Você está aqui

Terremoto no Haiti: equipe cirúrgica trabalha sem parar para atender feridos

25/08/2021
Xavier Kernizan, cirurgião-ortopédico de MSF, relata o que encontrou na região Sul, afetada pelo desastre, e como os profissionais têm atuado no local
Terremoto no Haiti: equipe cirúrgica trabalha sem parar para atender feridos

Foto: Steven Aristil/MSF

Xavier Kernizan é um cirurgião-ortopédico que normalmente atua no hospital Tabarre de MSF, em Porto Príncipe, Haiti. Desde o terremoto de 14 de agosto, o profissional haitiano trabalha com uma equipe cirúrgica de MSF em Jérémie.

O que você fez no dia do terremoto?

Eu estava voltando para casa do hospital Tabarre de MSF e senti o tremor na estrada. No início, não achei que fosse um terremoto muito forte. Foi depois que comecei a receber fotos e imagens do ocorrido. Eu vi uma discussão informal em um grupo de bate-papo de MSF falando que poderíamos enviar uma equipe e disse ao nosso coordenador de atividades médicas que se MSF precisasse de um cirurgião-ortopédico, eu estaria disponível. Ele falou que partiríamos às 14h.

Estava tudo pronto neste horário e partimos rumo a Les Cayes. O ponto mais estressante foi passar pelo bairro Martissant para chegar à estrada que leva à região Sul, afetada pelo terremoto. Há confrontos armados na área e ouvimos relatos preocupantes que aumentaram nossa tensão - por nossa segurança, e não por causa do terremoto.

Qual foi a situação que você encontrou no Sul?

O primeiro lugar em que chegamos foi a cidade de Les Cayes. Foi muito impressionante. Isso me trouxe de volta ao terremoto de 2010, porque foi praticamente o mesmo tipo de destruição: casas totalmente desabadas e escombros nas ruas. Havia lugares por onde não podíamos passar, tínhamos que encontrar outro caminho. Passamos nossa primeira noite em Les Cayes, antes de seguirmos em frente. Um colega nosso já estava apoiando a sala de cirurgia do hospital de lá.

Na manhã seguinte, partimos para Jérémie. Antes de chegarmos ao Riviere Glace, vimos que a estrada estava bloqueada por um deslizamento de terra. Já sabíamos que a estrada estava bloqueada, mas ninguém pôde nos dizer se um carro conseguiria passar pelas pedras ali. Saímos do veículo e tiramos fotos mostrando como as pedras fechavam a estrada por pelo menos um quilômetro. Em seguida, tomamos um pequeno susto porque estávamos perto de um penhasco, quando houve um tremor secundário e algumas pedras caíram. Voltamos para Les Cayes e finalmente pegamos um helicóptero para chegar em Jérémie.

Como você começou a trabalhar no local?

A primeira dificuldade que tivemos foi fazer contato, saber quem deveríamos ver, porque ninguém sabia quem éramos e o que estávamos fazendo aqui. Demorou um dia e meio até que pudéssemos realmente trabalhar. O pessoal do Hospital Saint Antoine fez um trabalho extraordinário com os poucos funcionários e recursos que tinham. Muitos pacientes já tinham sido limpos e suas feridas estavam desbridadas¹ quando chegamos. Alguns pacientes tinham fixadores externos para consertar ossos fraturados e outros já haviam sido encaminhados para Porto Príncipe por via aérea. Vários médicos que eram originários desta região também vieram de seus empregos em outros lugares para apoiar o hospital.

Quando chegamos, perguntamos: "O que podemos fazer por vocês?". Começamos de onde eles começaram e então operamos muitas pessoas. No domingo, tivemos quatro pacientes, na segunda-feira, nove, e a partir de então, 10 a 12 pacientes por dia. Geralmente, saíamos do hospital entre 23h e meia-noite para atender ao máximo de pessoas. Dessa forma, estamos diminuindo o número de pacientes à espera de tratamento, à espera de cirurgia.

Agora você está atendendo pacientes para acompanhamento de cirurgias?

Sim, estamos iniciando acompanhamentos. A maioria dos nossos pacientes agora são aqueles que já atendemos, voltando para um desbridamento, uma nova cirurgia ou um gesso. Mas ainda há pessoas de áreas afastadas, onde não há socorro, que estão vindo para Jérémie para atendimento de emergência.

Até 20 de agosto, a equipe cirúrgica de MSF em Jérémie tratou 54 pacientes por ferimentos, como fraturas ósseas, sofridos no terremoto de 14 de agosto. Destes, 36 foram submetidos à cirurgia, enquanto outros receberam gesso ou talas. MSF também oferece atendimento cirúrgico no hospital Tabarre em Porto Príncipe. Até o momento, já foram internados no local mais de 45 pessoas com ferimentos decorrentes do terremoto, além de pacientes atendidos na sala de emergência e dispensados ou encaminhados para outro lugar.

¹ Ato cirúrgico que consiste na remoção de tecido morto, danificado ou infectado para melhorar a cicatrização do restante tecido saudável.

 

MSF usa cookies neste site para melhorar sua experiência.
Saiba mais na

Política de Privacidade. Aceitar