Nosso compromisso com a construção de uma organização onde todas as pessoas estejam seguras

Por Javid Abdelmoneim, presidente internacional de MSF

©Frederic Seguin/MSF

Nos últimos oito anos, Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem publicado dados anuais sobre denúncias de abuso e má conduta em nossa organização. Os números mais recentes contam uma história importante, mas difícil. Assim como nos anos anteriores, a quantidade de denúncias continuou a aumentar. Isso pode significar que as pessoas têm mais conhecimento em relação aos nossos sistemas em que estas práticas podem ser denunciadas e se sentem mais confiantes para se manifestar, mas também deixa claro o tamanho do trabalho que ainda temos pela frente para prevenir e enfrentar abusos dentro da nossa organização.  

Entre os casos mais graves que enfrentamos no ano passado estão aqueles ocorridos no leste do Chade. As investigações que concluímos em junho de 2025, após alertas divulgados pela imprensa, identificaram casos graves de abuso e má conduta envolvendo pessoas que trabalhavam para MSF, incluindo exploração sexual, abuso e assédio.  

Nossa análise envolveu 16 investigadores trabalhando durante oito meses para examinar 59 alegações relacionadas a profissionais e outras pessoas vinculadas a MSF, como fornecedores. Nos casos em que foi possível comprovar má conduta grave e identificar os responsáveis, medidas foram tomadas. Dezoito profissionais foram demitidos e permanentemente impedidos de trabalhar com MSF.  

Mais importante ainda, quero reconhecer os danos causados aos pacientes e colegas que sofreram abusos. Como presidente internacional de MSF, sinto um profundo senso de responsabilidade e arrependimento por não termos conseguido manter as pessoas seguras. Exploração sexual, abuso e assédio são totalmente incompatíveis com os princípios, valores e compromissos de proteção de MSF. Quando ocorrem, representam uma grave quebra de confiança e podem ter consequências devastadoras para sobreviventes, comunidades e nossos colegas.  

Como alguém de origem sudanesa, com familiares que fugiram da guerra no Sudão, o que aconteceu no leste do Chade também me afeta pessoalmente. Mulheres que já haviam sobrevivido a violências terríveis no Sudão e buscado segurança no Chade tinham todo o direito de esperar dignidade, respeito e proteção de MSF. Colegas mulheres também estiveram entre as pessoas afetadas. Isso é inaceitável e jamais deveria ter acontecido.  

Nossas investigações identificaram falhas importantes nas medidas de proteção que estavam em vigor. À medida que nossas equipes se expandiram rapidamente para responder à chegada de centenas de milhares de pessoas vindas do Sudão, não garantimos de forma consistente que todos os profissionais compreendessem e cumprissem nossos compromissos comportamentais, nem avaliamos e mitigamos sistematicamente fragilidades relativas ao nosso sistema de salvaguardas. Deveríamos ter feito mais para garantir que pacientes, membros das comunidades e funcionários soubessem como denunciar abusos de forma segura e confidencial.  

Também devemos reconhecer que o apoio fornecido a sobreviventes que conseguimos identificar foi limitado, para além do suporte médico e psicológico.  

Barreiras significativas podem impedir sobreviventes de acessar apoio, tanto dentro quanto fora de MSF, e essas barreiras podem ser ainda mais severas nos contextos onde trabalhamos. Sobreviventes podem enfrentar estigma e consequências importantes ao denunciar abusos; serviços adequados centrados em sobreviventes podem ser limitados, difíceis de acessar ou pouco conhecidos e confiáveis; e as mulheres, em particular, podem enfrentar restrições práticas, incluindo responsabilidades de cuidado, que dificultam buscar ou receber apoio. Isso torna ainda mais importante o trabalho de prevenção e a busca ativa por identificar casos de abuso antes que danos sejam causados.  

Apesar desses desafios, eram necessários esforços maiores para nos envolvermos de forma proativa com sobreviventes, compreender suas necessidades e preferências individuais e identificar formas adequadas de assistência, incluindo apoio além daquele que MSF poderia fornecer diretamente.  

As conclusões das investigações nos levaram a implementar mudanças importantes no leste do Chade. Fortalecemos os processos de recrutamento, integração e treinamento, realizamos avaliações de risco em nossos programas, implementamos medidas para mitigar os riscos identificados e ampliamos o suporte especializado disponível para nossas equipes, permitindo que identifiquem e respondam aos riscos de maneira mais ágil. Também trabalhamos com pacientes, grupos de mulheres e lideranças comunitárias para conscientizá-los sobre o que constitui abuso e garantir que as pessoas saibam como relatar preocupações e denúncias.  

Além do leste do Chade, ao longo do último ano fortalecemos nossos processos globais de verificação para impedir que pessoas identificadas como responsáveis por abuso ou má conduta grave se movimentem entre projetos de MSF e sejam recontratadas em outras partes da organização. Também estamos trabalhando para melhorar as ferramentas de suporte que podemos oferecer a sobreviventes. É possível saber mais sobre os acontecimentos no leste do Chade e nossa resposta por meio do documento explicativo dedicado à investigação dos abusos e ao fortalecimento das medidas de prevenção na região.

O que aconteceu no leste do Chade também reflete desigualdades mais amplas e desequilíbrios de poder que temos a responsabilidade de enfrentar dentro de MSF. As mulheres enfrentam maior risco de abuso, especialmente abuso sexual, enquanto conflitos, deslocamento forçado, privação e dependência de assistência humanitária podem criar desequilíbrios significativos de poder, ampliando ainda mais os riscos de abuso. Essas circunstâncias tornam ainda mais importante garantir que as medidas de proteção existentes em todos os nossos projetos sejam as mais robustas possíveis.  

Não estamos começando esse trabalho do zero. Anos de esforços de equipes em toda MSF fortaleceram nossa capacidade de prevenir, detectar e responder a abusos. No entanto, o que aconteceu no leste do Chade demonstra que ainda existem lacunas significativas. Precisamos avançar de forma mais rápida e mais substancial.  

Como médico, reconheço que criar ambientes seguros para pacientes, comunidades e colegas é fundamental para aquilo que somos como organização médico-humanitária e para nosso compromisso médico e ético de não causar danos. Levo essa responsabilidade extremamente a sério.  

Cada projeto e escritório de MSF deve ser um lugar onde as pessoas se sintam seguras, respeitadas e protegidas; onde o abuso não seja tolerado; onde todos sejam sempre incentivados e apoiados a denunciar comportamentos inaceitáveis; e onde as vozes e experiências das pessoas mais afetadas ajudem a moldar a forma como prevenimos e respondemos aos abusos. Continuar fortalecendo esse trabalho urgente exige atenção, responsabilidade e ação de cada colega de MSF, todos os dias.  

 

Leia também: 

Relatório Anual de Conduta e Transparência de 2025

Enfrentando a discriminação institucional e o racismo em MSF – Atualização de 2024/2025

 

 

Compartilhar

Relacionados

Como ajudar