O dia em que os telefones não pararam de tocar

Em Histórias de MSF, Jamila*, médica que trabalhou no Sudão, relata o que viu no país quando a guerra eclodiu

Pessoas deslocadas aguardam sob uma árvore para serem atendidas por profissionais de MSF no acampamento de Feina, no Sudão. Fevereiro de 2026. ©Julie Melichar

Sou médica.  

Mas no Sudão, nos últimos três anos, isso significou muito mais do que medicina: significou atender a pedidos de ajuda sabendo que não é possível chegar até a pessoa do outro lado. Significou entrar no perigo, não porque sejamos destemidos, mas porque um paciente está esperando por nós. Significou carregar memórias que não desaparecem, por mais que tentemos seguir em frente. 

O que irei compartilhar são experiências dos primeiros dias da guerra em Cartum, capital do Sudão, quando tudo desmoronou de uma vez, à medida que as Forças de Apoio Rápido (RSF, na siga em inglês) avançavam pela cidade, rua por rua. A partir disso, a minha experiência começa. 

 

O dia em que os telefones não pararam de tocar 

Em 15 de abril de 2023, fui trabalhar como de costume. Mas às 9h, tudo havia mudado. 

Eu estava em pé, perto de uma janela na base central de ambulâncias em Bahari, no norte de Cartum, quando vi pessoas correndo. E então, o som das explosões e tiros intensos começaram a surgir. Um prédio à nossa frente foi bombardeado e, em poucos minutos, vizinhos carregavam os feridos nos braços, gritando por socorro. 

Lá dentro, os telefones começaram a tocar e não paravam: “Por favor, venham.” “Ele está sangrando.” “Ela está morrendo.” Nós tentamos. Mas não conseguimos mover uma única ambulância porque as ruas já haviam se tornado perigosas demais. Com confrontos eclodindo de forma imprevisível, qualquer movimento significava arriscar a vida de todos nós. Horas depois, algumas dessas mesmas vozes ligaram de novo. “Não venham mais. Ele morreu”, nos disseram. 

Há algo dentro de você que se parte naquele momento. Porque você é médico. E, de repente, não consegue chegar às pessoas que mais precisam de você. 

Três dias presa e a decisão de voltar 

Eu era a única mulher de plantão. 

Eu tinha ouvido histórias de Darfur — áreas do Sudão sob o controle da RSF — sobre violência sexual e o que acontece quando grupos armados assumem o controle. Mas agora, à medida que os combatentes da RSF avançavam por Cartum, esses medos não eram mais distantes.   

Ficamos presos dentro da base de ambulâncias por três dias ouvindo, esperando, sem saber o que viria a seguir. Depois que fui evacuada, passei uma semana em Omdurman, uma cidade do outro lado da ponte de Cartum. 

Durante o Eid, uma celebração islâmica, havia um cessar-fogo temporário. Por um breve momento, as pessoas tentaram se agarrar a algo parecido com uma vida normal. Mesmo assim, sabíamos que não duraria. Mantivemos contato, ligando uns para os outros, voltando repetidamente à mesma pergunta: 

Se os hospitais estão fechados e as ambulâncias não podem circularo que acontecerá com a próxima pessoa que se ferir?

O sistema de saúde já não existia mais. Então, tomamos uma decisão. Iríamos voltar. 

 

Construindo algo do nada

Quando contei à minha família sobre minha decisão, eles ficaram com medo. Meu tio tentou me impedir, mas eu disse a ele: “Este é o meu dever.” Não por bravura. Mas por minha responsabilidade médica.

Tínhamos um objetivo: junto com um pequeno grupo de colegas, reabriríamos o Hospital Universitário Bashair, no sul de Cartum. Também reuniríamos a equipe médica que ainda estava nas proximidades, porque eram pessoas que conheciam os bairros e podiam se deslocar com mais segurança e reiniciaríamos os serviços, mesmo que de forma limitada.

Começamos praticamente do nada. Alguns médicos. Alguns cirurgiões. Enfermeiros. Voluntários. Abríamos das 8h às 16h. Depois disso, as portas eram fechadas por falta de recursos. Era o único hospital em funcionamento na região.

Nosso foco eram os traumas — ferimentos por arma de fogo, lesões causadas por explosões — e outras vítimas da guerra.

 

Vivendo com medo

No início, fiquei em uma casa próxima. Mas as noites eram insuportáveis. Cada som parecia um perigo e cada silêncio parecia uma espera. Eu voltava para casa tarde, às vezes perto da meia-noite, e frequentemente era parada em postos de controle. Perguntas. Suspeitas. Imprevisibilidade.

Depois de um tempo, eu não me sentia mais segura lá fora. Alguns soldados começaram a se aproximar de mim tentando conversar, até mesmo propondo casamento. Recusei. Disse a eles que sou uma mulher casada, uma mãe. Mas recusar não me garantia segurança. Então, me mudei para o hospital.

Mesmo lá, homens armados iam e vinham — fumando nos corredores, circulando por espaços que deveriam estar protegidos, sem qualquer respeito pela inviolabilidade da unidade médica. Éramos uma equipe pequena, trabalhando sob pressão, tomando a cada hora decisões que podiam significar vida ou morte.

Dissemos a nós mesmos algo simples: se morrermos, morreremos com dignidade.

 

Quando não estávamos mais sozinhos

Durante semanas, mantivemos tudo funcionando com quase nada. Nós improvisávamos, tentando multiplicar os suprimentos e fazendo escolhas quase impossíveis.

Quando MSF iniciou seu apoio ao hospital, aos poucos, algo começou a mudar. Sentíamos isso trabalhando no hospital: os suprimentos ficaram mais confiáveis, os cuidados ficaram mais organizados, e o apoio começou a chegar até nós.

Os riscos não desapareceram. A guerra não parou. Mas não estávamos mais completamente sozinhos e isso mudou o que era possível.

 

Os momentos que nunca saem da sua cabeça 

Amna* fugiu de El Fasher depois que um projétil atingiu sua casa, matando seus pais e dois irmãos. Hoje, vive com a irmã em um acampamento para pessoas deslocadas em Tawila. ©Cindy Gonzalez

Uma mãe chegou uma noite depois que soldados da RSF invadiram sua casa. Eles acusaram a família de apoiar o governo sudanês. E por isso, saquearam tudo, mataram o marido dela e atiraram nela.

Nós a levamos para a cirurgia, enquanto seu filho — com não mais de nove anos de idade — ficava ali perto, chorando. “Um dia, eu vou matá-los”, disse a criança. Naquele mesmo momento, soldados da RSF estavam dentro do hospital. Lembro-me de pensar: se eles o ouvirem, vão matá-lo também.

Em outro dia, uma sobrevivente de violência sexual chegou. Sentei-me com ela e a ouvi. E então chorei junto. Até hoje, ainda vejo seu rosto.

Em meio a esse caos, aconteceu algo surpreendentemente positivo, quando uma mulher grávida chegou em trabalho de parto. Naquele momento, não tínhamos serviços de maternidade. Então, ela deu à luz na sala de cirurgia de emergência.

No meio da guerra, uma criança nasceu. Por um momento, tudo se acalmou. Nós sorrimos. Lembramos como é a vida.

 

Por que ficamos?

Aqueles primeiros dias em Cartum foram uma questão de sobrevivência. Não apenas para os pacientes, mas para nós. Estávamos com medo. Estávamos exaustos. Duvidávamos de nós mesmos. Mas ficamos porque os pacientes continuavam chegando.

Mesmo quando não podíamos ajudar a salvar todas as pessoas, ainda podíamos salvar alguém. Porque, às vezes, no meio de tudo, a vida ainda encontra um caminho.

Sou médica. E naqueles primeiros dias de guerra em Cartum, isso significava ficar — mesmo quando a cidade, e parte de mim, estavam desmoronando.

 

*Nome alterado para garantir a segurança e a privacidade da profissional.

Ajude MSF a continuar agindo em situações como essas. Doe! 

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