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RDC: cólera persiste em um dos surtos mais graves dos últimos anos

25/10/2017
MSF tratou mais de 18 mil pacientes afetados pela doença em todo país
RDC: cólera persiste em um dos surtos mais graves dos últimos anos

Foto: Marta Soszynska

“Tratamos a água de casa, mas as crianças brincam no lago e provavelmente bebem água dele enquanto brincam, dividem a mesma comida e, se comprarem na rua, é possível que não esteja própria para consumo; também comem frutas que colhem diretamente, sem lavar... há muitas maneiras pelas quais meu filho pode ter ficado doente”. A explicação é de Aline Kaendo, no centro de tratamento de cólera (CTC) que a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) inaugurou na cidade de Minova, Kivu do Sul, oeste da República Democrática do Congo (RDC). A cólera persiste e, com mais de 18 mil casos tratados por MSF neste ano (dos mais de 38 mil registrados no país), calcula-se que ainda faltem muitas semanas para controlar a epidemia, visto que em alguns lugares o surto diminui e em outros se mantém estável. Mas, novos casos estão aparecendo em localidades onde nunca se havia registrado nenhuma ocorrência de cólera.

Aline, camponesa de 22 anos, recebeu toda a informação necessária para evitar o contágio: lavar as mãos, manter as latrinas limpas, tratar a água coletada para consumo humano, limpar bem frutas e verduras... Porém, ainda assim, seu filho pequeno Aristide, de 5 anos, adoeceu. Aline o levou diretamente ao CTC de Minova, porque muitos de seus vizinhos precisaram fazer a mesma coisa e permanecer ali por alguns dias – no mínimo quatro – para serem adequadamente tratados. Hoje, em Minova, há 21 pacientes internados. Há algumas semanas, no auge do surto, cerca de 50 pacientes novos eram recebidos por dia. Aline vive no bairro de Budondo, o mais próximo ao lago Kivu, que domina a região de Kivu do Sul, e em suas redondezas a vida se desenvolve, porém, agora ele também abriga uma doença potencialmente mortal.

Outra causa da persistência da cólera em 21 das 26 províncias do país – algo inédito na história da doença na RDC – é a resposta errática quanto à prevenção e à informação dada à população. Em Minova, também encontramos Kahindo Chiraba, com seu filho doente. Kahindo vem de Nyamasa, a 42 quilômetros de distância. Em seu vilarejo, as fontes estão danificadas, de modo que ela colhe água do rio, “em condições não tão boas”; não foram instalados pontos de cloração (ali, onde as pessoas coletam água, são distribuídos tabletes purificados para tratá-la) e a população não foi informada. Muitas pessoas do povoado adoeceram.

“Uma das principais causas que explicam o porquê de a doença ter aumentado de tal maneira este ano é a seca que afetou o país. Os poços secaram ou baixaram de nível e muitas pessoas se viram obrigadas a retirar água de fontes insalubres como lagos ou rios, porque as autoridades não conseguem fornecer água potável para a população. A resposta à cólera não pode ser somente o tratamento médico: também é preciso trabalhar no desenvolvimento da provisão de fontes água e saneamento adequados à população. Enquanto isso não acontecer, a cólera continuará sendo uma ameaça real”, aponta Francisco Otero Villar, coordenador-geral de MSF na RDC. Outra causa da rápida propagação da doença é que ela se disseminou em cidades densamente povoadas: Goma, a capital de Kivu do Norte, também é banhada pelo lago e foi afetada, assim como Minova, mas também Bukavu, capital de Kivu do Sul, onde foram encontrados casos em muitos bairros e onde MSF instalou um CTC.

E se em muitos casos a cólera afeta de forma devastadora crianças com menos de 5 anos de idade, ultimamente, casos estão sendo detectados em crianças maiores nos centros apoiados por MSF: “Acreditamos que o início das aulas também contribuiu para a propagação da cólera. Observamos que há crianças com 6 anos de idade ou mais afetadas, e isso pode acontecer porque, no caminho até a escola, essas crianças são expostas a alimentos ou bebidas contaminados”, explica Innocent Kunywana, coordenador da equipe de emergências de MSF na província e responsável pela resposta à epidemia. Essa suposição é confirmada por Jacqueline Niganda. Aos 42 anos, ela tem nove filhos e foi o pequeno Awezaye, de 10 anos, que adoeceu, sofrendo de uma diarreia muito grave. A família recolhe água de uma fonte, “mal construída”, e o menino deve caminhar por mais de uma hora para chegar à escola. “E aí eu não posso controlar o que ele faz, come ou bebe”, diz a mãe.

A cólera é endêmica em várias províncias da RDC e casos esporádicos estão surgindo de forma regular. Apesar de sua incidência, em muitas ocasiões as equipes sanitárias não sabem como tratar a doença. “Encontramos alguns hospitais em que as pessoas infectadas pela cólera haviam se misturado com outros doentes. Ou os leitos não dispunham de buracos de evacuação (os afetados podem perder até 10 litros de fluido por causa de diarreias ou vômitos), fazendo com o risco de infecção para seus acompanhantes ou para outros doentes fosse muito elevado”, acrescenta Kunywana.
“De acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde, o tratamento de cólera deveria ser gratuito, mas, às vezes, os hospitais não são abastecidos para isso, e devem comprar por conta própria o material e os tratamentos e, funcionando com um sistema de corte de gastos e em que não devem constar déficits, acabam cobrando o tratamento dos pacientes de qualquer forma”, aponta Otero.

“Antes da chegada de MSF, mantinham os pacientes internados caso eles não tivessem dinheiro para pagar uma conta de 80 ou 100 dólares. Era preciso que algum conhecido ou um líder comunitário fosse até a instalação como responsável do paciente e avisasse que a conta seria paga. Só assim o hospital concordava em dar alta ao paciente”, explica Ressancement Kisakalaba, que em breve poderá sair do CTC instalado por MSF na ilha de Idjwi. Ressancement, agricultor de 42 anos que tem nove filhos, vive em uma pequena ilha, Ntaligeza, situada em frente à Idjwi, à qual só é possível chegar de piroga. Em Idjwi, o último centro aberto por MSF em Kivu do Sul - e para onde foram enviadas, de barco, quatro toneladas de material para construir tendas e isolar pacientes, instalar camas e desenvolver um circuito de acordo com a gravidade dos pacientes –, ainda vai levar semanas para que a epidemia seja de fato controlada.

Apesar das duas províncias, de Kivu do Sul e do Norte, na fronteira com o Ruanda e a milhares de quilômetros da capital do país, Kinshasa, permanecerem afetadas por um conflito de duas décadas e uma multiplicidade de grupos armados que dominam grande parte da região, cada vez mais, especialmente em Kivu do Sul, vemos como há menos ONGs, menos presença de agências e organizações humanitárias capazes, com meios adequados, para lidar com emergências desse tipo. Kivu do Sul, apesar das enormes necessidades, da violência, dos deslocamentos regulares aos quais muitas pessoas estão sujeitas a fugir do conflito, está sendo gradualmente abandonado", diz Otero. "Vimos este ano na epidemia de sarampo, vemos isso todos os dias quando vamos ajudar pessoas deslocadas e está sendo novamente evidenciado nesta epidemia de cólera. Essas são situações que serão repetidas e agravadas se essa situação não for revertida. As Nações Unidas elevaram o nível de emergência ao máximo na província, ao nível 3. Teremos que ver como isso se traduz em campo".