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RCA: o medo da violência em Bambari dificulta o acesso a cuidados médicos

03/07/2018
A eclosão de violência está gerando muitas necessidades de saúde entre a população local
RCA: o medo da violência em Bambari dificulta o acesso a cuidados médicos

Foto: Colin Delfosse

Paul Brockman acaba de voltar da República Centro-Africana (RCA), onde trabalhou durante quatro meses como coordenador de projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF). Paul voltou profundamente preocupado com os níveis extremos de violência que testemunhou durante seu trabalho no país. Bambari, no centro da RCA, onde MSF apoia as alas cirúrgicas e pediátricas do hospital regional, entrou recentemente para a lista de cidades atacadas brutalmente por diferentes grupos armados, deixando as pessoas sem acesso a assistência médica quando mais precisam.

O que aconteceu em Bambari desde meados do mês de maio?

A primeira onda da recente violência em Bambari começou na manhã do dia 15 de maio. A tensão na RCA é tão alta que basta apenas uma pequena faísca para as coisas explodirem rapidamente. Desta vez, o gatilho foram os corpos de dois homens encontrados no dia anterior na estrada ao sul de Bambari. Naquela noite, 300 pessoas já haviam se deslocado para o hospital pensando que aquele poderia ser um abrigo seguro. De repente, na manhã seguinte, começamos a ouvir tiros em toda a cidade e feridos começaram a chegar ao hospital. Famílias inteiras foram feridas durante o tiroteio. Naquela semana, Bambari estava em estado de guerra. De meados de maio até meados de junho, 36 pessoas ficaram feridas, mas MSF teme que este número seja muito maior, já que muitos não conseguiram chegar ao hospital.

Ainda podemos falar de um conflito entre muçulmanos e cristãos na RCA?

Não, o conflito na RCA é muito mais complicado do que uma guerra entre muçulmanos e cristãos. Há muito mais grupos armados ativos agora do que durante o conflito que ocorreu de 2013 a 2014 e as alianças entre eles tendem a mudar muito rapidamente dependendo da área. Isso é mais do que tensões religiosas; é sobre o acesso e o controle de recursos e influência. Em tal conflito, a primeira a sofrer é sempre a população civil, abandonada a seu destino.   

Bambari foi uma das últimas cidades supostamente calmas no país, declarada “zona livre de armas” em 2017. Por que o conflito explodiu de novo e com tanta violência?

Bambari era uma ilha artificialmente calma no meio de um mar revolto, cercada de violência. E essa nova onda de violência não saiu de um vazio. A cidade parecia calma porque a MINUSCA [Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do país] forçou os grupos armados a saírem da cidade há um ano e a declarou uma cidade livre de armas. Mas isso significava que esses grupos se mudaram para vilarejos próximos à cidade e ficaram lá procurando por outros meios para ganhar dinheiro, como cobrar taxas dos deslocados ou roubá-los, assim como roubar as comunidades que moram próximo à área. Então, em 15 de maio, o tiroteio atingiu novamente a cidade.

Quais são as principais consequências para a população?

A principal preocupação para nós em Bambari no momento é que essa explosão de violência está gerando muitas necessidades de saúde entre a população local. Algumas pessoas se refugiaram no hospital e milhares fugiram pelo rio Ouaka para áreas mais distantes de onde a luta estava acontecendo. Mas isso os afastou ainda mais dos centros de saúde disponíveis. O acesso ao hospital é uma grande preocupação, pois os bloqueios das estradas impediram temporariamente que os doentes e feridos chegassem.

Quais são as principais necessidades médicas em Bambari?

No minuto em que você é forçado a sair de casa ou de qualquer abrigo que esteja, você fica mais exposto a tudo. A doença mais comum que tratamos no país é a malária e, como muitas pessoas tiveram que fugir e estão dormindo a céu aberto, o risco de ser picado por um mosquito aumenta exponencialmente. Após os combates em meados de maio, nossas equipes instalaram clínicas móveis a oito quilômetros da cidade, onde as pessoas que fugiram procuravam segurança. No primeiro dia, dos 165 pacientes tratados, 120 testaram positivo para a doença. Dois novos casos de meningite também foram confirmados.

Atualmente, MSF é capaz de trabalhar em Bambari e apoiar as pessoas no local?

É difícil. As coisas pioraram em 30 de maio, quando uma instalação de MSF em Bambari foi assaltada por homens armados no meio da noite. Felizmente, nossa equipe não foi gravemente ferida. Depois disso decidimos evacuar a maior parte da equipe para Bangui, a capital do país. O hospital presenciou duas incursões violentas de homens armados que entraram no complexo sem hesitar, procurando inimigos entre os pacientes ou retirando seu próprio pessoal antes que outros grupos pudessem matá-los. Uma pequena equipe de MSF continuou em Bambari e depois, revendo a situação de segurança atual, decidimos enviar uma equipe médica e cirúrgica para apoiá-la e ajudar os feridos que, neste momento, não podem passar por cirurgias. A partir de 15 de junho, pudemos retomar as atividades cirúrgicas e médicas, mas ainda há instalações de saúde que não estão funcionando.

Os trabalhadores humanitários e as instalações médicas não são mais respeitados em Bambari?

Ter homens armados vindo, atirando no hospital e tirando pacientes dos leitos é totalmente inaceitável. O hospital deve ser um lugar onde todos são bem-vindos. As pessoas precisam se sentir seguras para ir ao hospital e ter certeza de que ninguém vai machucá-las e isso não é o caso em Bambari. Se isso não for possível, ninguém pode trabalhar ou receber atendimento médico lá. Isso é incrivelmente frustrante para nossas equipes.

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