Relatos da crise de desnutrição em Gaza

Mulheres grávidas e bebês são gravemente afetados, sem acesso a alimentação básica

Samar Abu Mustafa, paciente de Médicos Sem Fronteiras diagnosticada com desnutrição na gravidez. ©Nour Alsaqqa/MSF

insegurança alimentar causada por Israel em Gaza tem um impacto devastador sobre mulheres grávidas, lactantes e bebês.  

Antes da guerra, a desnutrição era quase inexistente no território. Mas, desde 2024, os casos passaram a atingir níveis alarmantes, em especial durante os períodos de intensificação da violência e de cerco, como em meados de 2025. Temos registrado esse aumento nos projetos de Médicos Sem Fronteiras (MSF). 

Com a destruição e o bloqueio israelense da entrada de ajuda, as pessoas simplesmente não conseguem obter alimentos básicos para sobrevivência.  

 

 

Samar Abu Mustafa, paciente de Médicos Sem Fronteiras em Gaza. ©Nour Alsaqqa/MSF

Há muito tempo que não comemos nada nutritivo, e o bebê não recebe leite suficiente de mim.”  

-Samar Abu Mustafa, mulher palestina de 32 anos  

Sou de Abasan al-Kabira, a leste [de Khan Younis]. Depois que fomos deslocados, nossa situação ficou muito difícil. Minha condição financeira é péssima. Nossa casa e as roupas das minhas filhas se foram. Estou estressada, psicologicamente exausta.  

A guerra destruiu a vida de todos. Nos primeiros meses de gravidez, fui diagnosticada com desnutrição. Comecei a fazer acompanhamento em uma clínica de MSF. O bebê tem agora 3 meses de vida, e não sei como vou conseguir fraldas e leite, nem como vou alimentar minhas outras filhas.  

Não há renda nem apoio. Minha visão está debilitada, e fui ferida no primeiro dia em que fomos deslocados, com estilhaços no pulmão. Meu marido foi atropelado por um carro e ficou ferido.  

A cada seis meses, talvez recebamos um pacote de alimentos. Mal dá para sobreviver. É tudo arroz e lentilha. Somos forçados a comer o que quer que esteja à nossa frente.  

Moramos em um depósito, amontoadas com cinco famílias em um espaço pequeno. Pelo menos deixamos de ser deslocadas e nos estabelecemos.  

Há muito tempo não comemos nada nutritivo, e o bebê não recebe leite suficiente de mim. Sou obrigada a dar fórmula, mas não tenho dinheiro para isso. Tenho apenas uma lata de leite sobrando.  

Depoimento dado em abril de 2026 

 

Sahar Nafez Salem, paciente de Médicos Sem Fronteiras em Gaza. ©Nour Alsaqqa/MSF

Dependemos principalmente de alimentos enlatados… Tentamos conseguir o almoço para nossos filhos às sextas-feiras, para trazer a eles um pouco de alegria.”  

-Sahar Nafez Salem, mulher palestina de 24 anos   

Eu morava em Al-Sharqiya, mas agora estou deslocada em Khan Younis. Vivo em uma tenda com meus filhos. Estamos deslocados há cerca de um ano.  

Sofremos muito durante a guerra. É muito cansativo para uma mulher grávida.  

Dependemos da cozinha comunitária. Almoçamos lá e guardamos um pouco para o jantar.   

Quando fiz os exames de gravidez, descobriram também que eu estava com desnutrição.  

As condições de vida nas tendas são difíceis em todos os sentidos — pulgas e insetos se proliferaram, e há areia por toda parte.   

Raramente compramos no supermercado. Dependemos principalmente de enlatados, arroz, lentilhas e grão-de-bico, quando estão disponíveis.   

Tentamos conseguir almoço para nossos filhos todas as sextas-feiras, para trazer a eles um pouco de alegria. Mas durante toda a semana, quase tudo vem das cozinhas comunitárias.  

A última vez que recebi ajuda foi durante o Ramadã. Quando o pão, a farinha e o arroz acabaram… e havia muito pouco, deixamos tudo para as crianças mais novas. Os adultos faziam apenas uma refeição.  

Agora a situação está melhorando um pouco. Há arroz e lentilhas… Outros itens, como vegetais, são caros. Não conseguimos comprá-los o tempo todo. Então, às vezes ficamos sem vegetais por meses.  

Depoimento dado em abril de 2026 

 

Mahmoud Hamza Badr Shabana, paciente de Médicos Sem Fronteiras em Gaza. ©Nour Alsaqqa/MSF

Hoje, um jovem como eu não consegue levar nada aos filhos, não consegue fornecer comidas nem bebidas.” 

-Mahmoud Hamza Badr Shabana, homem palestino de 29 anos  

Sou natural de Rafah. Estou deslocado em Khan Younis há dois anos. Enfrentamos dificuldades para obter água, comida, bebidas, fraldas e leite para a criança.  

Não há trabalho. Estamos deslocados em uma tenda — eu, minha esposa e meu filho. Descobrimos que ele sofre de desnutrição quando tinha 2 meses de vida.  

Quando preciso de algo, saio e procuro o que posso para minha família. Peço emprestado aos vizinhos. Desde o dia em que saímos de Rafah, recebi apenas uma caixa de alimentos e um saco de farinha uma única vez.  

Não tenho condições de comprar comida porque está muito cara. Hoje, um jovem como eu não consegue levar nada para casa para os filhos — não consigo fornecer comida nem bebida.  

Apesar do cessar-fogo, a vida continua muito difícil. O período de fome foi o pior: não conseguíamos encontrar nada, e minha esposa estava grávida. Todos os dias comíamos lentilhas. Não havia pão, nem farinha, nada.  

Nós superamos isso, graças a Deus que passou. Até hoje, minha esposa e meu filho ainda estão em acompanhamento por causa da desnutrição.  

Depoimento dado em abril de 2026 

MSF apela às autoridades israelenses, na qualidade de potência ocupante, – e aos Estados aliados, incluindo os EUA – para que facilitem a entrada adequada e sustentada de assistência vital para as pessoas que vivem em Gaza, a fim de restaurar níveis respeitáveis de saúde, nutrição e dignidade. 

 

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