Sudão do Sul: ataque iminente obriga população e MSF a saírem de cidade em 72 horas

©Paula Casado Aguirregabiria/MSF

O que você vai ler:

  • Há uma iminente ofensiva liderada pelo governo em Akobo, no Sudão do Sul, que está forçando as pessoas a escolher entre fugir sem proteção ou permanecer em risco extremo.
  • Mais de 17 mil pessoas recentemente deslocadas estão entre as afetadas, com serviços essenciais — incluindo cuidados de saúde — agora inacessíveis.
  • MSF insta todas as partes a protegerem os civis, criarem zonas seguras e garantirem acesso seguro a assistência médica e humanitária.

Centenas de milhares de pessoas em Akobo, no estado de Jonglei, Sudão do Sul, enfrentam uma escolha impossível, após ordens de evacuação emitidas em 6 de março e uma iminente ofensiva liderada pelas forças governamentais sobre a cidade. Elas precisam decidir se fogem, mesmo sem proteção, ou permanecem, correndo o risco de serem mortas e de perderem o acesso a cuidados de saúde e a outros serviços essenciais.

A população na região, atualmente sob controle da oposição, inclui mais de 17 mil pessoas que foram deslocadas há apenas algumas semanas, no conflito em curso no país.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) apela a todas as partes envolvidas no conflito para que protejam os civis e estabeleçam zonas seguras para as pessoas que buscam abrigo; garantam o acesso seguro à ajuda humanitária e aos cuidados médicos essenciais; e protejam as instalações de saúde, que salvam vidas.

Para muitas pessoas que já foram deslocadas várias vezes, simplesmente não há mais para onde ir.”

Christophe Garnier, coordenador-geral de MSF no Sudão do Sul

Por causa da evacuação, preparativos essenciais para a próxima temporada de malária, bem como os cuidados de saúde básicos e o apoio à vacinação para as comunidades locais e deslocadas, foram interrompidos.

“As consequências para as pessoas são devastadoras”, afirma Christophe Garnier, coordenador-geral de MSF no Sudão do Sul. “As famílias estão sendo forçadas a abandonar suas casas repetidamente, sem alternativas seguras. Para muitas pessoas que já foram deslocadas várias vezes, simplesmente não há mais para onde ir.”

Em 7 de março, a equipe de MSF em Akobo foi forçada a evacuar, deixando milhares de pessoas sem acesso a serviços essenciais de saúde primária. Algumas pessoas já começaram a fugir para a Etiópia ou para o vilarejo vizinho de Meer. O hospital de Akobo, onde MSF apoia a ala pediátrica, foi saqueado, assim como nossa farmácia, resultando na perda de todos os medicamentos e suprimentos médicos. Nosso escritório também foi saqueado por um grupo não identificado durante o fim de semana.

Isso ocorre em meio a um padrão preocupante de violência contra instalações de saúde no Sudão do Sul. Desde março de 2025, houve 12 ataques a profissionais de MSF e a unidades médicas apoiadas, forçando o fechamento de três hospitais. Somente nos dois primeiros meses de 2026, já ocorreram três ataques.

O estado de Jonglei enfrenta uma escalada da violência. Em 29 de janeiro, as equipes de MSF deixaram a localidade de Pieri por causa dos confrontos armados. Em 3 de fevereiro, ataques aéreos em Lankien mataram civis e destruíram o último hospital em funcionamento na cidade. Quase 280 mil pessoas foram deslocadas, incluindo 80 mil no condado de Akobo.

Akobo é uma área isolada com instalações de saúde muito limitadas, e MSF é uma das poucas organizações que prestam assistência a cerca de 112 mil pessoas. As equipes de MSF haviam recuperado o acesso ao local há apenas três semanas, após restrições impostas pelo governo terem bloqueado voos e fornecimento de suprimentos médicos. A organização havia acabado de começar a avaliar as comunidades recém-deslocadas para iniciar uma ação de combate à malária, quando os funcionários foram forçados a sair novamente.

Essas repetidas evacuações impostas pelo governo deixam as pessoas presas, expostas à violência e isoladas da ajuda humanitária.”

Christophe Garnier, coordenador-geral de MSF no Sudão do Sul

“Estamos profundamente preocupados com a possibilidade de o hospital de Akobo ser atingido, privando as comunidades dos cuidados médicos de que precisam para sobreviver”, alerta Garnier.

As comunidades recentemente deslocadas, exaustas e traumatizadas pelos últimos confrontos, vivem em abrigos improvisados, sem água potável, alimentação adequada ou proteção. Privadas de cuidados essenciais e em condições que ferem sua dignidade, elas permanecem expostas a doenças, fome e à constante ameaça de violência extrema.

Evacuações repetidas, ataques a profissionais de saúde e instalações médicas e restrições impostas pelo governo estão prejudicando a capacidade de ação de MSF. As pessoas no Sudão do Sul precisam de mais ajuda, e não menos.

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