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Um dia qualquer em um hospital do norte da Síria

31/08/2017
Assessora de comunicação de MSF, Diala Ghassan, descreve situação de pacientes e famílias no hospital de Tal Abyad
Um dia qualquer em um hospital do norte da Síria

Foto: Chris Huby

Pintadas com as palavras “as mulheres são a revolução” e “não emigrarei”, me dão as boas-vindas ao norte da Síria. A princípio, no entanto, não parece um lugar em guerra. Próximo às estradas há campos de trigos e oliveiras. Apesar de tudo, a Síria continua tendo o cheiro de terra fresca e de pão recém saído do forno que lembro da minha infância.

Entretanto, aos poucos começam a aparecer no caminho cartazes com fotos de pessoas que morreram em combates. A partir de então, tudo começa a lembrar o conflito: o grande muro construído para separar o norte da Síria da Turquia, os rombos deixados nas paredes causados por bombas, os edifícios destruídos, as aldeias e também as cidades, devastadas...

Vamos até o hospital de Tal Abyad na província de Raqqa, ao sul da fronteira com a Turquia. A instalação foi atingida por bombardeios e durante alguns meses mal conseguiu funcionar. Sua estrutura foi danificada e a maior parte dos equipamentos médicos foi saqueada. A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) fornece apoio às salas de pediatria e maternidade, além do centro cirúrgico. Ali, chegam pacientes de cidades e povoados próximos, mas também pessoas de locais a 120 quilômetros de distância, como Raqqa, Deir Ezzor e Al Tabqa.

As ruas vizinhas ao hospital estão cheias de escombros e há edifícios com construções inacabadas. Também é surpreendente a quantidade de cães de rua. Isso tem explicação. Os sírios que viviam nesta região são, na sua maioria, agricultores. Muitos deles tinham ovelhas ou outro tipo de gado, além de um ou dois cães para proteger os animais. Quando fugiram do combate, houve camponeses que deixaram para trás seus cães e rebanhos, pensando que retornariam em poucos dias. Ou poucas semanas. Mas não. Desse modo, os cachorros que ficaram sem comida começaram a devorar os cadáveres que ficavam nas ruas. Agora esses cães continuam andando pelas ruas e são perigosos. Mas, como disse um morador do bairro: “Não podemos mata-los. Já temos muitos mortos neste país”.

Já no hospital, falo com um dos médicos. Ele é de Raqqa e fugiu dali porque não havia equipamentos médicos nem profissionais suficientes para continuar seu trabalho. Antes, havia mais de 60 cirurgiões naquela cidade. Agora, ele diz, há apenas três. Ele decidiu se instalar em Tal Abyad porque há um número limitado de profissionais médicos e as necessidades são extremamente altas. Pelo que ele me conta, recebem casos de emergência e cirúrgicos todos os dias. Relativos à guerra ou não, mas a maioria dos feridos são vítimas de artefatos explosivos, minas e armadilhas.

Esse é o caso do menino que encontro deitado em um dos leitos da sala de raio-X. Um de seus olhos está coberto com um curativo branco, seu corpo inteiro tem feridas e sua camisa está cheia de manchas de sangue. Pergunto ao médico sobre o menino, mas o pai dele responde, com lágrimas nos olhos. “Ele estava brincando com uma bateria que encontrou no jardim”, conta. Na realidade, porém, era um artefato explosivo.

O menino tem 8 anos de idade e perdeu um olho. Além disso, ele tem uma lesão abdominal e ferimentos de estilhaços por todo seu corpo. Ao que parece, sua irmã mais nova estava de pé ao seu lado quando a explosão aconteceu, mas seus ferimentos não foram tão graves, de acordo com o pai. A família é de Tishreen, uma área em que até pouco tempo atrás havia combates. Agora, a região está cheia de minas e restos de artefatos não detonados. Essa não é a primeira vez que uma criança da cidade é ferida por um artefato explosivo.

O pequeno vai precisar de uma cirurgia ocular, que não está disponível em Tal Abyad, de modo que ele terá que ser transferido para Qamishli ou para um hospital fora da Síria. Isso na melhor das hipóteses, claro, porque se sua família não puder arcar com esse gasto, o garoto viverá com essa lesão para sempre. Essa guerra é injusta. Injusta para ele e também para toda sua geração.

As equipes de MSF não descansam e fazem de tudo para que o hospital seja o mais funcional possível para uma zona de guerra, onde os suprimentos e profissionais médicos podem demorar anos para chegar e onde os atrasos e carências são questões diárias. Assim como as vacinas. O principal desafio que as equipes de vacinação encontram aqui é que, às vezes, a quantidade de vacinas é limitada. Os mais prejudicados são as crianças com menos de 5 anos de idade dos povoados que rondam a cidade de Tal Abyad, por onde se deslocam as equipes de vacinação de MSF.

Esses profissionais trabalham no centro uma vez por semana e nos outros dias se deslocam até essas regiões por meio de clínicas móveis. As equipes são formadas por três pessoas, que  vacinam cerca de 100 crianças por rodada em cada um dos povoados que visitam. Algumas das crianças nunca foram vacinadas, ou por falta de vacinas ou porque os pais não estão cientes da importância que elas têm para a saúde de seus filhos.

As salas de internação estão cheias. A maioria dos pacientes está dormindo. Eu me aproximo de um dos poucos que está acordado. Percebo que foi necessário amputar uma das pernas desse jovem. Uma casa foi bombardeada em um ataque aéreo. A ofensiva acabou com a vida de 14 membros de uma família. “Um amigo ficou sabendo e veio me buscar em casa”, conta o jovem. “Precisávamos ver se conseguiríamos salvar alguém”, acrescenta ele. Os dois subiram na bicicleta do amigo e foram em direção ao lugar bombardeado. “Foi quando uma mina explodiu embaixo de nós. Meu amigo queria salvar vidas, mas perdeu a própria”.

Um grande silêncio preenche a sala. Isto é apenas um dia em um hospital do norte da Síria. Como terão sido esses sete anos de guerra?