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RDC: “A bala atingiu meu filho no peito”

13/09/2017
Paciente de MSF relata incidente trágico que ocorreu em seu vilarejo
RDC: “A bala atingiu meu filho no peito”

Foto: Sara Creta

No fim de junho de 2017, os dois filhos de BM, de dois e quatro anos de idade, foram admitidos na sala de emergência do hospital geral de referência de Masisi com ferimentos a bala. A criança mais velha havia sido atingida nas costas e a mais nova, no pescoço.

“Vivemos em um vilarejo no território de Walikale. Uma noite, vi homens armados na minha casa – não sei como eles conseguiram entrar. Assim que os vi, agarrei meus dois filhos mais novos e tentei me esconder com eles embaixo da cama. Meu filho de oito anos tentou fazer o mesmo, mas os homens atiraram nele. A bala o atingiu no peito e ele caiu ao lado da cama.

Eles atiraram em direção à cama em que nos escondemos. Meu filho de dois anos e seu irmão de quatro foram atingidos por balas. Eu gritei: “Vocês estão matando a mim e aos meus filhos” e ele responderam: “Tudo que vocês têm que fazer é morrer!”.

Enquanto alguns dos homens armados estavam atirando, outros reviravam minha casa procurando dinheiro ou itens de valor. Meu marido conseguiu fugir de casa.

Ouvi o grupo ir embora. Então, escutei vozes me chamando para sair de casa, porque o tiroteio já havia acabado. Eu senti medo e me perguntei se não seriam os mesmos criminosos mentindo e me mandando sair, ou se eram meus vizinhos, pessoas bondosas e generosas. Em dúvida, fiquei um pouco mais embaixo da cama. Finalmente saí quando vi meus vizinhos entrando em casa para nos ajudar.

Meus vizinhos me ajudaram a levar as crianças feridas até o centro de saúde. A noite ainda estava escura e nós andamos por cerca de uma hora até chegar ao centro. Ali, ofereceram assistência primária aos meus filhos. Então, começaram a me pedir dinheiro. Eu não tinha condição de pagar o que estavam pedindo, então decidi ir até o centro de saúde de Maya, para onde vai a ambulância de MSF.

Antes de ir a Maya, voltei para casa para o funeral do meu filho que foi morto. Nós o enterramos e eu parti para Maya com meus dois filhos feridos. Andamos das quatro da tarde até a manhã seguinte. Então, uma ambulância de MSF nos buscou e nos trouxe ao hospital.  

Meus filhos receberam tratamento no hospital geral de referência de Masisi. Eles estão um pouco melhor agora. Eu espero que eles consigam esquecer esse incidente trágico. Até agora, eles não falaram sobre isso. Meu filho de 4 anos acabou de contar para sua irmã mais velha – que não vive conosco, mas se juntou a nós no hospital – que seu irmão foi assassinado, que ele morreu porque foi baleado.

Assim que eles estiverem melhor, vou voltar com eles para Maya, vilarejo onde nasci. Não quero voltar ao território de Walikale – nós nos mudamos para lá por causa do trabalho do meu marido. Agora, não quero voltar para lá de forma alguma.
 

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