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Promotor de saúde relata que COVID-19 é desafio a mais em campo de refugiados no Iraque

19/08/2020
Hameed Hilal, 26 anos de idade, atua no acampamento Laylan, em Kirkuk, no norte do país
Promotor de saúde relata que COVID-19 é desafio a mais em campo de refugiados no Iraque

Foto: Narmeen Abbads/MSF

Hameed Hilal tem 26 anos de idade e é promotor de saúde de MSF no campo de refugiados de Laylan, na província de Kirkuk, no Iraque. Há três anos, sua família fugiu de Al-Rashad, no distrito de Hawija, quando a área estava sob o controle do grupo Estado Islâmico (EI).

Hameed atua visitando regularmente as famílias no acampamento prestando informações sobre a COVID-19 e demais cuidados de saúde. No relato abaixo, ele conta como a vida, que já era difícil no local, ficou ainda pior com o risco da pandemia do novo coronavírus se espalhar.

“Eu moro no acampamento Laylan, em Kirkuk, no norte do Iraque.

Como muitos dos residentes do campo, eu fugi de minha cidade natal - subdistrito de Al-Rashad no distrito de Hawija - três anos atrás, quando a área estava sob o controle do grupo Estado Islâmico.

Fizemos uma longa jornada a pé antes de terminarmos neste acampamento e ainda não podemos voltar para casa.

Fugir de nossa cidade natal de Al-Rashad não foi fácil. Ao longo de todas as estradas de saída, o Estado Islâmico instalou postos de controle, armadilhas e dispositivos explosivos para deter, capturar ou matar quem tentasse fugir.

A única maneira de escapar com segurança era pedir ajuda aos contrabandistas, e assim fizemos. O contrabandista com quem fugimos cobrou 200 dólares por pessoa pela viagem, e éramos cerca de 50 famílias no total. Ele nos guiou para fora da cidade perto de um posto de controle curdo. Depois disso, percorremos um longo caminho por conta própria em busca de segurança.

No último posto de controle, homens e mulheres foram separados para triagem. Os soldados pegaram nossas identidades para verificar se alguém estava listado em seu banco de dados de inteligência como tendo ligações com o Estado Islâmico. Quando nossa verificação de segurança foi liberada, eles nos transferiram para este acampamento e devolveram nossas identidades. Pudemos nos reunir com nossas famílias e recebemos barracas para morar.

A chegada do COVID-19 ao acampamento

Agora, com a pandemia, morar no campo se tornou mais estressante do que antes para a maioria de nós, residentes.

Viver em um acampamento apresenta muitas dificuldades, mas por causa da COVID-19 agora há situação ficou ainda pior. O governo estabeleceu bloqueios e restrições frequentes sobre os locais para onde as pessoas podem viajar, o que dificulta demais encontrar empregos regulares ou mesmo apenas o trabalho diário.

Mesmo com o fechamento do bloqueio, encontrar empregos é muito mais difícil do que antes, devido à crise econômica - os negócios em todos os lugares estão muito mais lentos e os trabalhadores estão com menos demanda.

A maioria dos residentes dependia do trabalho diário para garantir suas necessidades básicas - isso significa que são pagos por dia e não têm renda garantida. Agora que as coisas estão ficando mais difíceis em termos de trabalho e de dinheiro, as pessoas estão tendo que priorizar trabalhar para alimentar suas famílias em vez de ficarem seguras em casa.

Sem escolha

Ontem uma mulher me disse:

‘Antes do coronavírus, eu costumava sair para trabalhar todos os dias, ganhava entre 8 e 12 dólares por dia e podíamos ter um sustento seguro. Agora, nossa receita caiu significativamente por causa da lentidão dos negócios e frequentes bloqueios. Eu realmente não posso me preocupar muito em me proteger contra o coronavírus. Se eu encontrar trabalho em qualquer lugar, irei porque se eu me proteger, deixarei minha família sem as coisas básicas de que precisam.’

Promotores de saúde de MSF como eu visitam regularmente as pessoas no acampamento para educar as famílias sobre o COVID-19. A maioria também tem acesso à internet e TV, então eles sabem quais são os sintomas e entendem os riscos e como se proteger.

Necessidades essenciais

Mas, o problema é que as pessoas não estão recebendo uma quantidade de apoio que torna mais fácil para elas ficarem em casa. Com a quantidade limitada de ajuda oferecida, as pessoas não têm escolha a não ser sair em busca de trabalho para sustentar suas famílias.

Na verdade, o fornecimento de kits de higiene e as condições gerais de higiene dentro do acampamento não são suficientes. Mas por causa da pressão financeira, as pessoas não podem realmente pensar tanto em higiene e todo o foco permanece em como elas garantiriam dinheiro para o dia seguinte, ou quem forneceria comida e suas necessidades essenciais caso elas não pudessem encontrar qualquer trabalho.

Até poucos meses atrás, as pessoas recebiam alimentos regularmente, mas agora, em vez de comida, elas recebem dinheiro. Cada pessoa recebe 14 dólares por mês, mas às vezes há atrasos na distribuição do dinheiro de até dois meses. Em qualquer caso, essa quantia significa 40 centavos de dólar por dia, o que, como uma quantia, é impossível de viver.

A maioria dos moradores já tem dívidas com mercearias, então, quando o dinheiro chega, eles imediatamente entregam tudo para os donos das lojas. Está ficando difícil para algumas pessoas: significa que elas não podem sacrificar facilmente o trabalho em prol do distanciamento social e da quarentena doméstica.

Aumentando as tensões

Como alguém que mora no acampamento, vejo e ouço falar de tensões familiares aqui e ali.

Devido à difícil situação financeira que as pessoas estão passando, os níveis de estresse estão aumentando, tornando o acampamento um lugar muito tenso. Às vezes, as pessoas começam uma briga pelos menores motivos.

A duração desconhecida desta situação está apenas adicionando mais estresse e medo para o futuro. As pessoas pensam - e não conseguem encontrar esperança - sobre quanto tempo terão para lidar com essas dificuldades: bloqueio e falta de trabalho além das adversidades que já enfrentaram.

Trazendo o vírus de volta

Um dos medos que alguns residentes do acampamento têm (eu incluído) é sobre as pessoas saindo e voltando para o acampamento.

Sabemos que o vírus não pode chegar ao acampamento se alguém não for contaminado do lado de fora, então o movimento de pessoas entre outros lugares tem maior potencial para introduzi-lo aqui. Nos sentiríamos mais confortáveis se alguém que sai fosse testado antes de entrar novamente.

Sabemos que, se tivermos um caso no campo, a possibilidade de uma infecção generalizada é muito alta. Minha família e eu começamos a pensar em alugar uma casa na cidade para minha esposa e filhos morarem. Seria mais seguro para eles do que ficar aqui com alto risco.”

 

MSF começou a trabalhar nos acampamentos de Laylan desde junho de 2019 e oferece serviços de saúde para doenças não transmissíveis, serviços de saúde mental, sessões de educação em saúde, bem como serviços de saúde sexual e reprodutiva. Durante a pandemia de COVID-19, MSF adaptou as atividades da clínica no acampamento de Laylan para proteger melhor os pacientes de serem contaminados. Além disso, as equipes de educação em saúde de MSF aumentaram seus esforços no acampamento para sensibilizar os residentes sobre o COVID-19 e as melhores maneiras de se manter seguro durante a pandemia.

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