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Um dia na vida de um promotor de saúde de MSF em tempos de COVID-19

29/04/2020
Como se prevenir do novo coronavírus em um campo de refugiados?
Um dia na vida de um promotor de saúde de MSF em tempos de COVID-19

Foto: MSF

Tumani Kombe é um promotor de saúde da Tanzânia que atua com Médicos Sem Fronteiras (MSF) no campo de refugiados de Nduta, no noroeste do país, onde MSF é a única provedora de serviços de saúde para 75 mil refugiados do Burundi. Ele está promovendo medidas de proteção que possam evitar um possível surto de COVID-19 no campo de Nduta, por meio do envolvimento da comunidade.

“Formamos uma fila sobre a terra úmida e vermelha todas as manhãs, em direção aos portões de segurança de aço à nossa frente e ao vasto acampamento adiante. Ali há abrigos feitos de tijolos de barro e lonas plásticas, cercados por grandes árvores.

Nos portões da entrada, nossa temperatura é medida, lavamos as mãos e adentramos no acampamento, em direção ao hospital. À medida que caminhamos, a luz do sol começa a bater pelas frestas das folhas e, lá longe, além das montanhas, quase se vê o Burundi. Saímos do ônibus e entramos no hospital, onde todos os dias nossas enfermarias estão lotadas de pacientes em tratamento para tuberculose, diabetes, doenças cardiovasculares, saúde mental e muito mais. Infelizmente, esses problemas de saúde graves não vão desaparecer só porque o novo coronavírus está cada vez mais perto do campo.

No entanto, com a rápida propagação da COVID-19 na Tanzânia e em toda a África, grande parte do meu trabalho como promotor de saúde passou a ser preparar a comunidade para um surto em Nduta. Eu busco engajar a comunidade de cerca de 75 mil burundianos do campo, espalhados por 30 km quadrados de terra lamacenta. Oferecemos educação sanitária sobre várias frentes, desde tratamento para diarreia e malária, até atendimento pré-natal, HIV e muito mais.
Com o potencial surto de COVID-19, também educamos as famílias sobre melhores práticas de higiene, distanciamento físico e explicamos como evitar a propagação do vírus.

Nosso trabalho aqui, educando e sensibilizando as pessoas, é muito importante, pois pode haver vários tipos de rumores circulando no campo. Recentemente, depois de um proeminente líder religioso alegar que a COVID-19 poderia ser curada por um pedaço de cabelo humano dentro de uma Bíblia, as pessoas começaram a mexer nas Bíblias para procurar esse pedaço de cabelo. Dizem que, para ser curado do vírus estrangeiro, é preciso colocar o cabelo dentro de um copo de água e beber.

Uma das várias responsabilidades que temos como promotores de saúde de MSF é visitar os abrigos das pessoas, um por um, e combater os mitos que cercam a COVID-19 e sensibilizar a comunidade sobre medidas preventivas reais e boas práticas de higiene.

No entanto, infelizmente, existem certas orientações que são simplesmente impossíveis de serem seguidas pela comunidade. O luxo do distanciamento social promovido vigorosamente e desfrutado por muitas sociedades não é viável no campo de refugiados de Nduta. Em média, cinco a sete pessoas compartilham um pequeno abrigo feito de tijolos de barro com um telhado de metal ou plástico. As pessoas vivem em condições apertadas e invariavelmente dormem no chão. Se alguém tiver os sintomas, como pode se isolar aqui?

Uma paciente, uma jovem de 19 anos de idade que deu à luz recentemente, disse que estava preocupada com um possível surto no campo. Ela perguntou como pode cumprir as medidas preventivas quando falta de sabão, quando há somente um ponto de distribuição de água para até 300 abrigos e apenas três pontos de distribuição de alimentos para todo o acampamento. A realidade é que é praticamente impossível aderir às medidas preventivas necessárias para garantir que as pessoas estejam protegidas da COVID-19.

O que é ainda mais preocupante é que muitos dos nossos pacientes são extremamente vulneráveis, com condições de saúde subjacentes, como hipertensão, HIV ou diabetes. Diante desses fatos, bem como da falta de isolamento, de testes e de capacidade de tratamento na região, que é uma das mais pobres da Tanzânia, fica claro que um surto de COVID-19 aqui pode ser esmagador para o nosso hospital e devastador para a comunidade.

Enquanto nos amontoamos no ônibus para deixar o acampamento no final do dia, dezenas de crianças descalças se despedem com sorrisos largos, enquanto o sol se põe atrás das montanhas que separam seus abrigos improvisados de sua terra natal. Isso me inspira a ir ao acampamento todos os dias para apoiar essa comunidade.

Mas, enquanto observo a COVID-19 se espalhar pelo meu país, aproximando-se cada vez mais do campo, estou preocupado. Nossas equipes estão trabalhando incansavelmente para se preparar para a bomba-relógio, não há muito que podemos fazer. É preciso que os refugiados e a comunidade anfitriã recebam mais apoio urgentemente, e eles precisam disso agora.

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