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RDC: “Nós estamos cansados de enterrar crianças!”

23/05/2016
O trabalho de um enfermeiro de MSF que está atuando na resposta a um surto fatal de malária

Foto: Natacha Buhler/MSF

No dia 9 de maio de 2016, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) lançou uma resposta de emergência nas regiões de Pawa e Boma-Mangbetu, na província de Haut-Uele, na República Democrática do Congo (RDC), que está enfrentando um surto particularmente fatal de malária.

Daniel Ngabu é um dos enfermeiros da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Na manhã do dia 9 de maio, ele vestia roupas impermeáveis e o equipamento de proteção para motos. Ele já está suava copiosamente na manhã quente, mesmo que o sol ainda não estive a pino no céu. Mas, aqui em Pawa, o clima é volátil, e em algumas horas poderia haver uma tempestade torrencial. Daniel viajaria cerca de 60 quilômetros para chegar ao centro de saúde mais distante da cidade de Pawa. Nessas estradas, isso significa ficar mais de seis horas em uma moto escorregando na lama. Sua tarefa era distribuir medicamentos e testes rápidos de diagnóstico de malária para que a população tenha acesso a um tratamento efetivo e gratuito. MSF espera tratar o máximo possível de crianças sofrendo de malária simples para evitar que elas desenvolvam complicações que precisariam de hospitalização.

Quando Daniel finalmente chegou a Gatua, ele foi recebido pelo líder comunitário, que exclamou: “Você não é de MSF, você é um anjo que veio nos ajudar!” Esse homem tem enterrado crianças desde março. Tanto o centro de saúde quanto a farmácia estão enfrentando escassez de medicamentos. Não há mais ACT (artesunato, um medicamento usado no tratamento de malária) ou paracetamol. Há apenas algumas doses de amoxicilina, um antibiótico que não tem qualquer efeito contra a malária. Embora a maioria das mães sejam encaminhadas para os hospitais por um enfermeiro, na maior parte das vezes, elas continuam em casa, com o documento de encaminhamento em mãos, impotentes enquanto assistem à morte de seus filhos. Elas não têm dinheiro para pagar o transporte até o hospital, nem os custos de hospitalização, que chegam próximo dos 50 dólares. Nessas regiões remotas, as famílias produzem óleo de palma, cujo contêiner com 20 litros vendem por 4,50 dólares, e uma pequena quantidade de amendoim e mandioca. Muitas delas vivem com 10 dólares por mês.

Seis mulheres estavam em fila para serem atendidas por Daniel. Todas tinham filhos doentes e não conseguiam baixar sua febre de outra forma a não ser com banho frio. O enfermeiro carregava consigo os testes rápidos de diagnóstico: as seis crianças testaram positivo para malária.

Usando a medicação oferecida por MSF, o centro de saúde poderá tratar gratuitamente essas crianças que sofrem de malária simples. Geralmente, a doença é facilmente tratada por um comprimido à base de artemisinina por dia durante três dias. No entanto, em Pawa e Boma-Mangbetu, como resultado da escassez de medicamentos e de seu custo excessivo, um grande número de crianças desenvolveu uma forma grave de malária, que requer hospitalização, cuidados intensivos e, por vezes, transfusão de sangue ou oxigenoterapia.

MSF lançou suas atividades de ajuda humanitária no dia 9 de maio, distribuindo quase 10 mil doses de artesunato para 32 centros de saúde. Enfermeiros visitarão as instalações a cada dois ou três dias para verificar a administração do medicamento, prover novos suprimentos, se necessário, e garantir que o tratamento está sendo oferecido gratuitamente.