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"Víamos os pacientes chegando em carrinhos de mão.”

16/02/2018
Givemore Madhanzi é médico e se juntou a MSF em outubro de 2008. Ele trabalhou nos projetos Gweru, Gokwe e Epworth, no Zimbábue.
"Víamos os pacientes chegando em carrinhos de mão.”

Foto: Ikram N`gadi

Estávamos vendo pacientes que eram muito pobres. Eles não podiam pagar pelo tratamento padrão em nenhum dos nossos hospitais. A maioria deles estava muito, muito doente. Nos três projetos você vê pacientes extremamente doentes chegando. Eles estão desesperados, não foram atendidos em nenhum outro lugar, mas eles só sabem sobre a experiência médica de MSF na luta contra o HIV e a tuberculose (TB). A maioria deles é HIV positivo e está inscrito no programa de tratamento da doença.


Eles escutam como MSF tem médicos suficientes, ao contrário de outras policlínicas. Lá, os médicos podem realizar visitas uma vez por semana ou por mês, ou fazer escalas porque um médico pode estar cobrindo seis ou sete policlínicas. Aqui, há médicos residentes desde a manhã até o final do dia. Então eles sabem que receberão os serviços que eles precisam.


A maioria são homens, que chegam apenas quando as doenças já estão em estágio avançado. É comum achar que os homens procuram ajuda no último momento, ao contrário das mulheres. Penso que é uma questão de ignorância e alguns sabem, mas eles simplesmente não querem saber se eles têm HIV. Suas esposas já estão no tratamento antirretroviral (ARV), talvez tenham testado HIV positivo durante o atendimento pré-natal, parto ou pós-natal. Elas estão em tratamento ARV há muitos anos, enquanto o homem se recusa a fazer o teste e vem até nós apenas quando está muito doente.


Quando entrei no projeto de Gweru, nós realmente fizemos a diferença porque víamos pacientes chegando em carrinho de mão, alguns em carroças, mas depois de duas a três semanas esses pacientes estavam caminhando. Então, depois de um ano ou dois, eles estão trabalhando.


Em termos de cuidados com as pacientes, há muitas melhorias significativas na vida delas. As pacientes que ficavam de cama estão trabalhando. Agora eles vão cuidar de suas famílias e, em seguida, fazem o programa de prevenção de transmissão para outras crianças (PMTCT). Havia muitas crianças doentes que estavam morrendo no primeiro mês, ou no primeiro ano após o parto, mas com o nosso programa PMTCT, nós salvamos muitas crianças de contrair HIV de suas mães.


A maioria de nossos pacientes está à margem da comunidade: não podiam pagar por muitos serviços médicos, como radiografias de tórax ou exames de ultrassom. Nós realizamos para eles esses exames, assim como o diagnóstico para tuberculose (TB). A TB é a doença que mais mata os pacientes. Na verdade, em todos os projetos, a coinfecção por TB e HIV foi o principal motivo de mortes. Então, no momento em que você diagnostica a TB, você a trata e o paciente continua estável e bem.


Junto a MSF, uma coisa que eu realmente admiro são os cursos que você faz antes de começar a trabalhar no terreno. Para estar no terreno e ser competente, você precisa de treinamento.

Esse treinamento realmente nos qualificou para cuidar de nossos pacientes. Realizamos muitos treinamentos no local de trabalho para outros profissionais da área médica, especialmente pessoal de enfermagem.


Você acaba desenvolvendo uma mentalidade humanitária, devido ao cuidado com essas áreas difíceis de acessar. Há lugares como Vumba, onde um paciente nunca esteve em contato com um médico. Eles ficaram surpresos com o fato de que MSF enviava médicos para lá, onde na estação de chuvas eles podem ficar seis ou sete meses sem acesso a serviços médicos ou serviços sociais.

MSF tem feito um trabalho esplêndido em termos de qualidade de trabalho e cuidados com os pacientes.

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