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Os portões vazios de Bentiu

20/04/2018
Casas destruídas, estradas vazias e postos abandonados. Tudo é um lembrete sobre o que aconteceu na cidade
Os portões vazios de Bentiu

Foto: Peter Bauza

O projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Bentiu é um dos maiores projetos da organização no Sudão do Sul. MSF oferece assistência médica avançada para tratar doenças graves e ferimentos de cerca de 115 mil deslocados internos que vivem dentro do acampamento de Proteção de Civis (conhecido como o PoC) que é protegido por forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Fora do PoC, na cidade de Bentiu, MSF oferece cuidados pediátricos e de saúde materna, e realiza atividades de promoção de saúde. Chris McAleer, coordenador de MSF em Bentiu, reflete sobre uma viagem de rotina do PoC para a cidade, onde restos do passado se mesclam com realidades do presente.

“Esta manhã, eu tenho que ir do PoC a nossa base, na cidade de Bentiu. É uma jornada que fiz mais vezes do que consigo contar. Eu serei moderador de uma reunião para toda a equipe sobre questões gerais do projeto, nada em especial. Mas durante a jornada, eu me deparo com três lembretes distintos, todos apontando para algo que eu facilmente esqueci.

Quando saímos do PoC, a estrada se transforma em uma tábua marrom terracota, com buracos secos e profundos causados por veículos que tentavam desviar das trilhas durante a estação chuvosa. Ao nascer do sol, passamos por um numeroso rebanho de gado aqui em Rubkona – cidade que fica entre o PoC e Bentiu. A via não está congestionada nesse momento e há apenas algumas pessoas passando à medida que o mercado abre. As cenas são familiares: pequenas barracas com as mesmas mercadorias em cada lado da estrada; uma oficina de carros com pelo menos um Toyota Landcruiser sem o capô; vendedores com uma grande variedade de roupas de cores vibrantes, penduradas do lado de fora; e lojas de chá com homens amontoados em qualquer banquinho ou cadeira de plástico que eles consigam encontrar. As barracas e as construções não são simétricas. Os diferentes pedaços de metal e vigas de madeira são o meu primeiro lembrete do que eu tinha esquecido sobre o lugar. Rubkona foi completamente destruída durante os combates em 2014. Os vários pedaços que compõem as barracas são partes remanescentes que foram deixadas após a destruição e reunidas de novo para tentar uma nova vida.

Depois de passar por Rubkona, atravessamos a ponte sobre o rio. Logo à frente está o posto de gasolina local; as bombas estão vazias. Presumo que a última vez que alguém encheu o tanque de um veículo foi antes do início do conflito. Agora, o posto serve como garagem de dois veículos militares abandonados. Eu olho para a esquerda e vejo um tanque. Ele está lá desde que cheguei a Bentiu, todo pintado sem ter para onde ir. O tanque, junto à grande quantidade de restos de veículos amontoados dos dois lados da estrada, reflete meu segundo lembrete. Suas carcaças retorcidas, queimadas no passado e agora tornando-se alaranjadas pela ferrugem, contrastam com a bela vegetação por trás delas. Lembro-me da minha primeira vez indo do PoC a Bentiu, em fevereiro de 2016. Meu motorista se atreveu a me contar quantas pessoas haviam morrido em cada veículo, fugindo do conflito.

Quando chegamos à periferia da cidade de Bentiu, sou confrontado com o terceiro e último lembrete. Escondidos durante a estação de chuvas, é só agora, por trás da neblina matinal da estação seca, que eles começam a aparecer. Duas colunas de tijolos permanecem erguidas como fantasmas às margens da estrada. Elas não estão sozinhas. Existem muitas ao longo do caminho da ponte até a cidade de Bentiu. Algumas de frente para a estrada, outras voltadas para a cidade e mais algumas com suas portas quebradas. Este é o lembrete mais sutil de onde estamos: portões vazios de casas que não estão mais lá.  

Como Rubkona, a maior parte da cidade de Bentiu também foi destruída em 2014. Seus moradores fugiram para o PoC, onde agora moro e trabalho. A constante rotina de administrar nosso hospital no PoC e nossas atividades na cidade de Bentiu ocupam a maior parte do meu dia e, com isso, às vezes é fácil esquecer o que levou MSF a estar aqui. Mas enquanto os restos do passado podem ser facilmente ignorados, os efeitos continuam visíveis. O PoC ainda abriga cerca de 115 mil pessoas 4 anos após sua abertura. A maioria dos moradores do acampamento ainda vive com medo do que poderia acontecer se eles voltassem para casa. Em todos os dias que continuam no PoC, as pessoas vivem o passado.
Após sua abertura em 2014, Bentiu e outros locais como o PoC em todo o país foram aplaudidos por protegerem os civis de danos imediatos e efeitos do conflito. Eles, sem dúvidas, salvaram a vida de milhares de sul-sudaneses. A região do PoC em Bentiu era inicialmente um pântano e os residentes geralmente dormiam em pé para não se afogarem. Isso foi há quatro anos. Porém, a situação que os residentes enfrentam agora ainda é terrível. Vidas em espera. As condições fora do acampamento impedem as pessoas de voltarem para casa. Suas vidas no acampamento não têm quase nenhuma semelhança com a vida que tinham antes.

O gado, por exemplo, é um componente central da cultura nuer (a maioria dos residentes no campo é da etnia nuer) e está completamente ausente. Isso significa que muitos dos residentes mais jovens do acampamento não podem progredir no modo tradicional da vida nuer, obtendo mais gado, trocando-os em casamentos e avançando para a idade adulta. O que vemos, em vez disso, é a juventude se juntar a várias gangues dentro do campo, com a luta entre eles se tornando cada vez mais comum. Regularmente, recebemos em nosso hospital pacientes com ferimentos por lança ou facão que precisam passar por cirurgias.

Porém, os confrontos entre gangues dentro do campo também são geralmente reflexo de ataques ao gado fora do PoC. Certa manhã, recebemos alguns corpos após uma recente invasão e roubo de gado do lado de fora da área do PoC. Um de nossos profissionais de emergência estava me ajudando a mover os corpos dentro do nosso necrotério. Tivemos que abrir cada saco funerário para identificar os mortos. Ao abrir o primeiro, ele olhou para o corpo, em seguida, simplesmente olhou para mim, e sem demonstrar qualquer emoção, contou que aquele era seu irmão. Eu já tinha lidado com corpos e realizado a identificação deles em missões anteriores. No entanto, sempre fui acompanhado por uma enorme carga emocional. Dessa vez, a franqueza e a calma da minha equipe foi o que mais me chocou. Eu não sei o motivo da falta de emoção que ele demonstrou, mas parte de mim está cansada de ver isso repetidamente.

Essas coisas nos lembram o porquê das pessoas que atendemos ainda estarem no PoC. Não porque eles querem estar no PoC, mas porque, se eles não estivessem lá, viveriam com o constante medo de serem mortos ou perseguidos. O passado deles é o presente e eles não podem escapar disso. É isso que meus colegas e eu precisamos lembrar diariamente. Precisamos nos lembrar da razão por trás da situação em que trabalhamos.

Com isso em mente, meu veículo entra no complexo de MSF em Bentiu. Hora de começar outro dia de trabalho.”
 

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