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Uma jovem palestina, um menino paquistanês e um idoso sírio: eu conheci as pessoas que a União Europeia decidiu deixar de receber e proteger

17/06/2016
Dr. Conor Kenny, em colaboração com Ifigenia Anastasiadi e Elisa Compagnone, relata a evacuação do acampamento de Idomeni e sua experiência com o tratamento de refugiados e imigrantes na Grécia após o acordo entre União Europeia e Turquia
Uma jovem palestina, um menino paquistanês e um idoso sírio: eu conheci as pessoas que a União Europeia decidiu deixar de receber e proteger

Foto: Guillaume Binet/MYOP

A remoção forçada de 8 mil pessoas do acampamento de Idomeni nas primeiras horas do dia 24 de maio de 2016 colocou um fim a outro capítulo da chamada “crise de refugiados” na Europa. No início daquela manhã silenciosa, os residentes acordaram com o som das botinas de 400 policiais marchando nos caminhos que entremeiam o vasto acampamento informal. Equipes de três a quatro oficiais vestidos de preto, com bastões e máscaras contra gás lacrimogêneo preparados, iam de tenda em tenda “encorajando” os residentes a entrar nos ônibus que prometiam levá-los a “centros de acolhimento” localizados no norte da Grécia. Mantendo qualquer resto de dignidade que podiam, os refugiados embarcaram nos ônibus que os esperavam para viajar mais uma vez rumo ao desconhecido.

Homem olha pela cerca que o impede de atravessar a fronteira com a Macedônia (Foto: Alex Yallop/MSF)Em uma caminhada pelo acampamento, tive o privilégio de conhecer um senhor com idade suficiente para lembrar dos soldados franceses deixando a Síria em 1946. Walid tinha doença crônica pulmonar e estava se esforçando para decidir se a melhor opção para aliviar a pressão sobre seus pulmões era “o sufocamento” de sua tenda ou “a fumaça no ar do lado de fora”. Ele descreveu como a vida que levava foi destruída pela guerra civil que tomou sua cidade e seu país cinco anos atrás. Ele havia tentado acessar o programa de relocação enquanto vivia no acampamento (disponível somente por Skype), mas não conseguia entender o conceito de Skype, muito menos como usar a ferramenta online para esclarecer qual seria o próximo passo em sua jornada.

Sua vizinha, uma jovem palestina da Síria, estava lutando para conseguir cuidar sozinha de seus filhos. Ela viajou para a Grécia dois anos atrás após uma bomba destruir metade de sua casa e duas de suas filhas morrerem. Após uma curta estadia em Idomeni, a família se mudou para a Antiga República Iugoslava da Macedônia (FYROM, na sigla em inglês) e viveu em um acampamento próximo da fronteira sérvia por quase um mês:

“Um dia, o exército da FYROM veio para nos forçar a voltar para a Grécia. Tentei resistir com todas as minhas energias, porque eu não queria voltar para a Grécia, e, sim, me juntar ao meu marido na Alemanha. Eles me colocaram junto aos meus filhos em um caminhão do exército e depois na cadeia. Havia ao menos 50 homens do Paquistão e do Afeganistão. Eu era a única mulher. Foi um dos dias mais humilhantes da minha vida. Eu estava com tanto medo que mal conseguia respirar, estava em um estado de pânico. Implorei a eles que não deixassem a mim e aos meus filhos ali com aqueles homens, mas eles não se importaram e começaram a me provocar.

Mais tarde, eles nos trouxeram para a fronteira grega, e nos empurraram através de um buraco na cerca. Vindo para a Europa, pensei que nunca mais veria seres humanos tratando outros seres humanos de uma forma tão desumana, mas eu estava errada.”

Quando essa mulher falou, ficou claro que tudo o que ela queria era encontrar-se novamente com seu marido.

“Meus filhos não veem o pai deles há seis meses. Estou com medo e cansada de viajar sozinha. Fico perdida e aterrorizada se paro para pensar que não vou vê-lo novamente.”

Independentemente dos motivos ocultos das evacuações do acampamento, é importante enxergar aqueles que estão sendo relocados como pessoas reais, em vez de instrumentos políticos que se tornaram. Na experiência, o impacto resultante tem sido profundo tanto sobre a saúde física quanto a mental.

Veja, por exemplo, o caso de um adolescente afegão, vestido de jeans e camisa xadrez, o cabelo amarrado para trás, sentado em sua tenda dedilhando três das cinco cordas de um violão quebrado. Ele contou que foi enviado para a Europa por sua família depois que seu pai foi executado pelo Talibã. Para chegar a esse ponto, ele foi forçado a amadurecer rápido, em meio a diversos indivíduos sem escrúpulos, dispostos a explorar a sua inocência por dinheiro ou pior. Foi difícil para ele entender as razões por trás da evacuação de Idomeni, e por que ele não poderia continuar sua jornada. Tanto que ele e seus amigos haviam sofrido 18 tentativas de afastá-los da fronteira com a FYROM – alguns desses enfrentamentos resultaram em espancamentos graves. Sua ingenuidade também o colocou no radar de traficantes, que prometem um “bilhete de ouro” para uma vida melhor por uma pequena fortuna. Enquanto ele usou a música como uma válvula de escape, infelizmente, muitos de seus pares recorrem à automutilação como um método de liberar as suas frustrações.

No entanto, na Grécia de hoje, Walid, a mulher palestina e o menino afegão são os que têm sorte, pois chegaram antes do dia 20 de março*. Na ilha de Kos, Khalid, um paquistanês de 21 anos, perseguido por suas crenças religiosas, é agora um dos detidos em decorrência do acordo UE-Turquia. Ele encarou uma árdua jornada de 5,500 km por terra e por mar para chegar à Grécia, e contou muitas experiências em que esteve sob risco de morte – principalmente enquanto subia o famoso Monte Maku Pass, onde viu os membros mais fracos do grupo sendo ameaçados com uma arma para que subissem logo. Corpos na beira da estrada serviram como um lembrete da alternativa. Ele também descreveu espancamentos de contrabandistas, e que passou semanas em um alojamento apertado, privado de alimentação e água, sem nenhuma informação sobre onde, quando ou como teria segurança. Agora, ele enfrenta a deportação iminente para a Turquia e um futuro muito incerto.

Enquanto estava em Idomeni, eu testemunhei a enorme desconexão entre aqueles em posições de tomada de decisão e aqueles que estão presos, vivendo a dura realidade em campo. As mensagens conflitantes que os refugiados receberam sobre seu futuro e suas opções, como resultado dessa abordagem perigosamente complacente, só serviram para piorar sua confusão e prolongar um sofrimento desnecessário.

Como um cidadão europeu, estou profundamente envergonhado pelo modo como essa “crise” crônica e evitável foi criada e está sendo conduzida. A má gestão só fez com que pessoas extremamente vulneráveis sofressem ainda mais; muitas das quais se sujeitaram a jornadas nocivas após enfrentarem o fardo da guerra. Os refugiados são explorados para ganhos pessoais – seja por traficantes ou por políticos.

Um questionamento: quantos mais “Idomenis” serão ou estão sendo criados antes que uma solução significativa seja implementada para aliviar o sofrimento de algumas das pessoas mais vulneráveis na Europa? Fecharo Idomeni e movendo as pessoas para novos acampamentos, destrinchar um grande problema em muitos problemas menores e, assim, “varrê-los para debaixo do tapete”, parece ser apenas mais uma resposta política reativa à vergonha da atuação da Europa na oferta de assistência a refugiados. Parece que não estamos perto de uma solução humana.

*O acordo UE-Turquia foi implementado no dia 20 de março. Todos aqueles que chegam à Grécia a partir dessa data estão sujeitos aos termos do acordo, o que inclui a possibilidade de expulsões massivas para a Turquia.

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