Camila Donnola, psicóloga, conta sua primeira experiência com MSF na RDC
Parte 5 - Kinshasa, República Democrática do Congo, 12 de fevereiro de 2010
Uma coisa que me impressiona muito, e sempre, é quanto essa doença é uma epidemia que influencia a vida de milhares de pessoas. Aqui na África a doença afeta qualquer um. Não existe « grupo de risco », apesar de as mulheres serem bastante afetadas por sua condição de submissão. Quer dizer, como aqui é ainda mais difícil dizer não para os homens, ou impor condições de maneira geral, as mulheres aceitam ter relações sexuais sem proteção.
Normalmente, como aqui também as mulheres vão mais frequentemente ao médico do que os homens, elas acabam descobrindo primeiros que estão infectadas. Com alguma frequência, quando elas contam aos seus companheiros, acabam expulsas de casa, acusadas de tê-los traído, mesmo que, normalmente, a traição tenha sido da parte deles.
Mas o efeito que a Aids tem sobre a vida das pessoas vai além. São milhares de crianças infectadas em partos e em transfusões de sangue, porque o controle do sangue está longe de ser uma realidade. Outras tantas, órfãs por causa da doença. Por fim, mas não menos importante, muitas pessoas sem condições de se sustentar por causa da doença. Como aqui não dá para contar com seguridade social, a maior parte depende financeiramente da família ou passa a morar nas ruas, vira “indigente”.
Indigente, aliás, é uma palavra muito usada por aqui para identificar as pessoas que não têm condições de sustentar o tratamento e nem todas as coisas das quais ele depende. Ou seja, precisam receber ajuda para chegar aos centros de saúde e para se alimentar. Às vezes, precisam de colchões, roupas, fraldas, leite, enfim, tudo para conseguir seguir minimamente o tratamento.
Para as profissionais do sexo fornecemos preservativos masculinos e femininos porque o valor que elas recebem pelos programas não cobre o custo desses “supérfluos”, ou seja, elas escolhem entre a ameaça de morrer hoje – de fome – ou de sofrer amanhã – de Aids. Obviamente, preferem comprar comida, quem faria diferente?
O pior de tudo é que isso não interessa muito ao governo, que conta sempre com as ONGs para as estratégias de cuidado. Como as ONGs trabalham com « projetos » e é inerente a ideia de que um projeto não dura para sempre, uma vez que um projeto está em vias de fechar, acabou.
De fato, mesmo que capacitemos pessoal para trabalhar na saúde e forneçamos estruturas médicas montadas para a continuidade do trabalho, não há grandes perspectivas. Um centro de saúde vai fechar em alguns meses e não há ninguém interessado em assumir o projeto. Ponto final.
Mesmo assim continuamos. Meu trabalho, que se mostra cada vez mais interessante, tem sido continuar a supervisionar e capacitar essas pessoas. A equipe do centro de saúde que vai fechar continua motivada e interessada, trabalhando muito, pensando cada vez mais em possibilidades de sustentar o trabalho enquanto é possível. No meio de tantas dificuldades, é um verdadeiro oásis para mim.