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Haiti: trabalho humanitário pós-furacão Matthew

Promoção de saúde em meio a uma emergência no Haiti
13/01/2017
Haiti: trabalho humanitário pós-furacão Matthew

Foto: Arquivo pessoal

Data: 28/10 - Olá! Sou Ananda, coordenadora de promoção de saúde, e estou pela segunda vez no Haiti, desde o dia 15/10. Esta é a minha terceira experiência profissional com MSF e a segunda em caráter de urgência.

Estou na cidade de Jérémie, situada no departamento da Grand’Anse, no sudoeste do país. A cidade é um importante centro regional e foi devastada pelo furacão Matthew no último 4 de outubro: tetos, vegetação, árvores enormes e habitações mais frágeis estão por toda a parte. Aqui, recrutei e formei uma equipe de 20 pessoas para a sensibilização comunitária por meio da promoção de saúde. Os educadores de saúde de MSF atuam em Jérémie e em diversas comunidades dos arredores focando a comunicação na prevenção contra doenças, incluindo a cólera, e identificando vítimas de ferimentos e fraturas graves. Em paralelo, foi preciso organizar, junto às outras equipes de MSF, o recrutamento dos educadores de saúde e os materiais de sensibilização: megafones, equipamento de campo, cartazes. A logística das atividades também é fundamental e é elaborada de acordo com a estratégia da equipe médica.

A temporada de chuvas começou e o acesso a algumas comunidades fica bastante comprometido. As chuvas também podem potencializar os casos de cólera, doença já endêmica no Haiti, infecções respiratórias, malária e casos de desnutrição. Há muitas pessoas passando fome, com acesso restrito à comida, e que perderam seus meios de subsistência. A estratégia do trabalho de promoção de saúde se adequa também às doenças e zonas com riscos maiores de propagação. As sensibilizações também consideram bastante o trabalho da equipe de MSF responsável por viabilizar o acesso de algumas comunidades à água potável.

MSF também opera duas clínicas móveis e, por vezes, acessamos comunidades por helicóptero para oferecermos ajuda médica e realizarmos atividades de promoção de saúde. Cada dia parece ter um milhão de horas... O volume de trabalho é enorme, mas estar aqui e poder ajudar este pouquinho nos traz um tanto de relativismo e da grandeza desta população.

Li em algum outro diário de bordo que uma missão humanitária é uma jornada solitária, apesar de estarmos rodeados de pessoas. Acho que se trata de uma solidão que de alguma forma te faz olhar para dentro de si, acessar emoções esquecidas nas prateleiras. Estar disponível e pronto a ajudar e, ao mesmo tempo, estar apenas consigo mesmo.
Observar seus arredores acessando o seu interior. Saber viver em contato não se trata apenas do outro, mas muito, mesmo, de você também. O Haiti me traz isso como nenhum outro país já visitado até hoje: é uma grandeza tão simples que a experiência me envolve, como as praias cristalinas e mornas daqui. É impressionante como o mundo escolheu isolar e esquecer este lugar, o primeiro país das Américas a se tornar independente. Aqui, porém, as pessoas não esquecem: elas seguem um repertório de vida imposto com uma resiliência verdadeiramente superior.

Sei bem que estas palavras vêm num espaço onde muita dor é vista e onde, mais uma vez, eu testemunho a devastação. A natureza, porém, não é a vilã aqui: ela desvela novamente o que se tenta esconder – o quão vulnerável um ser humano pode ser.