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"Nós, obstetrizes no Afeganistão, somos as líderes silenciosas do nosso país"

12/06/2020
Por Zahra Koochizad, supervisora de obstetrícia de MSF na maternidade Dasht-e-Barchi
"Nós, obstetrizes no Afeganistão, somos as líderes silenciosas do nosso país"

Foto: Sandra Calligaro

Como obstetrizes no Afeganistão, trazemos novas vidas a este país, sob condições muito adversas. Nascem aproximadamente 130 milhões de bebês por ano no mundo.  Isso também significa que existem milhões de mulheres que precisam de assistência durante a gravidez e o trabalho de parto. Parir, na minha opinião, é um dos momentos mais gloriosos e importantes na vida de uma mulher.    

Minha paixão por ver uma nova vida surgindo no mundo e meu forte desejo de servir meu próprio povo me fizeram escolher a profissão de obstetriz. Também vem do envolvimento da minha família com essa vocação – algumas tias e primas minhas trabalham como obstetrizes em diferentes hospitais de Cabul. Elas também escolheram essa profissão porque descobriram que no Afeganistão a maioria das mortes durante o parto são decorrentes de complicações que poderiam ser evitadas.

Apesar de algumas melhorias nos últimos anos, o Afeganistão ainda tem uma das taxas de mortalidade materna e neonatal mais altas do mundo e a necessidade de cuidados especializados é vital. Na Suíça, cinco mães morrerão a cada 100 mil nascidos vivos. No Afeganistão, esse número salta para 638 mortes – e aqui não estão inclusas as 15 mulheres grávidas e os 5 bebês que ainda não haviam nascido e foram mortos a tiros sistematicamente na maternidade onde trabalho um mês atrás.

Um dos maiores desafios que toda obstetriz e mulher grávida no Afeganistão enfrenta é a insegurança. Eu vivenciei isso dolorosamente em primeira mão.

Sou a supervisora de obstetrícia na maternidade mantida por MSF do hospital Dasht-e-Barchi, em Cabul. O ataque foi no dia 12 de maio. Eu lembro desse dia; estava um clima muito agradável, o ar estava fresco e senti uma sensação de paz ao entrar no hospital. Quando cheguei, vi minhas colegas trabalhando; todas pareciam motivadas e ansiosas para começar um novo dia de atendimento a mulheres grávidas que precisavam de nós. Estamos acostumadas a tragédias diárias em nossas comunidades, mas nada poderia ter nos preparado para o horror que se aproximava.

No Afeganistão, uma maternidade é um dos poucos espaços onde as mulheres são as líderes. Os terroristas entraram em uma área onde nenhum homem jamais pode chegar. Eles invadiram a maternidade com armas, matando mulheres grávidas, mães e recém-nascidos. O líder deles deve estar muito orgulhoso; comemorando a vitória sobre um exército de mulheres e bebês de um dia de vida, que ainda usavam a roupa do hospital.

Um hospital deveria ser um espaço protegido. O Direito Internacional Humanitário diz isso e, no entanto, o ataque à maternidade onde trabalho não é um caso excepcional – ataques contra a infraestrutura de saúde acontecem com frequência aqui. Mas o que há de diferente nesse ataque?

Nós, obstetrizes no Afeganistão, somos as líderes silenciosas do nosso país. Estamos ao lado das mulheres grávidas dando à luz o futuro do país e precisamos ser protegidas. Proteger uma ala de maternidade como a minha é salvaguardar o nosso futuro, junto com as obstetrizes que trabalham lá. Obstetrizes como a nossa amada Maryam, que foi morta da maneira mais incompreensível ao ajudar as futuras mães a dar à luz.

No dia do ataque, que durou quatro horas, contra a maternidade Dasht-e-Barchi, os terroristas atacaram não só mulheres grávidas e recém-nascidos, mas também as décadas de trabalho desempenhado para reduzir a mortalidade materna e neonatal no Afeganistão. Por causa desse ataque, a região oeste de Cabul – com mais de um milhão de habitantes – e mulheres vindas de províncias distantes não têm mais acesso a nenhum tratamento obstétrico e neonatal abrangente.
Sua única opção agora é um hospital de 50 leitos, mas, desses, apenas sete são dedicados a serviços de maternidade. Não sei se as mulheres grávidas que vão para lá ou para outros hospitais estão sendo atendidas conforme necessário. Elas receberão a ajuda de que precisam? Elas terão condições financeiras de pagar pelos serviços hospitalares? Elas sobreviverão ao trabalho de parto se não forem admitidas em nenhum hospital?

Estou com medo de pensar o que acontecerá com aquelas mulheres que, se não fosse isso, teriam vindo até nós.
Todo mês, a maternidades mantida por MSF fornecia serviços de qualidade a mais de 1.200 mães que deram à luz seus bebês. Sei que se as mulheres na área de Dasht-e-Barchi precisarem de assistência durante o parto, elas podem para o hospital de 50 leitos, mas, se tiverem alguma complicação, não serão recebidas lá. Não há centro cirúrgico para casos emergenciais, por exemplo. E, com a pandemia de COVID-19, as opções de atendimento para mulheres com complicações ou necessidades especiais são ainda menores e mais distantes do que antes.

A maioria das pacientes que vem para Dasht-e-Barchi pertence à comunidade Hazara  e não tem condições financeiras de arcar com o tratamento em outros lugares. Algumas mulheres chegam ao hospital em péssimas condições.

Lembro-me de uma paciente em especial. Era a primeira vez que ela vinha ao hospital. Ela mal conseguia andar e parecia muito pálida. Ela veio de uma área nos arredores de Cabul. Eu a examinei e a diagnostiquei com anemia grave; não havia atendimento pré-natal disponível onde ela morava. Ela não tinha dinheiro para comprar comida, então, não estava se alimentando adequadamente. Perguntei quando tinha sido sua última refeição e ela respondeu "ontem". Meu coração se partiu ao ouvir isso, mas fiquei muito feliz em vê-la se recuperar e dar à luz um bebê saudável.

A história dela é só uma entre milhares que descrevem a realidade das pacientes que vivem em Dasht-e-Barchi; algumas delas vinham ao hospital e não tinham dinheiro para voltar para casa.

Todas as nossas pacientes e a comunidade em geral ficavam muito felizes em contar com a ala de maternidade que prestava serviços gratuitamente, principalmente porque os hospitais do governo cobram uma quantia em dinheiro. Fico triste ao ver como a pobreza, a falta de um bom sistema de saúde, a falta de recursos, a insegurança e a pandemia de COVID-19 estão limitando as possibilidades de as pessoas receberem cuidados de saúde adequados. Os centros de saúde em Cabul já estão operando com capacidade reduzida, porque alguns profissionais de saúde foram contaminados.

Estou ferida, minha vida mudou, mas ainda estou comprometida em continuar meu trabalho. Sei que meu povo precisa de nós e espero que eu volte a me recuperar com o apoio de MSF. Não consigo esquecer todas as pacientes que precisam de ajuda e um bom nível de atendimento. Também quero honrar todas as pacientes que se tornaram nossas amigas e oraram por mim. Não quero decepcioná-las, principalmente agora, quando muitas também sofrem com a pandemia de COVID-19.
Eu vejo nossa população sofrendo com grandes obstáculos, em meio a uma situação que já é crítica – a necessidade de serviços de saúde nunca foi tão grande.

 

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