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África Ocidental: MSF encerra último projeto para sobreviventes de Ebola

21/10/2016
Mais de dois anos e meio após o início oficial do surto de Ebola, MSF está encerrando seu último projeto na África Ocidental dedicado a prestar assistência às pessoas que sobreviveram à doença
África Ocidental: MSF encerra último projeto para sobreviventes de Ebola

Foto: John Moore/Getty Images

O surto de Ebola que se alastrou pela África Ocidental infectou mais de 28.700 pessoas e matou mais de 11.300 homens, mulheres e crianças. Famílias inteiras foram separadas e comunidades foram devastadas pela doença, com escolas sendo fechadas, economias se estagnando e sistemas de saúde entrando em colapso, o que levou a uma perda de vida maior ainda. O chocante custo humano do surto de Ebola foi agravado pela resposta internacional terrivelmente lenta dada a ele.

“O sofrimento causado pelo surto de Ebola foi imensurável”, diz Brice de Le Vingne, diretor de operações da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). “O ebola deixou uma marca permanente em cada membro da equipe de MSF que viajou para trabalhar na África Ocidental. Para nossos profissionais da região, o impacto foi ainda maior – eles viveram diariamente com a ameaça da doença, ao mesmo tempo em que trabalhavam encarando a realidade devastadora do ebola. Mas para os que foram infectados pela doença e para suas famílias, a experiência não foi nada diferente do inferno.”

Muitos daqueles que sobreviveram ao Ebola logo descobriram que a batalha não havia acabado – muitos enfrentaram significativos problemas físicos e de saúde mental. Contudo, como nunca havia acontecido um surto de ebola de tal magnitude, o entendimento em relação à assistência necessária para que as pessoas pudessem se recuperar era limitado.

“Conforme o surto foi diminuindo, ficou evidente que os sobreviventes do Ebola e suas famílias precisariam de um apoio considerável”, diz Petra Becker, coordenadora-geral de MSF na Libéria. “A maioria dos sobreviventes enfrentou transtornos físicos, como dor nas juntas e problemas neurológicos ou oftalmológicos. Ao mesmo tempo, muitos sobreviventes, assim como seus amigos, familiares e cuidadores, sofreram problemas de saúde mental, incluindo transtorno de estresse pós-traumático e depressão, depois de serem confrontados de forma tão próxima com a morte.”

MSF instalou clínicas dedicadas aos sobreviventes do Ebola em três dos países mais afetados pela doença. A primeira foi aberta em Monrovia, na Libéria, em janeiro de 2015 e nela foram realizadas mais de 1.500 consultas médicas antes de seu fechamento, em agosto de 2016. Uma segunda clínica na Guiné, em Conacri, tratou 330 sobreviventes e mais de 350 de seus familiares nos distritos de Coyah e Forécariah. Uma clínica semelhante em Freetown, Serra Leoa, ofereceu cuidados médicos e de saúde mental a mais de 400 sobreviventes e a suas famílias, organizando mais de 450 sessões de terapia individuais e em grupo para oferecer suporte psicossocial.

“Com tempo e tratamento, a gravidade dos transtornos físicos e psicológicos das pessoas foi diminuindo gradualmente”, diz Jacob Maikere, coordenador-geral de MSF em Serra Leoa. “Mesmo assim, muitos sobreviventes dizem que ainda se sentem muito perturbados pelo cheiro de cloro, que os remete imediatamente ao horror dos centros de tratamento de Ebola.”

Luta contra discriminação e estigma

Os sobreviventes do Ebola e suas famílias enfrentaram o estigma quando retornaram às suas comunidades. MSF, juntamente a outras organizações e ao lado de iniciativas nacionais, enviou equipes às comunidades afetadas para propagar mensagens de saúde e ajudar a reduzir o estigma e a discriminação. Na Guiné, por exemplo, MSF alcançou 18.300 pessoas por meio de sessões individuais e em grupo.

“O estigma continua sendo uma grande questão para os que sobreviveram ao Ebola e suas famílias, apesar da conscientização e de todas as campanhas de informação durante e depois do surto”, diz Jacob Maikere. “A discriminação tem diversas formas; algumas pessoas perdem o emprego ou o parceiro, ou são rejeitas pela comunidade, e isso tudo pode ter um impacto imensamente desestabilizador em suas vidas.”

Profissionais de saúde duramente atingidos

Profissionais de saúde que trabalharam nos três países mais afetados pelo Ebola pagaram um preço muito alto por responder ao surto da doença; muitos deles perderam suas vidas. Os que sobreviveram testemunharam incontáveis mortes e tiveram que conviver com o medo de serem infectados em suas próprias comunidades conforme o Ebola se disseminava.

“Profissionais de saúde de Serra Leoa, Guiné e Libéria salvaram muitos de seus conterrâneos do Ebola”, diz Ibrahim Diallo, coordenador-geral de MSF na Guiné. “Mas o vírus criou um medo tão grande no país que muitos deles eram vistos de forma suspeita ou até mesmo discriminados devido ao contato que tiveram com pessoas doentes.”

MSF transfere os cuidados pós-Ebola a governos e outras organizações

No fim de setembro, MSF terminou seus programas de cuidados médicos e de saúde mental para sobreviventes do Ebola na Guiné e em Serra Leoa, enquanto na Libéria as atividades pós-Ebola devem acabar antes do fim do ano. A maioria das condições médicas que afetam os sobreviventes, como problemas oftalmológicos e nas juntas, foram finalmente tratados e MSF providenciou que os que precisam de apoio de saúde mental continuem recebendo cuidados dentro dos sistemas nacional de saúde ou em outras organizações.

Assistência contínua de MSF na África Ocidental

MSF manterá seus esforços para oferecer serviços que atendam às necessidades de saúde de pessoas vulneráveis nos três países mais afetados pelo Ebola.

“Qualquer reforço de serviços de saúde nos três países afetados deve incluir a melhoria de medidas de controle de infecção, sistemas de vigilância para assegurar o monitoramento de potenciais casos e planos básicos de contingência que permitam uma resposta rápida em caso de um surto de Ebola ou outras doenças”, diz Mit Philips, conselheira de políticas de saúde de MSF. “Os países também precisam de planos de alcance para serviços que foram prejudicados durante a epidemia, assim como tratamentos para HIV e TB, além de serviços preventivos, para os quais a cobertura ainda é baixa.”

Em Monrobia, MSF abriu um hospital pediátrica, o Bardnesville Junction. Entre janeiro e agosto de 2016, o hospital ofereceu mais de 3.280 consultas de emergência e admitiu 880 crianças no serviço de internação, principalmente para malária. A unidade neonatal do hospital ofereceu cuidados a 512 recém-nascidos.

MSF também continua a oferecer cuidados a pacientes com HIV em Conacri, capital da Guiné, e cuidados de maternidade em Tonkolili e Koinadugu, distritos de Serra Leoa. A organização também dispôs suprimentos de emergência para a região, a fim de garantir que equipes médicas possam responder rapidamente a possíveis surtos de Ebola ou outras ameaças de epidemia. 

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