Você está aqui

Promotores de saúde de MSF atuam na linha de frente contra a COVID-19 no Haiti

07/07/2020
Nathalie Destiné Charles e Julie Rolinet, integrantes da equipe de promoção de saúde em Porto Príncipe
Promotores de saúde de MSF atuam na linha de frente contra a COVID-19 no Haiti

Foto: Lunos Saint-Brave/MSF

Muitos boatos circulam pelo Haiti desde o início da pandemia do novo coronavírus. Um dos mais difundidos é que uma injeção fatal é administrada em hospitais para aumentar o número de mortes relacionadas à COVID-19, fazendo com que o país receba mais ajuda internacional. Outro é que as unidades de saúde estão testando uma vacina contra a doença sem o conhecimento das pessoas.

Trabalhamos para combater os boatos e fornecer informações corretas à população em Porto Príncipe. Mas algumas crenças são difíceis de mudar: no centro de emergência de MSF em Martissant, bairro da capital, por exemplo, os pacientes são mais relutantes e, às vezes, se recusam a receber uma injeção.

Nas ruas, as pessoas costumam nos dizer que preferem morrer em casa do que ir ao hospital. É uma tendência muito preocupante, pois mostra a desconfiança nas instituições e afeta o comportamento na busca pela saúde. No centro de atendimento de COVID-19, aberto por MSF no bairro de Drouillard, observamos que as pessoas adiam ao máximo a busca por tratamento e acabam chegando à unidade de saúde em condições sérias ou mesmo críticas. Dos 132 pacientes internados no centro entre maio e junho, 12 morreram imediatamente após a chegada ou nas primeiras 24 horas.

Muitas pessoas que conhecemos expressam pensamentos contraditórios sobre a COVID-19. Por um lado, elas não acreditam na existência da doença, mas ao mesmo tempo têm medo. Alguns temem que o sistema de saúde haitiano, já frágil, não possa lidar com essa epidemia. De fato, os casos de COVID-19 são cada vez mais evidentes no sistema geral de saúde. Várias instalações em Porto Príncipe já foram forçadas a suspender total ou parcialmente suas atividades devido à falta de equipamento de proteção ou pela incapacidade de estabelecer triagem e isolamento, a fim de garantir a segurança dos doentes e da equipe.

Medo e estigma estão ligados. Por medo de serem infectadas, as pessoas não querem um doente perto delas. É um meio de proteção. É por isso que antes da abertura do nosso centro em Drouillard, as equipes de promoção de saúde de MSF encontraram os líderes comunitários e seus  vizinhos para ouvir suas preocupações e tentar responder a elas. Eles também foram convidados a visitar a estrutura antes da abertura para entender o caminho que os pacientes seguem e ver todas as medidas de precaução para evitar contaminação.

A negação da doença, no entanto, provavelmente está ligada ao fato de o número de mortes registradas oficialmente no país permanecer baixo até o momento, em comparação com o que pode ser observado em outros países. Em alguns bairros, os moradores nos falam sobre uma "epidemia de febre" que afeta grande parte da população, mas eles não a associam à COVID-19.

Por causa do vírus, não podemos organizar grandes reuniões para compartilhar informações de saúde. Então, em vez disso, adaptamos nossos métodos e incentivamos o treinamento e a conscientização em pequenos grupos. Para o treinamento da COVID-19, alcançamos certos grupos-chave, como diretores de escolas e associações de bairros. Já treinamos mais de 120 pessoas. Em seguida, elas podem compartilhar as informações com familiares e amigos para ajudá-los a se protegerem do vírus.

Também fortalecemos nossas atividades de porta em porta para conscientizar os moradores da existência da doença, medidas preventivas a serem adotadas e a necessidade de procurar tratamento antes que seja tarde demais. Inevitavelmente, conseguimos educar menos pessoas do que se pudéssemos ter grandes reuniões, mas temos discussões mais aprofundadas com cada uma. No contexto atual, no qual há muitos boatos circulando, essa troca é fundamental porque nos permite entender as preocupações e abre espaço para que elas façam perguntas. É quando as pessoas se perguntam sem encontrar respostas adequadas que os rumores têm um lugar para se espalhar.

Se todos entenderem como a doença funciona e é transmitida, poderão identificar as situações de maior risco em suas vidas diárias e tomar precauções de acordo com sua situação. Medidas preventivas, como o uso de máscara, o distanciamento físico ou até a lavagem das mãos, são muito difíceis para serem realizadas por parte da população do Haiti. Eles podem ter que escolher entre alimentar seus filhos ou comprar uma máscara, ou podem não ter acesso adequado à água ou sabão. O distanciamento físico é muito difícil em um bairro como Martissant, que possui uma das maiores densidades populacionais do mundo. Juntamente com a população local, tentamos pensar em alternativas adaptadas às suas condições de vida, como disponibilizar pontos de lavagem coletiva das mãos, por exemplo.

O fato de MSF estar presente no Haiti há quase 30 anos e oferecer assistência médica gratuita, especialmente em áreas muito difíceis de Porto Príncipe, conhecidas por sua insegurança, nos permitiu criar uma sólida relação de confiança com a população. Ao lidar com boatos, a confiança é um trunfo. Como promotores de saúde, nosso papel é ouvir e falar ativamente com as pessoas nas comunidades onde trabalhamos, para preservar esse vínculo.

Faça uma doação e apoie #MSFcontraCOVID19

Leia mais sobre

MSF usa cookies neste site para melhorar sua experiência.
Saiba mais na

Política de Privacidade. Aceitar