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No Haiti, em meio aos furacões

05/07/2013

Porto Príncipe, 5 de julho de 2013.

Já se passou quase um mês desde que cheguei ao Haiti. Depois de longos meses esperando meu primeiro trabalho com Médicos Sem Fronteiras (MSF), aqui estou finalmente!

O hospital onde trabalho foi recentemente construído e fica no bairro de Cité Soleil, em Porto Príncipe, a capital. É um hospital grande para os padrões de MSF, com 130 leitos e cerca de 450 profissionais – 21 estrangeiros e 430 locais.
Logo após o terremoto de 2010, o MSF instalou hospitais infláveis na cidade e em seguida começou a construção da estrutura definitiva, que ficou pronta no ano passado. Todos os serviços foram transferidos pra essa nova e definitiva estrutura.
A especialidade desse hospital é atender vítimas de violência urbana (como pessoas baleadas, esfaqueadas, vítimas de violência sexual e por aí vai…), vítimas de acidentes de trânsito e queimados. Trata-se de um hospital de primeira linha, muito bem equipado, que oferece tratamento gratuito e com um nível de qualidade altíssimo. Como meu trabalho é Administrador de Finanças, não vai ser um passeio no parque!

Além desse hospital em pleno funcionamento, temos um centro de tratamento de cólera (CTC), do mesmo tamanho, que fica fechado a maior parte do ano. Ele abre as portas para receber vítimas das regulares epidemias da doença que atingem o país duas ou três vezes por ano. Em breve, deve reabrir, com a chegada da estação das chuvas, quando a cólera pode virar epidêmica. Já me avisaram para me preparar, pois quando isso ocorre é o caos: fluxo insano de pacientes e carga de trabalho dobrada. Nos últimos anos, MSF tratou cerca de 40% das vítimas de cólera do Haiti.
Somos cerca de 20 profissionais estrangeiros morando ao lado do hospital, num terreno grande, com uma quadra de vôlei e uma cozinha comum, onde passamos o final do dia juntos contando os causos que acontecem com a gente no hospital, que são muitos!

Cada um de nós tem um “chalé” bem rústico, de madeira, projetado pra não sucumbir num eventual terremoto. O banheiro é coletivo e sem água quente, mas ninguém precisa de água quente com o calor que faz aqui! Porto Príncipe, ou PaP, é um forno e já aderi à bermuda para trabalhar. Acho que minhas calças vão ficar empoeiradas num canto do quarto até o final da minha estadia.

Todo esse calor é um pré-aviso da estação de ciclones que se anuncia a partir deste mês. O Haiti está no meio do caminho do ciclo de furacões do Caribe. Por isso, no nosso terreno ao lado do hospital temos uma casa feita de cimento onde devemos nos abrigar no caso de algum deles passar por aqui. Para os próximos meses, estão previstos 18 ciclones na região, sendo que nove deles com possibilidade de se transformarem em furacão. A ventania que faz por aqui é um prelúdio do que está por vir, mas, por enquanto, ela vem a calhar, uma vez que é a única forma de aliviar um pouco o calor!
 
Em PaP ainda se vê muitos escombros do terremoto de 2010. Mal posso imaginar como deve ter sido passar por aquilo. Foram mais de 200 mil vítimas fatais, em menos de 30 segundos em um país já miserável… Difícil imaginar uma situação mais caótica: mais miséria, desespero e violência.
Aliás, Porto Príncipe é uma cidade com um índice de violência urbana muito alto. Recebemos cerca de 10 feridos à bala por dia, só no bairro de Cité Soleil, onde ficamos. É um bairro chefeado por gangues armadas rivais, que frequentemente entram em conflito entre si. Em 2004, a ONU classificou essa comunidade como o lugar mais perigoso do planeta. Com a chegada da MINUSTAH (Missão da ONU para a Estabilização do Haiti) comandada pelos militares brasileiros, a violência diminuiu bastante e o governo hoje tem mínimas condições pra tocar o país. Apesar disso, continua sendo um bairro muito violento. Temos na entrada do hospital um controle de armas - ninguém pode entrar armado -, onde as pessoas são obrigadas a depositá-las ao entrar. A prateleira fica cheia de revólveres, pistolas, facas, escopetas e etc. Uma cena nada comum para um hospital ter um quartinho cheio de armas… Coisas do Haiti.

Faz apenas um mês que cheguei, mas tenho a sensação de que estou há muito mais tempo aqui. Trabalhar com MSF é a realização de um sonho pra mim. Estou muito feliz com meu novo trabalho e com os desafios completamente novos que ele me traz. É um trabalho intenso e gratificante! Vamos ver o que os próximos meses reservam para mim!