O que os olhos não veem, o coração não pode salvar

Em Histórias de MSF, a médica Sara Meyer compartilha sua experiência em projeto que destaca a importância da identificação de gestações de risco em áreas remotas

Sara Meyer, médica de MSF, junto de outra profissional de saúde, realiza um exame de ultrassom em uma gestante em Kimambi, na Tanzânia. O ultrassom portátil é uma forma de identificar precocemente complicações e gestações de alto risco. ©Vincenzo Livieri

Na poeira remota do distrito de Liwale, a distância entre a casa de uma mãe e uma cirurgia vital não é medida apenas em quilômetros, mas nos minutos que escorrem ao longo de uma estrada longa e traiçoeira. Para uma mulher grávida na periferia da Tanzânia, o desconhecido pode ser fatal. Uma complicação oculta ou uma gravidez de gêmeos não identificada é como um relógio silencioso que corre.  

Meu nome é Sara Meyer, sou médica e nascida na Suíça. Estou na Tanzânia com Médicos Sem Fronteiras (MSF)* porque acreditamos que a vida de uma mulher nunca deve depender da capacidade dela de pagar o ônibus ou de sobreviver a uma viagem de cinco horas até a cidade. Estamos trazendo os olhos do hospital para o coração da vila, garantindo que a primeira vez que uma mãe descubra uma complicação não seja quando já é tarde demais. 

Em Liwale, nosso objetivo principal é simples, mas vital: reduzir a mortalidade materna. E o meio para isso é a prevenção. Muitas mulheres aqui vivem na periferia — áreas isoladas e que estão longe do hospital distrital. Para elas, um check-up de rotina não está ao alcance de uma viagem rápida de carro. É uma jornada longa, cara e muitas vezes arriscada por estradas de difícil acesso. Por isso, muitas gestantes são forçadas a ficar em casa, sem saber das possíveis complicações até que seja tarde demais. Para resolver isso, não esperamos que elas venham até nós. Levamos o ultrassom [portátil] até elas, pois você não pode impedir o que não vê. 

Ao levar aparelhos portáteis de ultrassom para as unidades de saúde locais, podemos identificar casos de alto risco precocemente. Podemos avisar a mãe se ela precisa planejar um parto em um hospital maior, capaz de realizar uma cesárea, podendo ajudar a salvar duas vidas antes mesmo da primeira contração começar. 

Uma mãe segura seu bebê na ala de maternidade do Hospital B de Liwale, na Tanzânia. ©Vincenzo Livieri

Outro dia mesmo, eu estava fazendo um exame de rotina em uma mulher que havia viajado de uma pequena cidade próxima. Ao mover a sonda pela barriga dela, vi o brilho familiar de um coração batendo e a curva de uma coluna. 

“A cabeça está posicionada alta”, expliquei através do nosso intérprete. “Temos tempo para que o bebê se mova, mas devemos verificar isso de novo antes do nascimento.” 

Então, senti uma pancada repentina contra a sonda. Nós rimos – o bebê estava ativo. Mas, enquanto continuava as medições padrão para estimar peso e idade gestacional, minha tela mostrou algo inesperado. Parei, movi a sonda novamente, e lá estava: uma segunda cabeça. 

“Gêmeos”, eu disse, olhando surpresa. “Vamos ter gêmeos!” 

O rosto da mãe se iluminou. Ela não tinha certeza, mas nos contou que há semanas vinha sonhando com gêmeos. Naquele momento, a sala se transformou. Mostramos a ela os rostinhos, os olhos, os narizes e o delicado bater de dois batimentos cardíacos diferentes. 

São justamente esses tipos de casos, de gestações múltiplas por exemplo, que acarretam riscos maiores e exigem cuidados especializados. Por estarmos lá, ela agora sabe que precisa dar à luz em um hospital preparado para eventuais emergências. Como levamos o ultrassom para a comunidade dela, pudemos identificar esse risco cedo e criar um plano para manter ela e seus bebês seguros. 

Desde que me lembro, sempre quis fazer parte de MSF. Quando eu tinha 6 anos de idade, assistindo às notícias na Suíça, vi pessoas ajudando nos lugares mais remotos do mundo e soube que esse era meu caminho. Estudei medicina especificamente com este propósito: para retribuir, porque tive o privilégio de ter uma vida com conforto. 

Mas depois de chegar à Tanzânia para meu primeiro projeto com a organização, percebi algo importante: não se trata apenas do que damos. Trata-se do que recebemos. 

O vínculo que formamos com essas mulheres, as risadas compartilhadas quando um bebê chuta, e o alívio nos olhos de uma mãe ao ouvir um batimento cardíaco saudável… Esses momentos são incrivelmente gratificantes.  

É uma troca profunda de humanidade que enriquece minha vida muito mais do que qualquer livro didático jamais poderia fazer.

Em MSF, nossa capacidade de agir rapidamente e alcançar as áreas mais remotas depende completamente da independência do nosso financiamento. Dependemos das pessoas doadoras para garantir que o lugar onde vive uma mulher não determine sua sobrevivência.  

Furaha Walumpupu, coordenadora das atividades de obstetrizes na ala de maternidade do Hospital B de Liwali, sorri com gêmeos no colo. ©Vincenzo Livieri

Cada ultrassom que realizamos e toda gravidez de alto risco que identificamos é possível graças às doações. Obrigada a todas as pessoas que nos ajudam a permanecer onde a vida mais precisa de cuidado, por nos manter independentes e por garantir que as mães em Liwale possam sonhar com um futuro para seus filhos e ver esse sonho se realizar! 

 

*Relato escrito em janeiro de 2025 

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