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Violência sexual nos campos de deslocados e arredores de Goma

16/01/2013
Após tratar 95 vítimas de violência sexual em um mês, Médicos Sem Fronteiras denuncia a falta de atitude por parte dos responsáveis pela proteção dos civis e as condições inseguras dos acampamentos da região de Goma, na República Democrática do Congo

Entre 3 de dezembro de 2012 e 5 de janeiro de 2013, a equipe de Médicos Sem Fronteiras (MSF) que trabalha no campo de Mugunga III, a poucos quilômetros a oeste de Goma, registrou e tratou 95 pessoas vítimas de violência sexual. No final de dezembro, equipes de MSF observaram um aumento nas internações por traumas relacionados diretamente à violência sexual, elevando a média diária de consultas médicas para seis.

Apesar da evidente vulnerabilidade da população e das precárias condições de vida nos acampamentos, ninguém está providenciando segurança adequada para as pessoas deslocadas. “Os acampamentos e os vilarejos do entorno enfrentam uma falta de segurança gritante”, conta Thierry Goffeau, coordenador geral de MSF em Goma. “As autoridades responsáveis e os líderes de diversos grupos armados, sem exceção, alegam estar defendendo a população civil. Eles devem, então, assumir sua responsabilidade e assegurar que os mais vulneráveis não sejam alvo de violência ou represálias.”

A intensa presença de soldados e grupos armados próximo dos acampamentos de pessoas deslocadas instituiu um estado de insegurança crônica no qual estupros fazem parte da rotina diária. “Todos os envolvidos no conflito precisam dedicar mais atenção ao problema dos estupros”, diz Goffeau. “Devido à frequência dos ataques, o estupro tornou-se corriqueiro. Os agressores agem impunemente, raramente sendo castigados. Poucas vítimas registram queixas por temerem represálias.”

Estupro ou morte
“Saí para procurar comida no campo”, conta uma pessoa deslocada e vítima de estupro. “Dois homens armados em uniformes apareceram e me disseram que se eu não quisesse morrer, teria que fazer sexo com eles.” Depoimentos como esse são impressionantemente similares e todos narram as mesmas circunstâncias: ataques que ocorrem próximo aos acampamentos ou em vilarejos vizinhos no momento em que as mulheres saem para buscar lenha ou alimentos.

Outro cenário comum em que acontecem os ataques são os próprios acampamentos. Os pedaços de madeira e as lonas plásticas utilizadas para criar abrigos não fornecem a proteção adequada ou mesmo detêm os agressores. “A violência é onipresente”, diz a psicóloga de MSF Marie Jacob. “É uma violência baseada em poder, na lei do mais forte, na lei da pessoa armada.”
 
Mais de 100 mil pessoas buscaram refúgio nos acampamentos para deslocados da região de Goma após os confrontos entre as forças rebeldes e o governo, em novembro de 2012. MSF atua no campo de Mugunga III desde o final de novembro, oferecendo cuidados de saúde primários, organizando transferências para os casos de emergências médicas e tratando vítimas de violência sexual. A organização também está atuando nos campos de Lac Vert, Mugunga e Bulega, onde as equipes oferecem cuidados de saúde, testes e tratamento para desnutrição e vacinação contra o sarampo, além de construírem chuveiros e latrinas.

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