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Problemas de saúde mental assombram acampamento em Malakal

26/04/2018
Mulheres com medo de serem estupradas e homens com medo de serem obrigados a se juntar a grupos armados. Em Malakal, tudo impacta a saúde mental das pessoas
Problemas de saúde mental assombram acampamento em Malakal

Foto: Philippe Carr/MSF

O acampamento de Proteção de Civis de Malakal (PoC) foi criado no início de 2014 para oferecer proteção temporária à população da área, presa no meio do conflito na região do Alto Nilo, no Sudão do Sul. Mas, quatro anos depois, as difíceis condições de vida, a perda de esperança, os sentimentos de aprisionamento e as limitadas oportunidades de obter meios de subsistência afetaram a saúde mental daqueles que estão retidos dentro do acampamento. Para a maioria, deixar o local ainda não é uma opção. Médicos Sem Fronteiras (MSF) mantém serviços de saúde mental dentro do PoC.
No canto da ala principal, uma jovem de repente cai no chão, tremendo incontrolavelmente. Imediatamente, a equipe do hospital corre para evitar que ela se machuque. Uma enfermeira puxa uma cortina para oferecer a ela um pouco de privacidade.

"Ela teve uma convulsão psicogênica", explica Jairam Ramakrishnan, psiquiatra do hospital. “É bastante comum aqui no hospital. Para muitas pessoas, a ansiedade e as tensões de estar no PoC chegou a um nível além do que elas conseguem lidar.”

Em 2017, foram contabilizados sete suicídios e 37 tentativas. No final do ano, houve um pico nas tentativas de suicídio: 10 em apenas um mês.     

"Grande parte da população enfrenta circunstâncias cronicamente deprimentes", diz o dr. Ramakrishnan. "A maioria dos homens não sai do acampamento porque tem medo de ser atacado ou forçado a se juntar a um grupo armado."
O PoC foi aberto em 2014, depois que os conflitos em Malakal forçaram muitas pessoas a fugirem de suas casas. A prioridade da Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS), que estabeleceu o acampamento, era garantir um espaço onde as pessoas pudessem se estabelecer temporariamente. Melhorar os padrões de vida no acampamento não era uma prioridade imediata.

Mas, com o passar dos anos, as autoridades do local perceberam que o PoC não fecharia tão cedo. Há um esforço para lentamente melhorar as condições, mas as opções são limitadas.

Hoje, 25 mil pessoas vivem em um espaço de confinamento; a maioria são crianças. Em algumas partes do acampamento, o espaço médio é inferior a 17 m² por pessoa.

O período mais difícil no acampamento é a estação chuvosa, entre junho e outubro, quando o solo do acampamento se transforma em uma lama espessa e os pisos de terra batida das cabanas viram poças.

 “Dada a violência que as pessoas têm vivenciado, estima-se que muitas sofrerão de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), mas vejo um cenário diferente”, diz o dr. Ramakrishnan.

“Apesar da violência, as pessoas são resilientes e sobrevivem sem sinais de TEPT. Mas, com o tempo, confrontadas com o fato de estarem presas nas condições atuais, sem qualquer melhoria em suas vidas, elas se sentem desesperadas.”
A psicose pressiona as pessoas a uma prisão mental, separando-as do mundo real. Indivíduos mais solitários podem ser vistos andando com o olhar vazio ao mesmo tempo em que lutam para lidar com a situação. Devido a separações, muitos não têm famílias para receber apoio emocional.

É difícil dizer exatamente a proporção de pessoas com problemas de saúde mental no PoC. MSF atende mensalmente de 18 a 20 novos casos de transtornos mentais graves. Isso não inclui aqueles que passam despercebidos ou que não estão buscando tratamento para outros problemas mentais. Os profissionais de saúde mental do grupo de trabalho do Sudão do Sul que ajudam a coordenar as atividades descobriram que, a partir de 2017, metade de todos os casos de saúde mental estavam relacionados com depressão e 15% com ansiedade.

A ameaça de violência é um fator sempre presente e que aumenta as tensões. Em fevereiro de 2016, 25 pessoas morreram quando combates ocorreram no PoC. Muitos mais ficaram gravemente feridos e 33% do acampamento foi queimado.

Alguns tentaram encontrar consolo na bebida local destilada do sorgo. No acampamento, a taxa de alcoolismo é grande e ela contribui para problemas de saúde, como a hipertensão, e para diminuir a resistência natural a doenças, como a tuberculose.

Enquanto a rotina de vida familiar pode ajudar algumas mulheres, elas constantemente temem sofrer violência sexual quando deixam a segurança do acampamento. Uma das poucas fontes de subsistência para as mulheres é coletar lenha do lado de fora dos portões do acampamento.

“Muitas vezes elas são atacadas e agredidas sexualmente”, explica Natalia Rodriguez, psicóloga de MSF no PoC. “Poucas virão até MSF buscar aconselhamento ou exames médicos. Elas têm medo, pois raramente mulheres violadas sexualmente se casam.”

A infância termina cedo no PoC. Durante o segundo semestre de 2016, várias tentativas e casos de suicídios entre as crianças chamaram atenção das autoridades do campo e levaram a uma nova ação.

Infelizmente, a situação das crianças muitas vezes passa despercebida. Nas famílias, os sinais de sofrimento emocional, como agressividade ou incontinência urinária, são inadvertidamente ignorados pelos pais. Abuso, negligência e fome podem passar despercebidos e levar a mudanças comportamentais.

Crianças e órfãos negligenciados podem estar nas ruas, às vezes comendo lixo, já que não têm acesso a alimentos. Mais uma vez, o álcool é frequentemente o único meio de alívio identificado e pode levar a comportamentos violentos.

“Com a terapia cognitivo-comportamental, podemos ajudar a desenvolver as habilidades de enfrentamento das pessoas quando elas sofrem de condições como depressão, o que eventualmente ajuda a identificar atalhos mentais para a depressão e a encontrar estratégias de mitigação”, diz Natalia Rodriguez.

"Ninguém sabe quando a situação no Alto Nilo melhorará e quando essa população poderá voltar para casa", afirma o dr. Jairam Ramakrishnan.

Enquanto isso, as autoridades no acampamento precisam fazer mais do que fornecer comida e água. Elas também devem enfrentar a falta de moradias, desenvolver estratégias para um maior engajamento entre a comunidade e criar mais oportunidades de emprego no local. Nesse momento, os recursos psiquiátricos e psicológicos do acampamento são insuficientes para a população que é tão vulnerável.    
 

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