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Protegendo a saúde das mulheres durante uma pandemia

28/05/2021
Os efeitos indiretos da COVID-19 têm tido um impacto negativo na oferta de cuidados essenciais para mulheres e meninas em todo o mundo
Protegendo a saúde das mulheres durante uma pandemia

Foto: Cecilia Rivero/MSF

“Se você pensar em tempos de crise - seja por doenças, deslocamentos ou conflitos - mulheres e meninas costumam ser afetadas de forma desproporcional”, diz Eva De Plecker, obstetriz e coordenadora de Médicos Sem Fronteiras (MSF) para saúde reprodutiva e violência sexual. As equipes de MSF no terreno estão constatando que a pandemia de COVID-19 não é uma exceção. “Embora ainda estejamos aprendendo sobre a COVID-19 e como a gravidez pode ser afetada pelo vírus”, diz De Plecker, “a experiência de epidemias anteriores como o Ebola mostrou que o encerramento de serviços não relacionados ao surto resultou em mais mortes do que a própria doença.”

Hoje, os efeitos indiretos da COVID-19 ameaçam a saúde e a vida de mulheres e meninas em todo o mundo, especialmente em lugares que já enfrentam dificuldades para atender às suas necessidades de saúde. Muitos sistemas de saúde pública estão sobrecarregados e encaram escolhas difíceis quanto aos serviços que podem fornecer. “Receio que os serviços de saúde reprodutiva e violência sexual de rotina não estão sendo mantidos, estão sendo menos priorizados”, diz De Plecker, “e que as mulheres e meninas não irão encontrar os cuidados de que necessitam.”

MSF está profundamente preocupada com a interrupção dos programas de saúde sexual e reprodutiva e com o impacto que isso pode ter nos esforços para reduzir o número de mortes maternas. Os profissionais de saúde da linha de frente relatam interrupções de serviços como consequência da COVID-19. Sabemos que mesmo uma pequena redução nos serviços pode causar um aumento dramático no índice de mortalidade materna e neonatal, uma devastadora falta de serviços para sobreviventes de violência sexual e um aumento nas consequências fatais de abortos inseguros. Os cuidados de saúde sexual e reprodutiva são essenciais e salvam vidas.

Dificuldades para fornecer cuidados e o aumento das necessidades

Foto: Manhal Alkallak/MSF

Em muitos países onde atuamos, os serviços médicos foram interrompidos pela COVID-19, com equipes de saúde, instalações e outros recursos sendo desviados para a resposta à pandemia, sem possibilidade de continuar operando. Em nossos próprios projetos, vemos dois extremos - em alguns locais, as equipes estão respondendo a um aumento no número de pacientes, visto que outras unidades de saúde não estão mais disponíveis, enquanto outros projetos de MSF relatam um declínio preocupante no número de pacientes devido a vários fatores. Muitas vezes apenas chegar a uma instalação de saúde tem sido um grande obstáculo para as mulheres.

A experiência de epidemias anteriores mostrou que o nível de violência sexual e violência praticada pelo parceiro íntimo tende a aumentar durante uma emergência. Os cuidados médicos e psicológicos para a violência sexual podem ser difíceis de acessar em tempos normais devido ao estigma, medo de represálias ou falta de confiança nas autoridades. E são situações onde os atendimentos têm de ser realizados rapidamente. Para prevenir o HIV e a gravidez indesejada, as mulheres devem ter acesso à profilaxia pós-exposição (PEP) e ao tratamento anticoncepcional de emergência em tempo hábil.

O medo da COVID-19 também é uma barreira para oferecer cuidados. Algumas mulheres que apresentam complicações durante o parto podem adiar sua ida ao hospital até que seja tarde demais.

Manutenção dos serviços essenciais

Foto: Maxime Fossat/MSF

Não faltam desafios para as atividades de saúde sexual e reprodutiva realizadas por MSF durante a pandemia. As restrições de viagens impediram que muitas vagas de equipe fossem preenchidas em nossos projetos - incluindo as posições de obstetriz. Alguns profissionais foram infectados pelo vírus e não conseguem trabalhar. As medidas de prevenção e controle de infecções impedem que os pacientes se aglomerem em nossas unidades de saúde, obrigando os projetos a mudar a maneira como funcionam. As equipes de promoção da saúde, tão importantes para comunicar informações precisas sobre como e onde receber serviços de saúde, podem não ser capazes de alcançar grandes grupos de pessoas nas comunidades. E os pacientes estão tendo grandes dificuldades para chegar até nós. No entanto, as equipes de MSF estão se redobrando para garantir que possamos oferecer cuidados essenciais de saúde sexual e reprodutiva, levando em consideração a segurança e a acessibilidade.

As principais prioridades de MSF são os serviços com maior impacto sobre a mortalidade materna e aqueles que precisam ser realizados com agilidade. “São serviços que não podem ser adiados”, explica De Plecker, e que devem ser mantidos com as medidas de segurança adequadas: cuidados obstétricos de emergência e cuidados para recém-nascidos, contracepção e assistência para vítimas de violência sexual.

Implementar medidas de segurança significa ter que repensar a forma como fornecemos esses serviços. Por exemplo, proporcionar partos seguros agora significa ampliar o espaço e estabelecer barreiras entre os leitos ou criar enfermarias separadas quando possível para mulheres com e sem suspeita de infecção pela COVID-19. Em nosso projeto de saúde sexual e reprodutiva na África do Sul, as mulheres precisam marcar uma consulta antes de entrarem. Também no país, MSF continua administrando seu serviço de transporte para vítimas de violência sexual; das 9h00 às 17h00 as mulheres que ligam para solicitar atendimento são levadas à unidade para tratamento e, em seguida, devolvidas aos seus lares. No entanto, há dificuldades com telefonemas para acompanhamento dos casos, porque as pessoas presas em casa com um agressor geralmente têm muito medo de conversar.

Para garantir que as mulheres tenham acesso ao controle de natalidade, os projetos de MSF são aconselhados a fornecer maiores quantidades de contraceptivos para que os pacientes não tenham que voltar para buscar recargas todos os meses. Outros projetos estão encontrando maneiras das mulheres obterem contraceptivos gratuitos mais próximos de onde moram, seja trabalhando com farmácias ou encaminhando pacientes para as unidades de saúde mais próximas.

Os serviços de prioridade secundária são aqueles que devem ser mantidos, mas podem ser modificados, como atendimento pré e pós-natal. “Normalmente, em um projeto de MSF, pode haver 100 mulheres ou mais vindo para suas consultas pré-natais em um dia”, diz De Plecker. Como isso agora é impossível, essas consultas podem ser distribuídas ao longo da semana, ou um sistema de triagem pode ser implementado onde a equipe só verá as mulheres pessoalmente se elas tiverem complicações. Em um projeto na Colômbia, a maioria dos pacientes mora muito longe do hospital e agora tem acesso limitado ao transporte. Os médicos de MSF realizam ligações regulares com pacientes grávidas para verificar sua evolução e avisá-las se precisam ou não comparecer à consulta.

A COVID-19 nos leva à adaptação e inovação

Foto: MSF/Karin Ekholm

“Se podemos dizer algo positivo sobre essa doença”, diz De Plecker, “é que a COVID-19 criou uma oportunidade única para MSF investir mais em abordagens inovadoras para oferecer serviços de saúde sexual e reprodutiva, adaptados às necessidades dos pacientes.”

Como as atividades de saúde sexual e reprodutiva podem ser apoiadas com segurança e eficácia por meio de modelos de autocuidado e centrados na comunidade, mais projetos de MSF adaptaram seus serviços de acordo. Alguns projetos oferecem aborto medicamentoso autogerido, que pode ser feito em casa, com o apoio de fontes como linhas diretas, plataformas digitais e educadores de pares. MSF também está encontrando maneiras de continuar a fornecer atendimento às vítimas de violência sexual, incluindo serviços de transporte gratuito em meio às medidas de confinamento e por meio da telemedicina.

De Plecker observa que a pandemia destacou o papel crítico desempenhado pela equipe de MSF contratada localmente, que representa cerca de 90% de nossa força de trabalho. “Nós temos muito orgulho e sorte por ter nossas obstetrizes nacionais no terreno. Não podemos imaginar o que teria acontecido sem a sua presença”, diz ela. As equipes estão se adaptando para enfrentar os crescentes desafios. “Eles têm sido fortes combatentes para garantir que os serviços de saúde sexual e reprodutiva não sejam desprezados e que mulheres e meninas tenham acesso a esses serviços essenciais e que salvam vidas.”






 

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