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Sudão do Sul: tratando a desnutrição infantil no campo de Yida

30/11/2012
De julho a novembro, MSF tratou mais de 2.120 crianças desnutridas no acampamento em seu programa de nutrição, que envolve cuidados hospitalares e ambulatoriais

No campo de refugiados de Yida, no Sudão do Sul, equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) estruturaram postos para tratamento ambulatorial de crianças com desnutrição. No final de julho, com o aumento considerável da taxa de mortalidade infantil no acampamento, MSF ampliou suas atividades para poder tratar os refugiados, muitos dos quais chegavam do Sudão muito enfraquecidos. Entre o final de julho e meados de novembro, MSF tratou mais de 1.680 crianças desnutridas em regime ambulatorial e 443 foram internadas em hospitais.

Uma equipe de MSF visita semanalmente cada um dos três postos ambulatoriais. Eles tratam crianças que ficam ali aguardando com suas mães. Há sempre muita espera, mas o processo é bastante organizado.

“Temos um ‘circuito’ para novos pacientes”, diz Jeanne, enfermeira de MSF especializada em desnutrição. “Quando uma mãe nos traz seu filho pela primeira vez, ele é examinado, pesado e a circunferência da parte superior de seu braço é medida por um bracelete que chamamos de MUAC (mid-upper arm circumference, que corresponde à circunferência da parte superior do braço, em português), que nos dá uma ideia de quão desnutrida a criança pode estar. Se, ao fechar o bracelete, o indicador fica no vermelho, isto significa que a criança está com desnutrição aguda grave; se fica no laranja, significa que a criança está com desnutrição aguda moderada; o amarelo indica risco; e o verde indica que está tudo bem.”

Após ser examinada, a criança cujo MUAC ficou vermelho ou laranja será admitida no programa de nutrição. “Nós registramos a criança, com seu peso e temperatura”, conta Jeanne, “para depois testarmos seu apetite, para verificar se está se alimentando normalmente. A criança recebe uma porção de alimento terapêutico de acordo com o seu peso para comer em uma hora. Geralmente, eles comem rapidamente!”

Posteriormente, um enfermeiro de MSF examina a criança para verificar se há outros problemas médicos. Há uma conversa com a mãe sobre desnutrição e higiene básica e o tratamento é prescrito: antibióticos por cinco dias para enfrentar possíveis infecções; um anti-helmíntico para se livrar de parasitas; e uma dose de vitamina A – todas as medicações em comprimido. “Nós também nos asseguramos que as mães compreendam que os sachês de alimento terapêutico prontos para o consumo devem ser dados apenas para a criança desnutrida e não para seus irmãos e irmãs saudáveis”, diz Jeanne. Por fim, a criança é vacinada contra o sarampo, caso não tenha sido vacinada anteriormente.

A mãe da criança, então, vai até a farmácia de MSF para pegar os comprimidos e o equivalente a uma semana de alimento terapêutico. Ela também recebe um mosquiteiro – vital para a proteção contra mosquitos que transmitem a malária -, um cobertor e uma barra de sabão. O enfermeiro, então, agenda o retorno desta mãe para o mesmo dia da semana seguinte.

Em alguns casos, as crianças são transferidas para o hospital. “Se percebemos pelo teste que a criança não tem apetite”, diz Jeanne, “nós geralmente a transferimos para o hospital para que fique sob observação, já que isso significa que há algo errado.” Crianças com desnutrição severa grave são também transferidas para o hospital se o enfermeiro detectar complicações. Uma vez internadas, crianças que não tenham desejo de comer ou que apresentem problemas respiratórios têm de ser entubadas para serem alimentadas.

No entanto, a maioria das crianças volta para a casa com sachês de alimentos prontos para o consumo após as consultas. Elas voltam uma semana depois para uma segunda consulta, mediante apresentação do cartão de acompanhamento que suas mães receberam. Novamente, a criança é pesada, a parte superior de seu braço é medida com o MUAC e o alimento terapêutico é prescrito por mais uma semana. Esse processo se repete até que a criança esteja pronta para ser liberada do programa. “A duração média do tratamento ambulatorial é de 30 dias”, conta Jeanne. “O prazo mínimo é de três semanas e o máximo, de oito.” As crianças são consideradas curadas quando a medida da circunferência da parte superior de seus braços supera os 125 cm.

A medida por meio do MUAC fornece uma indicação precisa da massa muscular da criança e reflete seu estado nutricional. Algumas vezes, outras metodologias são utilizadas, que mensuram a correlação entre o peso da criança e sua altura. Se uma criança com mais de dois anos e maior que 85 cm tem a medida do MUAC entre 125 e 134 mm, ela pode também precisar do tratamento para desnutrição.

Cuidados hospitalares em centros de nutrição terapêutica
O médico de MSF, Dr. Kai, passou três meses em Yida. Ele trabalhou no hospital em que crianças com desnutrição severa estavam sendo tratadas. Em sua maioria, as crianças tinham mais de cinco anos e sofriam também com complicações médicas como infecções respiratórias, diarreia ou malária. Em geral, as crianças são internadas em hospitais por seis ou sete dias. Após este período, elas são incluídas em programas de nutrição ambulatoriais. Kai viu muitas crianças serem tratadas no hospital, mas uma, em particular, chamou sua atenção.

“Havia um garoto de três anos cuja mãe era cega. Ele já havia sido hospitalizado outras duas vezes por desnutrição severa grave, mas sua mãe impediu a continuidade do tratamento. Ele tinha sido alimentado por meio do tubo naso-gástrico porque não estava comendo, mas sua mãe sensibilizou-se com os tubos no rosto de seu filho, não aguentou, e tirou-o do hospital. Alguns de meus colegas, eventualmente, a encontraram no acampamento e a convenceram a voltar ao hospital com seu filho, acompanhado de sua irmã. O estado de saúde do garoto havia piorado gravemente: seu corpo estava coberto por edemas (inchaços), ele estava com infecção respiratória e não estava se alimentando. Sem tratamento, ele, certamente, teria morrido. Como ele não comia, tivemos de entubá-lo novamente e tratá-lo com antibióticos.

Ele ficou internado por quatro semanas e virou o ‘queridinho’ da equipe de MSF. Sua irmã de sete anos esteve com ele todo o tempo. Ela o alimentava com leite terapêutico pelo tubo e, depois, o lavava. Assim que ele começou a comer o alimento terapêutico, ela também lavava seu prato. Ela o levava para tomar ar fresco e ajudava as mães que haviam recém-chegado ao hospital com seus filhos.

Quando ele chegou, não tinha energia para comer e nunca havia sorrido, mas não demorou a se recuperar. Então, começou a falar, andar, brincar e sorrir... E, em algum tempo, pôde deixar o hospital.”

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