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República Democrática do Congo: nova onda de violência leva milhares à fuga

17/02/2006
Em Katanga, equipes de MSF observaram quase 100 mil novos deslocados no último ano. Em Kivu do Norte pelo menos 40 mil pessoas fugiram de suas casas desde o início dos conflitos em 20 de janeiro de 2006. Em seis dias, MSF tratou 23 casos de estupros

Conflitos que tiveram início em 20 de janeiro de 2006 na região de Rutshuru, na província de Kivu do Norte, RDC, já expulsaram de suas casas pelo menos 40 mil pessoas. A maioria vem da região de Kibirizi, onde os habitantes são espancados, estuprados e suas casas saqueadas. Além dessas 40 mil pessoas, muitas outras continuam escondidas nas florestas próximas a Kibirizi e estão sujeitas à violência.

Atualmente, as equipes de saúde de MSF oferecem cuidados de saúde para a população de Kanyabayonga, onde 25 mil pessoas chegaram de Kibirizi até o momento. Em apenas seis dias, médicos de MSF já trataram 23 vítimas de estupro.

Os deslocados contam que muitos outros não conseguiram chegar por causa da insegurança das estradas ou por estarem muito fracos para seguir viagem.

Até o momento MSF não conseguiu ter acesso a essa população que permanece nas florestas nos arredores de Kibirizi, e que deve estar necessitando desesperadamente de socorro.

Equipes de MSF estão oferecendo cuidados de saúde para os deslocados em Kanyabayonga. A cidade está lotada e a grande maioria dos moradores está recebendo as famílias deslocadas em suas casas.

Nas últimas semanas, cerca de 150 consultas foram realizadas por dia, e 34 pacientes com complicações de saúde foram encaminhados para o hospital em Kayna, apoiado por MSF.

As equipes de MSF que deixaram Rutshuru e Katwiguru há três semanas ainda não conseguiram retornar ao trabalho na região devido à insegurança. No entanto, MSF vem entregando material de saúde e medicamentos ao hospital de Rutshuru para mantê-lo em funcionamento. Antes da evacuação, os médicos de MSF que trabalham no centro de saúde em Katwiguru realizavam em média 300 consultas por semana, e cerca de 50 pessoas em estado grave eram transferidas semanalmente para o hospital de Rutshuru.

Violência, fome e doenças em Katanga

Outra região onde a violência impera é Katanga, onde nos últimos 12 meses pelo menos 92 mil pessoas fugiram de suas casas e estão espalhadas por diversas cidades da província. Hoje, os inúmeros campos de deslocados estão superlotados e precisam de mais assistência médica e segurança. Apesar dos esforços de MSF e de comunidades hospedeiras, os campos existentes possuem poucas estruturas, número limitado de abrigos e condições precárias de higiene. Nos arredores do Parque Upembe, milhares de deslocados vivem em pântanos infestados por mosquitos ou em pequenas ilhas flutuantes no lago. Atualmente, MSF oferece cuidados emergenciais de saúde, abrigo, artigos de primeira necessidade e estruturas de água e saneamento para os deslocados que vivem em Mitwaba, Dubie, Kabalo e Pweto. No entanto, a presença de outras organizações nacionais e internacionais é mínima, apesar de cada vez mais necessária.

Há enormes necessidades de saúde que vão desde tratamento contra a malária a infecções respiratórias e diarréia. A distribuição de alimentos é um dos maiores desafios, com os índices de desnutrição crescendo. Em Mitwaba, a última distribuição de alimentos feita pelo Programa Alimentar Mundial (PAM) da ONU foi em agosto. Os deslocados em Mitwaba representam 50% dos 1.026 pacientes tratados com desnutrição por MSF, nos últimos 12 meses, entre eles inúmeras mulheres amamentando.

Em Dubie e Pweto, as comunidades locais permitiram que os deslocados pegassem mandioca das plantações ou que plantassem em pequenas áreas de suas terras, em troca de dinheiro que eles usam para comprar comida, cada vez mais escassa. Com a chegada recente de 17.500 deslocados, não há mais terras para o cultivo e os preços dos alimentos dispararam em Dubie. Produtos como batata, cebola e alface já não podem mais ser encontrados no mercado, enquanto outros como tomate e feijão são raridade. O preço da mandioca dobrou e o da carne triplicou.

No lago Upemba, milhares de deslocados sobrevivem com apenas uma refeição por dia, já que não há distribuição de alimentos. O número de crianças menores de cinco anos nos centros de alimentação terapêutica de MSF tem aumentando bastante. Em Mukubu, MSF vem recebendo entre 15-20 crianças severamente desnutridas por semana, nos últimos seis meses.

Insegurança generalizada

Em Dubie, MSF testemunha a chegada de 70 novos deslocados por dia, a maioria com doenças relacionadas às precárias condições de vida, tais como diarréia, malária, vermes e infecções respiratórias.

Além dos problemas de saúde, os deslocados que chegam a Pweto, Dubie, Mitwaba e Kabalo, relatam com freqüência que militares roubam comida, cobertores e todo tipo de objetos que estejam carregando.

Nessas regiões também é freqüente o relato de violência sexual cometida por militares ou por milícias armadas. No entanto, devido ao medo e ao estigma, a maioria dos casos não são informados.

A insegurança generalizada vem restringindo o acesso de MSF aos deslocados. Como prevenção, MSF suspendeu a distribuição de produtos de primeira necessidade nos arredores do Parque Upembe, já que isso aparentemente aumentava a possibilidade de ataques. Nas últimas semanas, estradas vêm sendo interditadas por causa de operações militares ou de ataques de milícias.

Em janeiro, um caminhão privado, usado com freqüência por MSF, foi atacado e saqueado quando retornava de Mitwaba. O motorista se recusa a fazer novas viagens para a região.

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