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Sudão do Sul: ajudando ex-crianças-soldado de Yambio a aceitar o passado

05/10/2018
Programa de saúde mental de MSF ajuda os jovens a aceitarem suas experiências e se reintegrarem à comunidade
Sudão do Sul: ajudando ex-crianças-soldado de Yambio a aceitar o passado

Foto: Philippe Carr

Na cidade de Yambio, no Sudão do Sul, a desmobilização de crianças-soldado que foram forçadas a lutar durante a longa guerra civil do país está em andamento. Essas crianças gostariam de voltar para as vidas que tinham antes da guerra, mas algumas enfrentam dificuldades, em consequência de tudo o que passaram. Médicos Sem Fronteiras (MSF) mantém um programa de apoio à saúde mental para ajudá-las a aceitar suas experiências à medida que se reintegram às comunidades.

A guerra teve muitos capítulos obscuros, mas um dos piores foi o recrutamento forçado de crianças pelos dos dois lados do conflito. Esses jovens combatentes eram altamente valorizados por seus comandantes adultos, porque frequentemente seguiam ordens sem entender o impacto de suas ações.

Muitas ex-crianças-soldado estão traumatizadas. Separadas de suas famílias, elas foram obrigadas a levar uma vida brutal de violência e trabalhos forçados. Em alguns casos, as crianças foram espancadas e abusadas sexualmente. Os horrores que muitas viram em batalha parecem impossíveis de esquecer.

Mas, nos últimos seis meses, um grupo de organizações governamentais e não-governamentais, incluindo MSF, trabalhou para reintegrar essas crianças às suas comunidades. Os psicólogos e conselheiros de MSF têm desempenhado um papel fundamental, oferecendo cuidados de saúde mental às crianças. No total, 632 foram inscritas no programa de desmobilização, com diferentes grupos se formando ao longo do ano.

“É importante perceber que nem todas as crianças precisam de aconselhamento psicológico”, diz Rayan Fattouch, coordenador de atividades de saúde mental de MSF em Yambio. “O espírito humano é resiliente e tem seu próprio jeito de lidar com problemas. Mas algumas crianças apresentam sintomas de estresse pós-traumático ou têm flashbacks, o que pode levar ao desenvolvimento de ansiedade e depressão.”

Esses sintomas não aparecem apenas por causa da experiência como soldados. Muitas temem um futuro incerto. Elas têm medo de como serão aceitas por suas comunidades e o que acontecerá com suas vidas.

A desmobilização pode ser uma situação complicada. Ex-crianças-soldados percebem que, durante seus anos de cativeiro, a vida seguiu em frente e o mundo que elas conheciam mudou. Em alguns casos, as famílias foram forçadas a se afastar e não podem ser encontradas. Em outros, os parentes podem ter morrido. Essa compreensão muitas vezes tem um efeito prejudicial duradouro.

Algumas crianças-soldado não são bem recebidas. Suas comunidades de origem frequentemente têm medo de aceitá-las de volta. Durante os anos que passaram lutando, alguns grupos armados usaram as crianças para roubar suprimentos de civis. Eles também extorquiram dinheiro dessas comunidades, alegando oferecer proteção.  Aqueles que não podiam ou não queriam pagar enfrentavam confrontos violentos. Parte do processo de reintegração envolve ajudar as comunidades a entender a situação das crianças enquanto estiveram em cativeiro e a analisar suas próprias experiências durante esse período de conturbado.

“Algumas crianças carregam o fardo da culpa”, diz Carol Mwakio Wawud, psicóloga do programa de MSF. “Não se trata apenas de algo que elas podem ter feito ou visto enquanto estavam uniformizadas. Alguns ainda se sentem culpadas por terem sido capturadas e tiradas de suas famílias. Elas acreditam que a culpa foi delas”.

Mwakio e outros profissionais de saúde mental de MSF tentam ajudá-las a entender que elas não eram inteiramente responsáveis por suas ações enquanto estavam uniformizadas. “Lembramos a elas que seus comandantes davam as ordens e as forçavam a cometer atrocidades. Esse foi um período de suas vidas sobre o qual elas não tinham controle, mas agora o futuro oferece muitas possibilidades ”, acrescentou Mwakio.

A confiança está no coração do relacionamento entre os conselheiros e seus jovens pacientes. Isso não é apenas parte do código de ética do psicólogo, é um laço crucial necessário para garantir que esses jovens possam se expressar livremente.

“Cada detalhe é levado em consideração para tornar as consultas psicológicas tão confortáveis quanto possível em casos sensíveis. Isso é importante para que possamos desenvolver um laço de confiança ”, disse Mwako. “Detalhes como onde o nosso paciente se senta durante as sessões são realmente importantes. Nós os deixamos ver a entrada da tenda, para que saibam que ninguém está escutando. Nosso objetivo é mostrar a eles que recuperaram o controle sobre as próprias vidas ”.

É importante que a criança seja bem cuidada. Muitas dessas crianças se sentem inseguras, temem ser arrastadas de volta para a vida em combate. Em tais circunstâncias, qualquer melhoria em relação à saúde mental pode ser perdida rapidamente. Se eles sentem que o programa de desmobilização os decepcionou de alguma forma, a desilusão se instala. Existe até o risco de que alguns queiram voltar à vida de soldado.

“Quase todas as crianças querem voltar a ter uma vida normal, com perspectivas de futuro”, diz Paul Maina, coordenador do programa do MSF. “Quando você fala com elas, todas querem ir para a escola como as outras crianças da mesma idade. Elas sabem que somente através da educação serão capazes de garantir uma nova vida ”.

O sistema de saúde no Sudão do Sul é rudimentar e existem poucos profissionais locais de saúde mental para atender às necessidades das crianças e das suas comunidades. Para compensar isso, membros das equipes do Sudão do Sul estão sendo preparados para atuar como conselheiros. Estão participando de um programa de formação acelerado e, nos próximos meses, poderão apoiar casos sob supervisão.

O programa em Yambio está ajudando essas crianças a mudarem suas vidas. Mas essa é apenas uma pequena parte do país, que precisa de muita cura. Estima-se que, em todo o Sudão do Sul, 19.500 crianças serviram como combatentes durante o conflito e precisam ser desmobilizadas. Enquanto alguns podem encontrar suas próprias maneiras de lidar com o passado, outros precisarão de ajuda neste novo capítulo de suas vidas.