Sudão do Sul à beira do colapso: ataques contra civis e hospitais, violência sexual e fome

Relatório de MSF detalha escalada de conflitos no país, violência contra a assistência médica e agravamento da crise humanitária

Profissionais de MSF descarregam itens de primeira necessidade no estado de Jonglei, no Sudão do Sul, para atender comunidades deslocadas pela violência. ©Isaac Buay/MSF

 O que você vai ler: 

  • No Sudão do Sul, ataques realizados pelas forças governamentais, pelas forças da oposição e por todas as outras partes envolvidas no conflito tornaram a violência uma realidade cotidiana. 
  • O último relatório de MSF detalha como os ataques aos serviços de saúde deixaram a população sem assistência vital. 
  • MSF apela a todas as partes envolvidas no conflito para que protejam os civis e as infraestruturas essenciais, incluindo os serviços de saúde. 

 

Ataques indiscriminados contra a população e infraestruturas civis – incluindo bombardeios a hospitais –, recrutamento forçado, violência sexual, restrições de acesso e redução do espaço humanitário são realidades que assolam o Sudão do Sul. Isso é o que descreve o mais recente relatório de Médicos Sem Fronteiras (MSF) sobre a escalada da violência no país, intitulado “Eles os mataram enquanto fugíamos”.

O documento revela que um total de 12 ataques contra equipes e instalações de MSF deixou cerca de 762 mil pessoas sem acesso a cuidados de saúde entre janeiro de 2025 e abril de 2026.

MSF apela ao governo do Sudão do Sul, ao Exército de Libertação do Povo do Sudão na Oposição (SPLA-IO, na sigla em inglês) e a todas as partes envolvidas no conflito para que protejam e respeitem civis e a infraestrutura essencial.

A população e as infraestruturas civis, incluindo a assistência de saúde, nunca devem ser um alvo. Ataques diretos constituem graves violações do Direito Internacional Humanitário.

De acordo com a norma, todas as partes têm a obrigação de respeitar e proteger os civis e de evitar o uso indiscriminado ou desproporcional da força, incluindo o uso de ataques aéreos e armas incendiárias em áreas povoadas.

 

Civis encurralados pela violência

“Fugi com meu filho. Dava para ver o vilarejo em chamas de longe”, lembra uma mulher deslocada que recebeu atendimento em uma unidade de MSF em Chuil, no estado de Jonglei. “Eles incendiaram as casas. Queimaram minha avó dentro do tukul [moradia tradicional]. Os idosos ficaram para trás, não conseguiram fugir conosco. Eles mataram os idosos.”

Ataques direcionados e indiscriminados, conduzidos pelo governo, pelas forças da oposição e por outros atores armados, estão prejudicando cada vez mais as pessoas e o acesso a cuidados que salvam vidas.

Desde janeiro de 2025, MSF tratou em média 16 pessoas por dia por ferimentos relacionados à violência, em seis estados – Jonglei, Alto Nilo, Equatória Central, Lagos, Warrap e Equatória Ocidental – e duas áreas administrativas, Abyei e Grande Pibor.

Em todas essas áreas, civis estão enfrentando ataques aéreos e terrestres, recrutamento forçado, sequestros e violência sexual e de gênero generalizada.

– Zakaria Mwatia, coordenador-geral de MSF no Sudão do Sul. 

“Cidades e vilarejos populosos estão sendo atingidos, resultando em vítimas, deslocamento em massa e destruição da infraestrutura civil, reforça Mwatia. 

 

Escalada da violência refletida nos dados médicos

O impacto da violência é evidente nos dados médicos de MSF e se confirmam pelo fato de que ocorreram 138 ataques aéreos no país durante 2025, em comparação com apenas dois em 2024.

No ano passado, MSF tratou 6.095 pessoas por ferimentos relacionados à violência, incluindo lesões por arma de fogo, por explosão e violência sexual e de gênero, em comparação com 4.765 pessoas em 2024.

Em 2025, somente o tratamento a feridos por arma de fogo aumentou 77% em comparação com 2024.

De janeiro a abril de 2026, MSF já atendeu mais de 1.800 pessoas feridas pela violência, incluindo 885 sobreviventes de violência sexual e de gênero, destacando o número crescente de vítimas entre a população civil.

 

Violência sexual em meio ao conflito

“Na noite de sexta-feira, ela sofreu violência sexual de um grupo de homens em Yei”, relata um profissional de MSF ao falar sobre uma paciente no hospital de Yei, no estado de Equatória Central, em março de 2026.

“Ela não sabia quantos eram. Veio até nós para receber tratamento. Após o atendimento, sua avó a levou para o vilarejo, pois achava que lá estaria segura. Na segunda-feira seguinte, ela saiu sozinha para buscar lenha. Então, foi estuprada novamente por um homem armado não identificado. Ela voltou à nossa clínica na terça-feira.”

 

Hospitais e equipes médicas atacados

A área da saúde também não foi poupada. Desde janeiro de 2025, MSF sofreu 12 ataques contra a equipe e instalações de saúde, incluindo sequestros e saques.

Um veículo de MSF em Lankien, no estado de Jonglei, no Sudão do Sul, foi alvejado após o bombardeio ao estoque principal do hospital da cidade, ocorrido em 3 de fevereiro de 2026. ©Stefan Pejovic/MSF

O hospital apoiado por MSF em Old Fangak foi deliberadamente bombardeado pelas forças governamentais em maio de 2025.

O hospital de Lankien, de MSF, também foi bombardeado pelo mesmo grupo em fevereiro de 2026.

Instalações em Ulang, Pieri e Akobo foram saqueadas em diferentes episódios de violência por criminosos desconhecidos. Ao mesmo tempo, o espaço humanitário está se reduzindo a um nível alarmante.

 

Espaço humanitário cada vez mais restrito

“A insegurança generalizada, as restrições de acesso e a instrumentalização da ajuda estão impedindo cada vez mais as organizações humanitárias de chegar às pessoas com mais necessidade”, alerta Mwatia. “MSF observou um padrão preocupante de bloqueios de acesso e ordens de evacuação dirigidas a civis e atores humanitários.”

A assistência humanitária também está sendo usada como ferramenta para objetivos militares e políticos por todas as partes envolvidas no conflito.

Tentativas de forçar ONGs a redirecionar a ajuda ou afastá-la de certas áreas estão privando comunidades inteiras – particularmente em regiões controladas pela oposição em Jonglei e no Alto Nilo – de assistência vital e impedindo uma resposta humanitária adequada.

 

Fome, deslocamentos e colapso das condições de vida

Civis sofrem ainda com deslocamentos forçados, sequelas físicas, incluindo de longo prazo, maior risco de desnutrição e de adquirir outras doenças, necessidades crescentes de saúde mental e prejuízos em seus meios de subsistência.

As longas jornadas que as pessoas percorrem sem acesso consistente a alimentos e água, além das condições de vida adversas, aumentaram a situação de vulnerabilidade, especialmente quando combinadas com uma resposta humanitária limitada e a interrupção do fornecimento de alimentos essenciais.

Moses, 77 anos de idade, sentado sob uma árvore onde também dorme, após ser forçado a fugir de sua casa em Yuai, no estado de Jonglei, no Sudão do Sul, devido ao aumento da violência. ©Isaac Buay/MSF

MSF reitera que civis, profissionais de saúde e organizações humanitárias devem ser protegidos em todos os momentos. O acesso humanitário precisa estar livre de obstáculos para que a assistência chegue a todas as pessoas que necessitam, onde quer que estejam.

 

MSF está presente no Sudão do Sul desde 1983, sendo atualmente um dos países com maior atuação da organização em todo o mundo.

Desde o início de 2025, os confrontos se intensificaram em todo o Sudão do Sul, opondo as forças governamentais, as Forças de Defesa Popular do Sudão do Sul (SSPDF) e seus aliados – incluindo as Forças de Defesa do Povo de Uganda (UPDF) – a uma coalizão fragmentada de grupos de oposição, incluindo o Exército de Libertação do Povo do Sudão na Oposição (SPLA-IO), a Frente de Salvação Nacional (NAS), o Exército Branco Nuer e milícias aliadas.

O conflito não é uma simples rivalidade entre dois lados: é uma guerra multipartidária com alianças instáveis, profundamente fragmentada ao longo de linhas étnicas, regionais e políticas.

Compartilhar

Relacionados

Como ajudar