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Só a vacinação vai travar o avanço feroz da COVID-19 no Iraque

01/04/2021
O coordenador de projecto da MSF em Bagdad, Omar Ebeid, descreve os efeitos brutais da COVID-19 no Iraque, onde não foi possível sequer recuperar o fôlego entre a primeira e a segunda vaga.
COVID-19 no Iraque

© Hassan Kamal al-Deen/MSF

 

Vi algo novo em Bagdad recentemente. Num dos muitos postos de controlo existentes na cidade, homens com batas brancas vestidas e máscaras N95 nas caras estavam à frente dos soldados a verificar se os passageiros que circulavam em carrinhas usavam máscara. E os vendedores de cigarros que serpenteiam entre os carros parados em fila tinham adicionado uma nova linha de negócio: a venda de máscaras cirúrgicas.

Além disto, porém, é difícil ver os efeitos que a COVID-19 teve na cidade. A dor que tenho testemunhado todos os dias no hospital gerido pela Médicos Sem Fronteiras (MSF) está escondida da maior parte das pessoas que enchem as ruas. Mas esse sofrimento é já o dobro do que foi, agora com a população iraquiana a braços com uma feroz segunda vaga da doença – e Bagdad, de novo, no epicentro.

Desde finais de setembro passado, demos entrada no hospital a cerca de 350 pacientes em estado grave ou crítico, mas 120 destas pessoas foram-no apenas no último mês. Para fazer face a este fluxo, a MSF expandiu as camas de 36 para 51. Porém, a taxa de mortalidade permanece assustadora. Num só dia, recentemente, e apesar de todos os esforços feitos pela equipa, morreram sete pacientes.

Estamos todos já muito cansados, profissionais médicos e profissionais não médicos. O primeiro pico em Bagdad foi longo, de julho até novembro, com sobrecarga das provisões de oxigénio medicinal na cidade e deixando o sistema de saúde à beira do colapso. O número de casos baixou, apenas durante muito pouco tempo, em dezembro e janeiro, antes de voltar a disparar precipitadamente desde fevereiro. A 31 de janeiro eram 714 os casos de COVID-19 e em fevereiro já ascendiam a 3 428. A 24 de março foi registado o número mais elevado de casos desde o início da pandemia: 6 051 – e mesmo este número está muito provavelmente subestimado. O vírus não nos deixou sequer recuperar o fôlego antes de sermos submersos nesta segunda vaga.

“A morte afetou-me mentalmente”, aponta o médico Yassin Hassan, que trabalha com a MSF nos cuidados intensivos. “Mas tento superar isso, pelo bem dos pacientes. Oiço música ou converso com a minha família sobre o que está a acontecer, e depois regresso ao trabalho”, explica ainda. A esperança vã no fim da primeira vaga foi um duro golpe para Yassin Hassan. “O recolher foi levantado e a cidade voltou à vida, e de seguida os números dispararam de novo. É triste como as coisas estão agora, não temos camas para todas as pessoas”, lamenta.

Estou há um ano em Bagdad, a trabalhar para ajudar as autoridades iraquianas na resposta ao vírus. No início, começámos a trabalhar na unidade de cuidados respiratórios no hospital Al-Kindi, mas depressa percebemos que o hospital não tinha capacidade para lidar com o número de pacientes e com o acompanhamento próximo de que as pessoas precisavam. Muitos dos profissionais médicos mais experientes estavam no hospital apenas durante breves períodos de tempo nas manhãs, e os mais jovens frequentemente não queriam ou não eram capazes de tomar decisões sem aqueles, o que os colocava – e às nossas equipas – numa posição insustentável conforme o surto se intensificava.

Abrimos a nossa própria unidade no hospital em setembro, no arranque com 24 camas, antes de nos mudarmos para um novo edifício e expandirmos a capacidade para 36 camas em dezembro. Encontrámos novas formas de trabalhar com os profissionais iraquianos e conseguimos baixar a mortalidade nos casos graves e críticos que estamos a tratar. Apesar de esta doença continuar a ser brutalmente mortal nas suas formas mais graves, estamos a conseguir dar alta a cerca de 40% dos nossos pacientes – uma enorme melhora na taxa de sobrevivência em comparação com a que se registava quando assumimos inicialmente a gestão desta unidade.

Mas nunca imaginámos que ainda aqui estaríamos agora, um ano passado desde que começámos o que pensámos ser um apoio temporário ao sistema de saúde iraquiano.

Sem vacinação, é difícil vislumbrar o fim da COVID-19 no Iraque. Mas o país ainda só recebeu 386 000 doses da vacina, um número totalmente inadequado para uma população de 40 milhões de pessoas. Segundo o Ministério da Saúde, há cerca de 216 000 profissionais médicos, de enfermagem e paramédicos no país. Doses recentemente recebidas poderão permitir a vacinação de alguns destes trabalhadores médicos, mas muitos dos profissionais com que trabalhamos não sabem quando chegará a vez deles serem vacinados – entretanto os nossos colegas continuam a ficar doentes.

Apesar de outras doses deverem chegar ao país nos próximos meses, muito mais tem de ser feito para ajudar os iraquianos a receberem as vacinas nos braços. O país tem de ser considerado uma das prioridades a nível global nos esforços de vacinação, e uma prioridade no Médio Oriente, onde tem sido uma das nações mais duramente afetadas. Com um sistema de saúde fragilizado por anos de conflito e as doenças a ele associadas, além de uma economia que se debate na esteira da queda do preço do petróleo, o Governo vai ter dificuldades para vacinar todas as pessoas que precisam, se não receber uma assistência significativa de outros países na aquisição de vacinas e de outras organizações internacionais na distribuição.

Até que isso aconteça, continuaremos a trabalhar para ajudar a salvar vidas no nosso hospital. Sabemos, porém, que mesmo quando esta vaga retroceder tal não será o fim, a não ser que a população iraquiana receba as vacinas de que tão desesperadamente precisa.

Este artigo de opinião foi originalmente publicado em inglês no jornal The Independent, a 24 de março 2021.

 

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