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Não podemos nos conformar com a escalada de mortes por Covid-19

13/05/2020
Temos presenciado no Brasil um enorme desalinhamento entre as orientações dadas nas diferentes esferas do governo
Não podemos nos conformar com a escalada de mortes por Covid-19

Foto: Mariana Abdalla/MSF

Ana de Lemos
Ana de Lemos

Aviso importante: o conteúdo e as opiniões expressas nestes artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento oficial de Médicos Sem Fronteiras.

A pandemia de COVID-19 representa um desafio sem precedentes na história de todos nós. A situação vivida em todo o mundo neste momento não se compara a nada que já vimos.

Mesmo com a grande experiência de Médicos Sem Fronteiras na prestação de cuidados médicos em condições extremamente adversas, fomos pegos de surpresa. Nossos recursos materiais e, principalmente, humanos estão sendo exigidos ao limite. Enfrentamos o crescimento de casos em países mais pobres, com sistemas de saúde frágeis ou quase inexistentes e passamos a atuar com populações vulneráveis em locais com sistemas de saúde robustos, mas que não foram suficientes para responder à pandemia.

No Brasil, o sistema público de saúde já foi capaz de responder de maneira eficaz a crises anteriores e, sem dúvida, é um ativo essencial neste momento. Porém, ele está sendo levado ao limite e, em alguns lugares, já entrou em colapso. Trabalhar em abrigos, instalações médicas e nas ruas de nosso país nos coloca diante de situações dramáticas. Presenciamos o esgotamento das vagas para os doentes mais graves, cuja perspectiva é ficar sem assistência.

Além da dura realidade da carência de profissionais e de estoques de material médico, vemos a COVID-19 se aproximar do cotidiano de todos. Para os que têm de enfrentá-la todos os dias, a doença é uma realidade, no sofrimento dos pacientes que lutam para vencê-la, na morte dos que não puderam resistir, no impacto sobre a saúde mental dos amigos e entes queridos que ficam e têm de enfrentar as perdas sem uma despedida digna. Também se torna real no sentimento de vulnerabilidade dos próprios profissionais de saúde, que veem colegas caírem doentes e morrerem. E, nada mais humano, no medo da doença e da morte, de ter o mesmo destino de milhares que já se foram.

Entre a população geral, os mais pobres e vulneráveis estão lamentavelmente mais expostos e precisam de atenção urgente. Um cenário de descontrole da doença faz com que extratos mais ricos, que usualmente têm maior acesso a cuidados de saúde, também fiquem mais expostos. Para tentar evitar o sofrimento de todos, é essencial que todas as pessoas que têm a possibilidade de fazê-lo respeitem as medidas de distanciamento social e fiquem em casa.

O confinamento não é uma medida simples e implica em sacrifício para toda a sociedade, mas o esforço se torna mais tolerável quando há coesão social e um direcionamento claro.

Infelizmente, temos presenciado no Brasil um enorme desalinhamento entre as orientações dadas nas diferentes esferas do governo em relação ao distanciamento social, à suspensão de atividades não-essenciais e aglomerações. Mais do que isso, as ocorrências da doença e as mortes têm sido tratadas, na melhor das hipóteses, como meras fatalidades. Na pior delas, com absoluto descaso.

Como organização humanitária, temos o dever de condenar com indignação o descaso. E como organização médica, é nossa obrigação esclarecer que há mortes que são evitáveis. Podemos, com medidas de distanciamento social e cuidados de higiene, diminuir a quantidade de pessoas que ficam doentes ao mesmo tempo e aliviar a carga sobre o sistema de saúde.

O momento de agir é agora, para que não nos arrependamos quando o impacto sobre as pessoas que amamos, e sobre nós mesmos, seja mais difícil ou mesmo impossível de ser revertido. Por isso, se puder, fique em casa.

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