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Rep. Dem. do Congo: situação continua crítica para deslocados internos em Goma

07/06/2013
Milhares de pessoas enfrentam condições precárias e insegurança nos campos para deslocados internos na província de Kivu do Norte

Cerca de 5 mil pessoas encontraram abrigo no estádio de Sotraki quando eclodiram os confrontos entre o grupo rebelde M23 e o exército congolês no final de maio. A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) estabeleceu uma clínica móvel para oferecer cuidados médicos no local, que fica a 12 km de Goma, principal cidade da província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo. Nos acampamentos de Bulengo e Mugunga III, equipes de MSF estão, atualmente, trabalhando em centros de hospitalização e retomaram o atendimento de pacientes após uma interrupção que durou 24 horas, motivada por questões de segurança. As condições, no entanto, continuam voláteis e as necessidades humanitárias crescendo.


O campo provisório de Sotraki
Aproximadamente 5 mil pessoas fugiram de vilarejos próximos das frentes de batalha dos confrontos, que eclodiram na semana de 20 de maio. Após passar diversas noites em escolas e paróquias nos arredores de Goma, esses deslocados internos foram reunidos no estádio de Sotraki para facilitar a provisão de ajuda humanitária.
“As bombas estavam caindo sobre as casas… Minha casa foi destruída e eu não pude trazer nada comigo”, afirma Gertrude, que veio ao local com seus cinco filhos e 10 sobrinhos. Alguns deslocados conseguiram juntar alguns poucos pertences, como panelas e roupas, mas a maioria fugiu às pressas. Algumas famílias se separaram ao fugir. Esta não foi a primeira experiência de fuga para muitos dos deslocados. Muitos haviam deixado suas casas durante os confrontos de novembro de 2012. Alguns se lembram de ter fugido em 2008, e até mesmo em 1994.


MSF estruturou uma clínica móvel assim que os deslocados internos chegaram, tratando mais de cem pessoas por dia. As doenças mais comuns são diarreia e infecções respiratórias. “Um quarto dos casos que estamos tratando estão relacionados à diarreia, sendo que a maioria dos pacientes são crianças com menos de cinco anos”, conta Carolina Lopez, coordenadora de emergência de MSF. “Trinta e cinco por cento dos pacientes nos procuram com infecções respiratórias que afetam tanto adultos quanto crianças, da mesma forma. Muitas dessas doenças são resultado de noite após noite dormindo ao relento, sob as estrelas. A superlotação, a sujeira, a poeira... Tudo isso contribui para a proliferação dessas doenças.”


Além disso, MSF está trabalhando para prevenir um surto de cólera. “Já há pacientes com cólera em outros acampamentos além de Goma – é imprescindível que tentemos evitar a proliferação dessa doença.” MSF administra um centro de tratamento de cólera há meses no campo de refugiados de Buhimba.


Situação humanitária ainda é crítica
As atividades médicas foram retomadas no campo de refugiados de Bulengo. A equipe de MSF está, simultaneamente, oferecendo cuidados de saúde primária, vacinação e serviços de saúde materna. As necessidades humanitárias são múltiplas no local, que está aberto desde novembro de 2012. Devido ao fato de Bulengo ser considerado um acampamento espontâneo, e não um acampamento oficial, recebe apenas ajuda de agentes humanitários esporadicamente e a segurança é precária no perímetro do acampamento. Desde novembro de 2012, houve distribuição de itens essenciais apenas uma vez. “Precisamos, principalmente, de lonas plásticas. Algumas pessoas conseguiram algumas, mas estão rasgadas há algum tempo”, conta Sifa, que vive no acampamento.


Tranquilidade relativa
Desde a eclosão dos confrontos a pouco quilômetros dali, na direção de Sake e Goma, a presença de homens uniformizados nas florestas da redondeza representa uma preocupação para as famílias. “Você não pode buscar lenha na floresta porque pode ser estuprada; então, temos que vender milho para comprar carvão para cozinhar”, diz Sifa.


A violência sexual é, de fato, comum em Bulengo, onde foram reportados 114 estupros desde o início de dezembro de 2012. Situação similar ocorre também no campo de Mugunga III, onde as equipes médicas observaram um aumento massivo dos ataques de cunho sexual logo após os confrontos, tendo tratado até 28 pacientes mulheres por dia. Geralmente, os estupros acontecem foram dos acampamentos, próximo das linhas de frente de batalha.
O crime é também comum nas áreas do entorno dos acampamentos. Uma mulher e seu bebê foram gravemente feridos recentemente, durante um ataque a centenas de metros da entrada de Bulengo.


MSF está oferecendo cuidados de saúde primária e saúde secundária na província de Kivu do Norte. Nos arredores de Goma, MSF está atuando nos campos de Bulengo e Mugunga III e, desde o final de maio, no estádio de Sotraki. A organização também atua em outras regiões de Kivu do Norte, prestando suporte a hospitais de referência em Mweso, Pinga, Masisi, Rutshuru, Walikale e Kitchanga, trabalhando em centros de saúde e operando clínicas móveis.

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