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Filipinas: combate ao câncer cervical em Tondo

13/06/2017
Equipes de MSF participam de campanhas de vacinação e oferecem tratamento para a doença a residentes de comunidades próximas à capital, Manila

“Nós vemos pela televisão as pessoas que morrem jovens por causa de câncer no útero”, explica Mary Jane, com sua filha mais nova se mexendo inquieta no colo enquanto sua outra filha e sua sobrinha se sentam perto dela. Com outras 325 mil pessoas, ela vive nos assentamentos informais e improvisados de Tondo, bem próximo ao porto de Manila, capital das Filipinas.

As favelas locais têm nomes como “Montanha Fumacenta”, fazendo uma alusão a um grande amontoado de lixo em combustão; ou “Happyland” (que em inglês significa terra feliz, em tradução livre para o português), derivada de uma palavra local (hapilan) que significa aterro sanitário; ou “Aroma”, onde Mary Jane vive com sua família. Apesar de o câncer cervical ser conhecido aqui agora, por muitos anos os meios de prevenção da doença foram escassos e muito caros.

O câncer cervical, ou de colo do útero, é o tipo de câncer que mais mata nos países em desenvolvimento. Também é um dos tipos mais evitáveis da doença.

Um exame de rotina dura apenas três minutos. Um profissional médico aplica uma solução de vinagre no colo do útero para revelar potenciais células cancerígenas. O tratamento para as mulheres em risco dura pouco mais que 15 minutos. Dados comprovam que imunizar meninas adolescentes com uma vacina que foi desenvolvida nas últimas décadas levará a uma redução significativa no número de casos de câncer quando elas forem mais velhas.

Ainda assim, a doença mata 12 mulheres por dia nas Filipinas. Por não haver sintomas, as células cancerígenas se espalham pelo corpo e não são detectadas até o ponto em que é tarde demais para impedir seu progresso – ou para que a pessoa sobreviva.

Apesar de o governo se esforçar constantemente para combater a doença nas províncias mais pobres do país, os residentes de Tondo tecnicamente estão em Manila, polo econômico e capital do país. Em outras palavras, Mary Jane e suas filhas são invisíveis.

“Em algumas áreas, a população é extremamente pobre e em muitos casos a situação é bem pior que a de alguns acampamentos de refugiados e deslocados internos pelo mundo”, diz Jordan Wiley, coordenador-geral da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Em 2016, MSF mudou seu foco e começou a trabalhar em grandes pontos cegos das Filipinas, como a região de Aroma, após anos de presença inconstante no país respondendo a conflitos e desastres naturais.  

Para atender a população de Tondo e famílias como a de Mary Jane, MSF apoia a Likhaan, uma organização local que trabalha na região desde 2008. Seu foco principal é o planejamento familiar e outras questões ligadas à saúde da mulher, como o câncer no colo do útero.

Se a conscientização sobre o câncer cervical está aumentando em lugares como Tondo, isso se deve muito ao trabalho de base da Likhaan e ao seu grupo de “mobilizadores comunitários”, que vão às comunidades para conduzir sessões educativas. Todos os dias eles encorajam famílias, especialmente as mulheres, a saberem seus direitos e cuidarem bem de sua saúde.

De acordo com Jordan Wiley, “elas não estão acostumadas a ter direitos, nem a receber um acompanhamento médico livre de julgamentos”.

Enquanto caminhões de carga rugem pela estrada que liga Aroma ao resto de Manila, do outro lado uma pequena clínica operada por MSF e Likhaan aguarda em silêncio. Os profissionais da instalação recebem cerca de 80 pessoas por dia e realizam, por mês, aproximadamente 1.200 consultas de planejamento familiar. Centenas de mulheres chegam até a instalação para fazer também o exame de câncer cervical.
 
Os profissionais usam uma técnica chamada de “abordagem da visita única”, ou SVA, na sigla em inglês, que é essencial em contextos de favelas, nos quais as pessoas podem ter que mudar de casa repentinamente.

Qualquer mulher detectada com células pré-cancerígenas recebe tratamento imediato: as lesões de risco são congeladas e mortas usando um pequeno instrumento – uma técnica chamada crioterapia. Mulheres com suspeita de casos mais avançados são encaminhadas ao hospital para diagnóstico e então acompanhadas pela equipe em cada etapa do tratamento.

A vacinação também oferece muitas vantagens. Ministrar uma dose de duas injeções a meninas de idades entre 9 e 13 anos reduz drasticamente suas chances de contrair câncer no colo do útero. Em março de 2017, MSF, Likhaan e representantes da cidade de Manila completaram a primeira ronda de vacinação gratuita para mais de 25 mil meninas, em sua maioria residentes das favelas de Tondo. A segunda ronda de vacinação está agendada para os próximos meses.

Mary Jane levou sua filha para ser vacinada. Sua sobrinha também. Agora que elas sabem tudo sobre essa doença mortal, a próxima etapa de vacinação será menos assustadora.   

A sobrinha de Mary Jane admite que, durante a primeira etapa da vacinação, estava um pouco nervosa: “Eu não olhava para a agulha. Eu olhava para a minha mãe”.
 

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