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Saúde mental no Iêmen: “O número de casos graves é surpreendentemente alto”

16/11/2021
População sofre os impactos psicológicos de mais de seis anos de guerra; falta de serviços de saúde mental impõe ainda mais desafios
Saúde mental no Iêmen: “O número de casos graves é surpreendentemente alto”

Foto: Nasir Ghafoor/MSF

Agora, em seu sétimo ano, a crise no Iêmen não é mais notícia de primeira página. Mas os conflitos continuam a ter um impacto devastador no bem-estar das pessoas e, em particular, na sua saúde mental. Em Hajjah, onde nossas equipes encontraram uma grande necessidade de serviços de saúde mental, ouvimos da coordenadora de atividades de saúde mental de Médicos em Fronteiras (MSF) Antonella Pozzi sobre as necessidades complexas da região.

O que está acontecendo agora no Iêmen?

A crise no Iêmen já dura mais de seis anos e não é mais uma notícia importante nas manchetes. Felizmente, na província de Hajjah, vemos menos vítimas por consequência dos conflitos em comparação com os primeiros dias de combates. No entanto, a guerra não acabou. É claro que ainda há mortes relacionadas aos conflitos no país. O que geralmente não recebe atenção, porém, é o impacto que esses conflitos tiveram no bem-estar das pessoas e, em particular, na saúde mental delas.

Que tipo de problemas de saúde mental MSF observa?

Na cidade de Hajjah, cerca de 120 quilômetros a noroeste da capital do Iêmen, Sanaã, MSF apoia o hospital Al-Gamhouri para fornecer serviços especializados de saúde mental. A gama de doenças que tratamos é muito grande; há pessoas que sofrem de ansiedade e insônia, e então vemos pacientes apresentando patologias graves, como psicose, depressão, transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Em nosso serviço, atendemos regularmente pacientes após tentativas de suicídio. Uma tentativa de suicídio pode ser provocada por uma variedade de circunstâncias. Os sintomas graves de psicose podem se manifestar como alucinações auditivas que dizem ao paciente para se machucar ou o paciente pode estar sofrendo de depressão grave. No caso da psicose, é importante compreender a experiência subjetiva do indivíduo, uma vez que as alucinações podem parecer muito reais e gerar bastante sofrimento.

Por que existem tantos pacientes que sofrem de problemas de saúde mental?

O bem-estar mental é muito afetado por fatores externos. Quanto mais intensas as circunstâncias de alguém forem, mais seu bem-estar será impactado. Viver em um contexto de guerra significa estar exposto a estresse constante por um longo período de tempo. O conflito armado no Iêmen não afetou apenas a saúde física das pessoas: reduziu seu acesso à saúde, educação e alimentação, restringiu sua liberdade de movimento e negou-lhes a liberdade de se expressarem. Isso cria graves transtornos de saúde mental.

Pacientes com problemas de saúde mental no Iêmen não são diferentes de outros que vivenciam conflitos ao redor do mundo. Mas 45% dos pacientes que atendemos na clínica de saúde mental de MSF apresentam casos graves. O número de casos graves é surpreendentemente alto, principalmente levando-se em consideração que em todo o mundo, e mesmo em ambientes de conflitos, o número de pacientes com problemas de saúde mental graves não deve ultrapassar 5,1% do total de casos, conforme definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019. A falta de serviços na área da cidade de Hajjah e por vários quilômetros ao redor significa que todos os casos graves na região são direcionados às nossas atividades, o que pode explicar os números.

Foto: Nasir Ghafoor/MSF

Quantas pessoas precisam de suporte médico?

As autoridades identificaram mais de 9 mil pacientes na área de Hajjah que precisam de serviços de saúde mental. O número real é provavelmente ainda maior, uma vez que as necessidades de saúde mental tendem a ser subestimadas. Frequentemente, as pessoas vêm à nossa clínica de distâncias de mais de 100 quilômetros para acessar nossos serviços, e isso indica as grandes necessidades em todo o país.

Por causa da guerra, a população de Hajjah está acostumada a altos níveis de violência. As pessoas aqui são muito resistentes e sua tolerância a circunstâncias adversas é muito alta. Isso significa que eles chegam às consultas de saúde mental apenas se um problema de saúde mental se tornar muito óbvio e perturbador para o paciente e seus entes queridos. Por exemplo, uma família pode ficar alarmada e procurar ajuda apenas quando um paciente está a ponto de ficar agitado ou paranoico e ameaça ferir outras pessoas.

A guerra e a falta de serviços de saúde mental na área aumentaram a prevalência desses tipos de condições. Em março, junho e julho deste ano, por exemplo, mais da metade dos novos pacientes que procuraram ajuda na clínica de MSF apresentaram transtornos mentais graves.

O tratamento de condições graves de saúde mental é muito desafiador aqui. No Iêmen, a primeira opção para pessoas com sintomas de saúde mental é buscar tratamento espiritual. A consequência disso é que, às vezes, quando os pacientes chegam à nossa clínica, já foram expostos a práticas ineficazes e, por vezes, prejudiciais, que exacerbam seus sintomas. Buscar tratamento espiritual em vez de ir a um serviço de saúde indica a falta de conscientização sobre saúde mental por parte da população, outro fator pertinente neste contexto.

O que pode ser feito para melhorar a situação em Hajjah?

É fundamental tentar ajudar a população a compreender o que são as condições de saúde mental e como reconhecê-las. Isso daria aos pacientes e suas famílias pelo menos algumas das ferramentas para lidar com condições severas. No caso de pacientes psicóticos que apresentam sinais graves de agitação, as famílias muitas vezes precisam recorrer ao acorrentamento, às vezes com correntes fixas que os pacientes usam por dias ou semanas, para lidar com suas crises. Quando questionados sobre esses métodos, os familiares explicam claramente que não sabem como lidar com os pacientes em momentos de intensa agressividade e agitação, quando representam perigo para quem os rodeia, por isso, aplicam essas medidas. Mesmo que tenhamos empatia com a necessidade da família de controlar os sintomas, temos que levar em conta que essas medidas são extremas e violam os direitos humanos básicos. Esse é um dos motivos pelos quais é primordial trabalhar a conscientização em saúde mental, para que, diante desses tipos de sintomas, as famílias saibam a quem recorrer para obter ajuda profissional.

A falta de conscientização e o estigma são duas faces da mesma moeda. A falta de conscientização leva ao estigma, à discriminação e à segregação, e isso faz com que as pessoas escondam suas condições, aumentando seu sofrimento e isolamento. Esse é particularmente o caso das mulheres que são desencorajadas a compartilhar seus sentimentos e a falar sobre suas lutas psicológicas. Em muitos casos, isso leva a estados graves de depressão.

Foto: Nasir Ghafoor/MSF

Qual é o caminho a seguir a partir daqui?

Em nosso trabalho diário na clínica de MSF em Hajjah, tentamos normalizar os problemas de saúde mental e ajudar a mudar o entendimento social e as associações que vinculam as condições de saúde mental a coisas como “loucura” e “perigo”. Essas associações criam estigma e sofrimento para os pacientes de saúde mental e suas famílias. As normas não mudam tão rápido quanto gostaríamos, mas esperamos que, se continuarmos comprometidos com nosso trabalho, as mudanças em nossas práticas tenham um impacto direto na forma como essas noções se articulam na sociedade, levando a uma lenta, mas esperançosa mudança sustentável.

Mesmo se os conflitos acabassem amanhã, o que eles fizeram à saúde psicológica das pessoas será visto e sentido por muitos anos. O Iêmen precisa de uma abordagem abrangente de longo prazo, incluindo mais serviços para lidar com a iminente crise de saúde mental. Se esquecidos, os problemas de saúde mental podem se transformar em complicações crônicas em maior escala, resultando no isolamento daqueles que sofrem de transtornos. Isso pode levar a mais danos ao tecido social, que já é muito fraco. Esperamos que, por meio de nosso trabalho colaborativo, possamos contribuir para a melhoria das condições de saúde mental de uma população que já enfrentou e superou adversidades em níveis profundos e devastadores.





 

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