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RDC: a luta contra o sarampo

24/04/2017
Se a doença for descoberta rapidamente, tratar os sintomas é relativamente simples. Contudo, não há tratamento contra o vírus do sarampo, uma das doenças mais contagiosas do mundo
RDC: A LUTA CONTRA O SARAMPO

Candida Lobes

Desde novembro de 2016, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) vacinou mais de 675 mil crianças e ofereceu cuidados de saúde a mais de 14 mil pacientes em instalações médicas em cinco províncias da República Democrática do Congo (RDC): Maniema, Kivu do Sul, Tanganyka, Ituri e Equateur.

Agora, equipes de MSF estão apoiando o Ministério de Saúde em uma luta contra o sarampo. “Estamos enfrentando uma situação grave, que requer esforços significativos de resposta. O tempo é essencial para todos os envolvidos: equipes de MSF, autoridades congolesas e outros parceiros. Precisamos reagir rapidamente e de forma decisiva para prevenir a propagação dessa doença altamente contagiosa”, explica Jeroen Beijnsberger, coordenador-geral de MSF em Kinshasa.

A fim de garantir uma cobertura efetiva de imunização (ou seja, vacinar 95% das crianças com idades entre seis meses e 14 anos), as equipes devem cobrir até as áreas mais remotas. Em um país grande como a RDC, que carece também de infraestrutura rodoviária, isso pode significar viagens de centenas de quilômetros de moto, tendo que cruzar rios em canoas ou andar durante dias por florestas inóspitas.

 “Para chegar ao vilarejo de Yalombe, eu e três colegas caminhamos por seis dias, entre a ida e a volta, pela floresta do parque de Lomami. Dormimos ao ar-livre no meio da floresta, e tínhamos que racionar nosso estoque de alimentos. Tivemos que andar 120 quilômetros, atravessando grama alta e coberta de formigas, que muitas vezes entravam em nossa roupa de baixo. Às vezes, não tínhamos escolha além de pular as grandes árvores velhas e caídas que bloqueavam nosso caminho. Tudo isso foi necessário para chegarmos ao vilarejo onde nossas equipes vacinaram mais de 1.600 crianças”, diz Daniel Cibangu, enfermeiro de uma das equipes de MSF que atua na província de Maniema.
A logística pode ser especialmente desafiadora nas regiões mais perigosas e afetadas pela presença de grupos armados, como Kivu do Sul e Tanganyka.

Vacinação: a melhor arma contra o sarampo

Além das campanhas de imunização, equipes de MSF estão oferecendo cuidados médicos aos pacientes de sarampo, especialmente às crianças com menos de 10 anos de idade, e oferecem tratamento ambulatorial para os sintomas, com atenção especial a crianças desnutridas acometidas pela doença, visto que elas são especialmente vulneráveis.
 “Quando o sarampo chegou ao nosso vilarejo, muitas crianças morreram, especialmente quando os pais recorriam à medicina tradicional. Mas os que conseguiram chegar a tempo a algum centro de saúde puderam salvar a vida de seus filhos”, explica Mwayuma Ramazani no hospital-geral de Kindu, na província de Maniema, onde seu filho está internado para tratar complicações do sarampo. “Descobri que MSF estava ali para ajudar, então, quando meu filho ficou com febre, decidi levá-lo ao centro de saúde. Quando lá cheguei, uma equipe móvel de MSF nos trouxe ao hospital”.
 “Em Manono, na província de Tanganyka, aproximadamente 900 crianças foram hospitalizadas em janeiro. A desnutrição ainda é um grande problema: crianças desnutridas ficam enfraquecidas e particularmente suscetíveis a diferentes doenças, entre elas o sarampo”, diz Gaudia Storni, coordenadora de projeto de MSF.
Desde novembro de 2016, equipes de MSF ofereceram cuidados a mais de 14 mil crianças nas províncias onde trabalham.
De acordo com as estatísticas oficiais, nos últimos anos a RDC teve algum sucesso na luta contra a doença. O número de casos diminuiu em mais de 95% entre 2011 e 2015, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de dezembro de 2016.
Contudo, o país também sofreu com grandes epidemias de sarampo: entre 2011 e 2013, um surto da doença afetou 300 mil crianças, das quais 5 mil morreram. Na época, 13 milhões de crianças foram vacinadas em resposta ao surto – 3 milhões delas por MSF. Em 2017, a epidemia surgiu novamente com mais de 13 mil casos reportados. No entanto, o forte comprometimento internacional com a vacinação por parte da OMS, da Conferência de Ministros da Saúde Africanos e de diferentes parceiros deve ser levado em conta para haver alguma esperança de eliminar o sarampo até o ano de 2020.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização internacional, médico-humanitária e independente que leva assistência de emergência a populações sem acesso a cuidados de saúde, afetadas por conflitos armados, epidemias ou desastres naturais.

MSF atua na RDC há 35 anos, apoiando o Ministério da Saúde em 11 províncias e oferecendo cuidados de saúde a vítimas do conflito e da violência, à população internamente deslocada ou a pessoas que sofrem com epidemias ou pandemias como o HIV/Aids. Além disso, as equipes de resposta a emergências estão prontas para atuar em todo território em caso de surto de doença contagiosa, desastre natural ou conflito.


Para saber mais sobre o sarampo, acesse: http://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/sarampo