótimas para que os mosquitos se reproduzissem e se desenvolvessem em pequenas poças d´água. Quando a estação mais quente vier, toda a população estará enfraquecida pela desnutrição e exposta ao risco excessivo de malária, intensificado pelas condições de lotação.

A população sentiu falta da chuva e, portanto, da época de plantio. Seus vilarejos foram destruídos, seus rebanhos roubados e seus campos e colheitas saqueados. Apoio e suporte serão extremamente necessários nos acampamentos e comunidades de Maiduguri.

Há algumas pessoas voltando à cidade; comércios e lojas em funcionamento trazem uma sensação de normalidade. Porém, a crise continua se desdobrando. Além disso, organizações de ajuda e autoridades devem pensar em uma abordagem significativa e colaborativa que inclua a distribuição de alimentos. 

MSF mantém três projetos em Maiduguri. Em Gwange, um Centro Intensivo de Nutrição Terapêutica de 102 leitos, no qual internamos crianças com desnutrição aguda grave e complicações. Em Maimusari, um departamento de internação e um ambulatório para oferecer cuidados a crianças desnutridas de comunidades no Centro Ambulatorial de Nutrição Terapêutica. Também oferecemos cuidados voltados para partos seguros. Nossos obstetras de emergência cuidam das mães e de seus filhos recém-nascidos, cuja vida se encontra em maior risco no momento do nascimento. Em Bolori, oferecemos serviços gerais de saúde e cuidados nutricionais em um ambulatório e um centro ambulatorial de nutrição terapêutica, além de serviços de emergência obstétrica.

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