Somália enfrenta agravamento da crise de saúde e de desnutrição após temporadas de chuva insuficientes

Seca prolongada, cortes na ajuda humanitária e aumento do custo da água elevam casos de desnutrição e outras doenças evitáveis

Moradoras acessam um ponto de distribuição de água no acampamento onde vivem pessoas deslocadas internamente, em Mudug, na Somália. ©Mohamed Abdirahman/MSF

A Somália enfrenta uma grave crise de saúde e nutrição após sucessivas temporadas de chuva bem abaixo do esperado, o que provocou o aumento exorbitante dos preços da água. Os cortes drásticos na ajuda humanitária também contribuíram para a atual crise. Em novembro de 2025, o Governo Federal da Somália declarou estado de emergência devido à seca.  

As equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão testemunhando um aumento acentuado nos casos de desnutrição e surtos de doenças evitáveis, como sarampo, difteria e diarreia aquosa aguda, entre as populações deslocadas e as comunidades anfitriãs que buscam atendimento nos centros de saúde em Baidoa e Mudug. 

A Somália, um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas, enfrenta choques climáticos recorrentes, como secas e inundações devastadoras. Após quatro temporadas consecutivas de chuva com baixa pluviosidade, relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que 4,4 milhões de pessoas poderão atingir o nível de crise ou superior em insegurança alimentar (escala IPC) até o final de 2025. Esse cenário coloca cerca de 1,85 milhão de crianças menores de cinco anos sob risco de desnutrição aguda. 

Os mesmos relatórios mostram que mais de 3,3 milhões de pessoas já foram forçadas a deixar suas casas, muitas chegando a acampamentos superlotados ao redor de Baidoa e Mudug. Com o financiamento humanitário atingindo seu nível mais baixo em uma década, serviços essenciais estão entrando em colapso. Desde o início de 2025, mais de 200 unidades de saúde e nutrição fecharam em todo o país, e a assistência alimentar caiu de 1,1 milhão de pessoas por mês para apenas 350 mil. 

Em Baidoa, em outubro de 2025, a equipe de MSF testemunhou uma tendência preocupante: as internações por desnutrição aguda grave aumentaram 48% em comparação com o mês anterior. Simultaneamente, 189 crianças foram tratadas por suspeita de sarampo, 95% das quais nunca haviam sido vacinadas.  

Na região de Mudug, as internações por desnutrição aguda grave em centros de alimentação terapêutica aumentaram 35% no mesmo período. Em toda a região, mais de 182 unidades de saúde fecharam ou estão funcionando apenas parcialmente, e estima-se que 300 mil crianças estejam sofrendo de desnutrição aguda. 

Estamos vendo crianças chegando aos nossos hospitais em estado crítico, muitas vezes depois de viajarem por dias sem comida ou água.”

 – Allara Ali, coordenadora de projetos de MSF na Somália

 “A seca não só secou os poços, mas também esgotou os sistemas de apoio dos quais as famílias dependem. Nossas equipes estão trabalhando ininterruptamente para tratar a desnutrição grave e os surtos de sarampo e difteria, mas o grande volume de pacientes está levando nossa capacidade ao limite. As pessoas estão exaustas e, sem acesso imediato à água e aos cuidados de saúde, mais vidas serão perdidas por causas evitáveis” continuou Allara. 

A seca devastou os meios de subsistência, forçando famílias a abandonar suas casas e buscar refúgio em acampamentos para deslocados superlotados, onde o acesso à água e ao saneamento básico é extremamente limitado. O custo da água disparou para níveis proibitivos, com um barril de 200 litros custando entre US$ 2,50 e US$ 4,00 em Baidoa e Mudug, respectivamente. 

Kaltuma foi para Baidoa depois que a seca destruiu o sustento de sua família e matou seu gado. Ela é mãe e tem 35 anos de idade. ©Mohamed Abdirahman/MSF

“A maioria dos homens está desempregada e as mulheres estão grávidas ou cuidando de crianças”, descreveu Kaltuma Kerow, uma mãe de 35 anos que vive em um acampamentpara deslocados internos em Baidoa, relatando a luta diária. “Não temos dinheiro para comprar água. Estamos com extrema falta de comida e água, e tememos doenças como a cólera. A fome e a falta de água potável estão piorando tudo.” 

 

Atividades de MSF 

Em resposta à grave escassez de água, MSF lançou uma resposta emergencial de distribuição de água por caminhão em Baidoa, em dezembro de 2025. Em meados de janeiro, as equipes distribuíram mais de 6 milhões de litros de água potável em 17 acampamentos para deslocados internos, instalando reservatórios de água e sistemas de iluminação solar para melhorar a segurança e o acesso. Apesar de nossos esforços, a dimensão das necessidades continua enorme. 

Rahma Bashiir, uma mãe de 38 anos que vive em um acampamento para pessoas deslocadas em Galkayo, já foi deslocada diversas vezes por conflitos e secas. “Todas as minhas cabras e ovelhas morreram. Não temos dinheiro para comprar água potável, pois um barril custa US$ 4, e nossas crianças adoecem por beberem água salgada”, disse ela. 

Os remédios da farmácia não adiantam quando se está com fome.”

– Rahma Bashiir, deslocada no acampamento em Galkayo 

“Essa situação é inaceitável porque é previsível e, em grande parte, evitável”, disse Elshafie Mohamed, representante de MSF na Somália. “A resposta humanitária atual está em seu nível mais baixo em uma década, deixando milhões de pessoas sem acesso a cuidados básicos de saúde, alimentos ou água. A comunidade internacional e as autoridades somalis devem agir com urgência para evitar uma perda catastrófica de vidas nos próximos meses.” 

MSF está pedindo ação imediata para ampliar os programas de nutrição, as campanhas de vacinação e os serviços de água, juntamente com o compromisso contínuo para ajudar as comunidades a resistir aos impactos climáticos.  

Com a estação seca de Jilaal já em andamento e a expectativa de que as necessidades aumentem ainda mais, MSF insta instituições internacionais e as autoridades a liberarem rapidamente o financiamento emergencial para assistência vital, além de investirem em medidas de longo prazo, incluindo infraestrutura hídrica resiliente a crise climática e apoio contínuo a serviços essenciais de saúde e vacinação.  

Sem uma resposta multissetorial consolidada, a perda de vidas em larga escala será inevitável. 

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