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Oferecendo assistência de forma diferente para alcançar pessoas com HIV na África Ocidental e Central

06/12/2017
Oferecendo assistência de forma diferente para alcançar pessoas com HIV na África Ocidental e Central

Foto: Tommy Trenchard/Panos Pictures

Mercedes Tatay
Mercedes Tatay

Aviso importante: o conteúdo e as opiniões expressas nestes artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento oficial de Médicos Sem Fronteiras.

Por Mercedes Tatay, Secretária Médica Internacional de MSF

Esta semana, pesquisadores, agentes políticos, clínicos e ativistas envolvidos na resposta ao HIV participarão da ICASA2017, em Abidjan, Costa do Marfim. Estando no coração da África Ocidental e Central, não há um lugar melhor para que eu e meus colegas médicos de MSF lembremos algumas das principais razões que impedem milhões de pessoas na região de terem acesso ao tratamento de HIV. Elas devem ser abordadas no tema deste ano de "oferecer cuidados de forma diferente" para serem compreendidas. Caso contrário, simplesmente não alcançaremos os 4 milhões de pessoas na região que ainda não foram diagnosticadas ou tratadas para a doença.  

Cada pessoa com Aids que vemos chegar em nossas salas de espera e de emergência na República Democrática do Congo ( RDC), Guiné e República Centro-Africana (RCA) conta uma história de fracasso terrível: a falha do sistema de saúde em fornecer anti-retrovirais vitais (ARVs) em tempo oportuno e sem interrupções.

Na região da África Ocidental e Central, até o final de 2016, apenas 42% das pessoas que vivem com HIV tinham acesso a testes, 35% das pessoas diagnosticadas estavam recebendo antirretrovirais vitais e apenas 25% eram "reprimidas viralmente". Numa era de 'testar e tratar todos', as pessoas ainda estão morrendo de Aids. Nós vemos cada vez mais pessoas que já estiveram em tratamento e o interromperam. Quando elas voltarem a se cuidar, provavelmente serão resistentes ao novo tratamento. Se não oferecermos tratamentos eficazes e em tempo oportuno, estaremos fracassando com nossos pacientes. Ao fim do dia, somos totalmente responsáveis por aqueles para quem oferecemos cuidados médicos, não apenas a governos ou doadores.

Existe uma gama impressionante de obstáculos entre as pessoas que vivem com o HIV e o tratamento vital, entre eles o estigma generalizado, os bloqueios legais e políticos e a relutância em incluir a sociedade civil e as comunidades na melhoria e ampliação da resposta ao HIV. Os conflitos contínuos em países como a RCA ou partes da RDC  adicionam ainda mais complexidade à questão.

No entanto, de longe, os maiores desafios são os problemas recorrentes de abastecimento, os estoques de produtos de HIV e os altos custos encontrados pelos pacientes, assim como a diminuição dos níveis de financiamento internacional, que contrastam com os compromissos políticos assumidos para impulsionar a resposta ao HIV no Oeste e África Central.

Na RDC, por exemplo, nossa equipe testemunha regularmente o impacto do esgotamento de estoque e a falta de medicamentos e diagnóstico. Isso faz com que as pessoas não possam ser testadas ou iniciadas no tratamento. Aqueles que já estão em tratamento enfrentam o risco de desenvolver infecções oportunistas ou resistência viral, o que reduz consideravelmente suas chances de sobrevivência.
 
Muitos sistemas de abastecimento da África Ocidental e Central não são nem flexíveis nem reativos às demandas das pessoas que vivem com HIV. Os suprimentos frequentemente ficam retidos em pontos de distribuição centrais, nunca chegando aos necessitados. Sem suprimentos suficientes e regulares, organizando recargas de medicamentos mais longas, como o modelo R6M iniciado na Guiné, não será possível.

As tarifas cobradas ao usuário também devem ser eliminadas e é preciso encontrar alternativas para evitar que os usuários precisem pagar pelo serviço na clínica. Em vários países da região, as pessoas tem que pagar por consultas, pelo acesso a seus prontuários ou testes e medicamentos necessários contra infecções oportunistas. Esses pagamentos impedem as pessoas de iniciarem ou continuarem o tratamento com ARVs.  Aqueles que - evitando o tratamento devido ao alto custo - ficam doentes e exigem atendimento hospitalar enfrentam despesas catastróficas.

No centro de Aids mantido por MSF em Kinshasa, um estudo (2016) entre profissionais de saúde, cuidadores e pessoas que chegaram com estágio avançado de Aids descobriu que os pagamentos por cuidados e medicamentos foram um dos principais fatores para que eles desenvolvessem estágios tão avançados de doença e demorassem a receber cuidados. Em outros lugares, como Bangui, na RCA, as pessoas que vivem com HIV recentemente disseram a MSF que pagam 2,70 dólares pelo teste de HIV e 9 dólares por um mês de fornecimento de ARVs – uma verdadeira fortuna para a maioria. Como resultado, muitos permanecem não testados ou, se já estão em tratamento, ficam cansados e desistem do regime.

A atual falta de financiamento internacional impedirá que recursos suficientes estejam disponíveis para as intervenções essenciais de resposta ao HIV. Os recursos permanecem muito abaixo do que a região precisa para atingir os objetivos acordados pelos governos. Um "fosso de financiamento substancial" (de acordo com o UNAIDS) hoje ameaça o progresso da região e pode até comprometer os resultados positivos obtidos.

Além disso, há muita incerteza  se a próxima alocação do Fundo Global proporcionará apoio suficiente à aceleração necessária na África Central e Ocidental. Espera-se que a alocação da maioria dos países permaneça no mesmo nível dos últimos três anos ou diminua. Como resultado, alguns países temem ter que baixar as taxas de iniciação em vez da aceleração planejada, o que terá consequências drásticas para as pessoas que vivem com HIV, pelas quais, repito, somos responsáveis.

O financiamento e o apoio à sociedade civil e às associações de pessoas vivendo com  HIV também estão sob ameaça, apesar do grande reconhecimento do seu papel fundamental na resposta. Na África Ocidental e Central, particularmente, isso irá prejudicar ainda mais o papel fundamental da sociedade civil na expansão dos testes de HIV e dos serviços de tratamento e monitoramento.

É claro que, sem abordar de forma rápida e eficaz esses desafios, a ampliação regional de emergência acordada em julho de 2017 não será mais do que uma chamada de reunião. Mais importante ainda, as pessoas não receberão o tratamento de que precisam e continuaremos a manter as vidas de milhões na África Central e Ocidental "fora de foco".

Por isso, MSF faz um apelo por:

-    Modelos inovadores de cuidados e mobilização comunitária que permitam que as pessoas vivendo com HIV se mantenham saudáveis no tratamento, particularmente nas áreas de conflito.
-    Pacotes de cuidados focalizados e diferenciados para identificar rapidamente e fornecer um tratamento eficiente e oportuno para pessoas com AIDS que ajudem a recuperá-los de forma regular.
-    O suporte rápido e eficaz para a entrega de suprimentos médicos essenciais e os planos de longo prazo para montar cadeias de abastecimento eficientes devem ser combinados com medidas de curso prazo, a fim de evitar baixos níveis de estoques.
-    Todos os aspectos dos cuidados com o HIV e  tuberculose devem ser feitos "gratuitamente", uma vez que o encargo financeiro para as pessoas afetadas e suas famílias ameaça o acesso, a retenção e a qualidade dos cuidados.
-    É necessário que haja um financiamento crescente e contínuo para implementar estratégias chave que aceleram a resposta ao HIV nos países da África Ocidental e Central.

Atualmente, MSF apoia mais de 230 mil pessoas que vivem com HIV em 19 países de toda a África, Ásia e Europa Ocidental, com foco em cuidados gratuitos e de qualidade. Isso inclui abordagens de teste e tratamento, suporte de melhor adesão e modelos diferenciados de cuidados.