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Presidente internacional de MSF faz discurso durante conferência sobre Ebola

03/03/2015
A Dra. Joanne Liu fala sobre as preocupações de MSF acerca da necessidade de investimento em pesquisas e atividades de sensibilização

Foto: Natacha Bhuler

Abaixo, a íntegra do discurso da Dra. Joanne Liu, presidente internacional da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), durante conferência internacional sobre Ebola realizada hoje, 3 de março, em Bruxelas. O objetivo da reunião organizada pela Comissão Europeia é acelerar o progresso na eliminação da doença na Guiné, na Libéria e em Serra Leoa, além de fazer planos para ajudar na reconstrução das sociedades afetadas pela epidemia.

“Excelências, convidados ilustres, estimados colegas. Não podemos subestimar o custo humano causado pela epidemia de Ebola na África Ocidental: as mortes, o medo e o impacto sobre as comunidades locais e os sistemas de saúde.

Em um momento em que o número de casos de Ebola está particularmente mais baixo, nós, coletivamente, continuamos falhando com nossos pacientes e com aqueles que continuam sob o risco de contrair o vírus. A taxa de mortalidade em nossos centros de tratamento está em esmagadores 50%. Isso é inaceitável. Um plano prático para subsidiar pesquisas acerca de vacinas, tratamentos e ferramentas para diagnóstico precisa ser desenvolvido. Os resultados dessa pesquisa pertencem primeira e principalmente as comunidades afetadas, então, precisamos garantir que estejam voltados, prioritariamente, para seu benefício.

O medo tem sido fator dominante na epidemia de Ebola. Essa é uma reação normal a um surto letal e sem precedentes. Sim, precisamos reconhecer que, após um ano inteiro, os esforços voltados para a sensibilização comunitária falharam no combate à desinformação. O volume de atividades nesse sentido demanda melhorias urgentes. Em alguns casos, o Ebola tem sido utilizado como instrumento político, contribuindo para a confusão e a desconfiança das comunidades.

Na Guiné, onde a desinformação e o medo são mais fortes, agentes humanitários e equipes médicas ainda são suspeitos de introduzirem o vírus nas comunidades e são, por isso, violentamente atacados. Ainda assim, temos observado que neste mesmo país, quando as pessoas recebem informações precisas, começam a confiar. No entanto, é provável que medidas coercitivas, como escoltas armadas de atividades de sensibilização nas comunidades, que estão sendo atualmente consideradas na Guiné, agravem o medo e a desconfiança.

O Ebola não vai ter chegado ao fim até que não haja registro de caso algum por um período de 42 dias. Um caso que não seja detectado pode ocasionar um surto. Para chegar a zero casos, cada pessoa que tenha estado em contato com alguém infectado com Ebola precisa ser identificada. No entanto, hoje, praticamente não há compartilhamento de informações entre os países sobre o rastreamento desses indivíduos. Faltam recursos básicos às equipes de vigilância para que conduzam o rastreamento de contatos proativamente.

Na medida em que buscamos alcançar zero casos, precisamos também nos adaptar à devastação mais ampla causada pelo Ebola, garantindo acesso seguro a cuidados se saúde para casos não relacionados com a doença. Não podemos desconsiderar que o Ebola dizimou a força de trabalho de saúde nos países afetados. A emergência de sarampo na Libéria ressalta a necessidade imediata de restauração dos sistemas de saúde e da confiança do público. Ameaças à saúde pública estão emergindo, e talvez de maneira até mais devastadora do que o próprio Ebola.

As populações da Guiné, de Serra Leoa e da Libéria  continuam enfrentando as consequências devastadoras diretas e indiretas do Ebola. Não devemos declarar uma vitória antes da hora. Não podemos nos dar por satisfeitos. Precisamos permanecer engajados, resposivos e determinados.

Obrigada!”