“Parecia um pesadelo”: profissional de MSF relata ataques israelenses no norte de Gaza

Renan compartilha o que aconteceu em 26 de maio, quando explosões atingiram um prédio em frente ao seu apartamento, destruindo parte de sua casa

Apartamento de Renan, profissional de MSF, após ataques israelenses no norte de Gaza. ©MSF
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No último dia 26 de maio, explosões das forças israelenses atingiram áreas densamente povoadas no norte de Gaza, onde palestinos se reuniam nas ruas e se preparavam para celebrar o feriado do Eid al-Adha. 

Em 48 horas, 39 feridos e 16 mortos foram levados a hospitais na Faixa de Gaza – dos quais 15 foram mortos durante o Eid. 

Renan, profissional de Médicos Sem Fronteiras (MSF), teve parte de sua casa destruída, após um ataque atingir um prédio em frente a seu apartamento. 

“Há alguns dias, eu estava contando aos meus colegas de MSF como me sentia grata e esperançosa por finalmente ter um Eid ‘normal’ este ano, depois de tudo o que passamos: guerra, deslocamento, perdas, medo e dias difíceis que pareciam não ter fim. 

Mas essa esperança não durou muito. 

Na véspera do Eid, por volta das 21h, enquanto eu estava na cozinha lavando a louça, tudo mudou em questão de segundos. Uma luz vermelha tomou o céu, seguida por explosões extremamente altas. Cerca de cinco ataques aéreos consecutivos, um após o outro. 

O prédio bem em frente ao nosso apartamento foi atingido, sem qualquer aviso. 

E enquanto eu ainda estava na cozinha, o vidro da janela da cozinha explodiu de repente bem na minha frente. 

A luz foi cortada imediatamente. Tudo ficou escuro. Eu não conseguia ver nada e nem conseguia respirar, por causa da poeira. 

Naquele momento, parecia que nossa casa tinha sido atingida. 

Nossa casa ficou parcialmente destruída com a explosão. 

Abracei minha sobrinha enquanto ela gritava: ‘Não quero morrer’. 

E eu realmente senti que aqueles poderiam ser nossos últimos momentos. 

Havia vidro por toda parte. O concreto estava caindo. E podíamos ouvir pessoas lá fora gritando, perguntando se ainda havia alguém vivo. 

Parecia um pesadelo. 

Minha sobrinha continuava chorando e me perguntou algo que nunca vou esquecer: 

‘Então… não vai ter Eid amanhã?’

Nós sobrevivemos, graças a Deus. Apenas ferimentos superficiais causados por vidro e estilhaços. 

Mas aquela noite não terminou aí. 

Passamos a noite inteira, até por volta das 7h, limpando a casa com nossas próprias mãos. Removendo vidros e escombros. 

E mesmo agora, ainda ouço isso. Os sons ainda estão na minha cabeça. Não consigo fugir deles. 

Ainda ouço os sons das ambulâncias e das pessoas gritando enquanto retiravam mortos e feridos do nosso prédio e do edifício bem em frente ao nosso. 

Em 2014, nossa casa também foi parcialmente danificada na véspera do Eid, enquanto estávamos dentro dela. Portanto, esta é a segunda vez que passamos por algo assim no mesmo momento que deveria ser de celebração. 

Os últimos dois anos têm sido insuportáveis. Houve períodos em que ficamos presos dentro de nossa casa por dias, sem comida, sem água e sob bombardeios contínuos. Em determinado momento, não tivemos escolha a não ser deixar tudo para trás e seguir para o Sul. 

E mesmo assim, não havia segurança de verdade. Nenhum lugar parecia seguro. 

Mas o que aconteceu desta vez trouxe tudo de volta de uma só vez. Parecia que a morte estava mais próxima do que nunca. 

Se eu pudesse realizar um desejo, seria viver uma vida verdadeiramente pacífica. Sem ter um sistema nervoso constantemente em alerta e aterrorizado. 

Feliz Eid a todos. 

Por favor, desejem-nos segurança e paz.”

 

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