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Rohingyas em Bangladesh: “As pessoas perderam tudo”

06/10/2017
O dr. Konstantin Hanke foi coordenador de atividades médicas na instalação mantida por MSF em Kutupalong, Bangladesh. Vindo da cidade alemã de Munique, o dr. Hanke trabalhou em Kutupalong de janeiro deste ano até o dia 2 de outubro.
Rohingyas em Bangladesh: “As pessoas perderam tudo”

Foto: Antonio Faccilongo

“Me juntei à missão de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Bangladesh em janeiro, quando os refugiados Rohingya ainda estavam fugindo da última onda de violência no estado de Rakhine, em outubro de 2016. A clínica estava bastante ocupada, com cerca de 350 pacientes por dia no departamento ambulatorial e com aproximadamente 200 pacientes admitidos por mês. A população ficou sem dinheiro e sua saúde se deteriorou. Vimos mais e mais casos de desnutrição grave, especialmente entre crianças com menos de 5 anos de idade. Em certo ponto, tínhamos 20 pacientes por dia com casos graves de sarampo em nossa ala de isolamento. Recebemos muitos casos de trauma, acidentes envolvendo crianças, tétano, raiva e outros que eu não estava acostumado a ver na Alemanha. Na instalação, raramente vemos um recém-nascido que pese mais de 2,5 quilos. As mães normalmente estão desnutridas, então os bebês não têm um bom começo.

No dia 25 de agosto, quando ficamos sabendo que a situação se deteriorava em Rakhine, sabíamos que teríamos que nos preparar para um novo influxo de refugiados. Naquela noite, os primeiros feridos chegaram e a situação, que já era ruim, piorou. No início, recebíamos principalmente homens jovens feridos, mas nos dias seguintes começamos a ver mulheres e crianças também. Víamos pacientes com ferimentos a bala e queimaduras e pessoas com traumas e ferimentos graves que de alguma maneira conseguiram cruzar a fronteira. Então, os feridos começaram a chegar e começamos a ver pacientes seriamente machucados que também haviam conseguido chegar a Bangladesh. Foi surpreendente ver como essas pessoas tinham conseguido chegar de Mianmar até aqui.

As pessoas chegaram em um estado terrível. Alguns dizem que ficaram encurralados em suas casas, que foram incendiadas. Tratamos crianças desacompanhadas que perderam suas famílias. Um bebê recém-nascido muito pequeno foi trazido até aqui por uma mulher que o encontrou na grama perto da fronteira. Agora ela cuida do bebê, além de seus próprios filhos. Tratamos uma menina que tinha um ferimento na cabeça; uma hora depois, sua mãe foi admitida com queimaduras graves. Elas contaram que eram as únicas sobreviventes da família. A menina sempre levava alimento para a mãe e a ajudava a comer. Estamos conduzindo sessões de brincadeiras para a criança, assim como consultas de aconselhamento; além disso, um cuidador ajuda com as necessidades diárias da mãe e trata suas queimaduras. Também estamos fornecendo a elas suplementos alimentares, a fim de que tenham uma condição geral de saúde melhor. Elas já estão melhorando.

Essas pessoas perderam tudo. Famílias inteiras caminharam durante dias para chegar a Bangladesh. Elas têm pouquíssimas opções. As condições precárias em que a maioria dos Rohingya vive têm impacto direto em sua saúde. Em um momento, recebemos 13 pessoas que haviam sido mordidas por um cachorro com raiva que corria pelo acampamento. Não há fim para o sofrimento dessas pessoas. Quando você está em casa e uma chuva forte começa a cair, é difícil lembrar que essas pessoas estão tentando dormir ao ar livre, sob a chuva. Esse não é o único conflito no mundo, mas ver isso com seus próprios olhos e ver o que é considerado importante no seu próprio país é muito frustrante. O número de Rohingyas que chegaram nas últimas cinco semanas já ultrapassa a marca de 515 mil agora: mais ou menos a mesma quantidade de pessoas que vive em Nuremberg. Pode parecer um número abstrato, mas, como médico, vejo o que isso realmente significa. As pessoas têm necessidades profundas de ajuda. Com um pouco mais de azar, teremos uma epidemia em nossas mãos. Campanhas abrangentes de vacinação devem ser iniciadas logo e há uma necessidade urgente de instalação de latrinas e suprimentos de água fresca. As coisas já eram difíceis o suficiente para as pessoas que chegaram no ano passado, mas agora, com tantos recém-chegados, é uma catástrofe”.

MSF em Bangladesh:

Médicos Sem Fronteiras (MSF) trabalhou pela primeira vez em Bangladesh em 1985. Próximo ao acampamento improvisado de Kutupalong, no distrito de Cox Bazar, MSF mantém uma instalação médica e uma clínica que oferece cuidados médicos básicos e abrangentes de emergência, além de serviços de internação e laboratoriais para refugiados Rohingya e a comunidade local. Em resposta ao influxo de refugiados, MSF aumentou significativamente suas atividades de água, saneamento e assistência médica para essa população.

Em outras partes se Bangladesh, MSF trabalha na favela de Kamrangirchar em Dhaka, capital do país, oferecendo assistência de saúde mental, cuidados de saúde reprodutiva, planejamento familiar e consultas de pré-natal, além de conduzir um programa de saúde ocupacional para trabalhadores de fábricas.

Após a onda de violência direcionada aos Rohingyas no estado de Rakhine, em Mianmar, mais de meio milhão de pessoas fugiram para Bangladesh desde o dia 25 de agosto. O influxo mais recente de refugiados Rohingya se somou às centenas de milhares de Rohingyas que cruzaram a fronteira durante episódios de violência nos últimos anos.

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