Venezuela: após terremoto, sobreviventes lidam com luto e impactos na saúde mental

MSF implementa ação abrangente de apoio psicossocial para população e profissionais expostos a altos níveis de tensão emocional

Psicóloga de MSF presta apoio a paciente em uma clínica móvel em Playa Verde, Maiquetia, após terremotos. Venezuela, julho de 2026. ©Belen Filgueira/MSF
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Mais de um mês e meio após os dois terremotos ocorridos em 24 de junho na Venezuela, as comunidades afetadas em La Guaira e Caracas enfrentam uma profunda crise de saúde mental. 

O desastre, que afetou a região centro-norte do país, deixou mais de 6.300 mortos e 1.400 desaparecidos, gerando danos incalculáveis e impactos psicológicos, marcados pelo luto, pelo deslocamento e pela perda da sensação de segurança até mesmo dentro de casa.

Para apoiar a população, Médicos Sem Fronteiras (MSF) implementou uma ação abrangente, que inclui atendimento de saúde mental e apoio psicossocial, por meio de clínicas móveis em La Guaira (Maiquetía, Catia La Mar, Tanaguarena) e Caracas (Av. Bolívar). 

As atividades oferecem um espaço seguro para que as pessoas expressem e processem o que estão vivendo.  

Por meio da psicoeducação comunitária, as equipes ajudam crianças, adolescentes e adultos a reconhecer reações como medo, tristeza e angústia, permitindo a identificação precoce daqueles que necessitam de Primeiros Socorros Psicológicos (PSP) e apoio emocional inicial. 

Atividade de saúde mental com sobreviventes do terremoto em um abrigo temporário em Naiguatá, La Guaira. Venezuela, 31 de julho de 2026. ©Belen Filgueira/MSF

Quando o impacto emocional interfere na vida cotidiana ou no autocuidado, MSF oferece consultas individuais e coletivas para fortalecer estratégias de enfrentamento e, se necessário, encaminhar os pacientes a serviços especializados. 

Perder um ente querido, a própria casa ou o meio de subsistência deixa um impacto profundo que pode afetar gravemente a saúde mental, causando tristeza, ansiedade ou luto.  

Na vida cotidiana, esse impacto frequentemente se manifesta por meio de um medo persistente de réplicas dos tremores, dificuldade para dormir ou pesadelos, mudanças repentinas de humor, isolamento e lembranças involuntárias que fazem as pessoas reviverem o momento dos terremotos. 

Uma mãe de 24 anos me contou que encontrou sua filha, de apenas 1 ano de idade, após quinze dias de buscas. A expressão no rosto da criança mostrava que ela havia sofrido muito, e a mãe não conseguia se perdoar por isso.”

– Natalia Tapiero, psicóloga de MSF

 

Até o momento, MSF prestou atendimento a: 

  • 310 pessoas em consultas individuais de saúde mental; 
  • 4.245 pessoas por meio de sessões de terapia em grupo e apoio comunitário;
  • 707 pessoas que receberam Primeiros Socorros Psicológicos e apoio emocional imediato. 

Além disso, oferecemos atendimento psicossocial especializado no necrotério “Los Silos”, em La Guaira. Esse apoio é voltado tanto para as famílias que buscam os corpos de seus entes queridos quanto para a equipe forense e administrativa exposta a altos níveis de tensão emocional. 

“Tenho testemunhado o que nós, psicólogos, chamamos de dissociação funcional: pessoas que guardam sua dor em um canto para poderem lidar com os procedimentos práticos, adiando seu luto até encontrarem seus parentes”, constata Natalia Tapiero, psicóloga de MSF que passou um mês prestando atendimento de saúde mental no necrotério de La Guaira.

“Há outros que chegam com uma devastação evidente, e há também aqueles que voltaram ao país exclusivamente para essa busca. Uma jovem, após identificar seus pais, me disse com profunda tristeza: ‘Vim por causa deles, mas, depois disso, definitivamente não tenho mais motivos para voltar a este país.’” 

Em contextos de desastre, o atendimento de saúde mental não é um luxo, mas uma necessidade básica essencial para aliviar o sofrimento e proteger a dignidade humana. 

 

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