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Níger: para que as crianças cresçam saudáveis

08/01/2016

Foto: Juan Carlos Tomasi/MSF

Em 2005, uma estratégia inovadora que consistiu na transferência do tratamento de desnutrição aguda grave para fora dos hospitais foi ampliada massivamente pela primeira vez, alcançando um número recorde de crianças. Dez anos depois, estratégias para combater outras doenças mortais no Níger estão sendo combinadas à luta contra a desnutrição com uma abordagem de saúde pública.

Rahi Harouma tem 40 anos e vive em Keleme, pequeno vilarejo no departamento de Bouza, no sul do Níger. É novembro, e as famílias já fizeram toda a sua colheira. “Neste ano, a colheita foi normal”, explica Rahi, sentada no jardim de sua casa, enquanto suas irmãs mais velhas moem alguns grãos para o almoço.

Essa é a mais importante colheita do ano e a maioria das famílias no Níger depende dela para sobreviver. Crises nutricionais são recorrentes no país, principalmente de junho a outubro, quando os estoques de alimentos se esgotam até a próxima colheita. As crianças mais novas são as primeiras a sofrer as consequências.

Desde março de 2015, MSF está implementando um programa para oferta de cuidados integrados e cuidados preventivos e curativos em Tama para todas as crianças com menos de 24 meses de idade. (Foto: Juan Carlos Tomasi/MSF)O marido de Rahi é fazendeiro e ambos vivem junto com seus seis filhos; o mais novo é Adbousidi, de seis meses. “Com Adbousidi tudo é mais fácil. Eu o levo ao centro de saúde para que ele possa crescer de forma mais saudável”, conta Rahi. O posto de saúde de Keleme é uma das seis instalações de saúde na região de Tama, onde a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) lançou um projeto para o tratamento e a prevenção das principais causas da mortalidade infantil, sendo a desnutrição uma delas.

Rahi leva o bebê ao posto de saúde para uma avaliação geral uma vez por mês. O agente de saúde avalia o desenvolvimento da criança, dá as vacinas necessárias e também alguns sachês de alimentos prontos, um por dia, para bebês de seis meses a dois anos. É uma pequena contribuição nutricional adicional para prevenir a desnutrição.

“No momento, há cerca de 3.200 crianças no programa, o que representa praticamente toda a população com menos de 24 meses da região”, explica Emmanuel Goumou, líder do programa de MSF. “Em breve, o programa que é um pacote de cuidados integrais preventivos e curativos (PPCSI, na sigla em francês) vai oferecer cuidados integrais para todas essas crianças.”

O caminho escolhido

O programa PPCSI teve início em maço de 2015, 10 anos após a grave crise nutricional sofrida no Níger, em 2005, e é um exemplo de como a luta contra a desnutrição evoluiu ao longo da última década.

Nines Lima, consultora de MSF para malária, foi coordenadora médica no país em 2005. “A escala da emergência era enorme e MSF estava atuando nas áreas mais afetadas. Eu estava em Ouallam, em Tillabéri, onde o número de crianças desnutridas significava trabalho contínuo até dezembro. Então, fomos para Madaoua e Bouza, na região de Tahoua, onde havia muitos casos de desnutrição e ninguém conseguia cobrir as necessidades. Trabalhamos ali ainda nos dias de hoje”, explica.

Em 2005, alimentos terapêuticos prontos para o uso (RUTF, na sigla em inglês), que permitiam o tratamento domiciliar da desnutrição aguda grave sem complicações médicas, foram utilizados massivamente pela primeira vez. Como resultado, mais de 69 mil crianças receberam tratamento. “Eu fiquei impressionada com os centros de nutrição intensiva que visitei em Zinder, onde crianças desnutridas com complicações eram admitidas, porque havia muitas delas; mais de 600 em dois centros. Era como uma cidade de crianças desnutridas”, relembra Nines.

Desde 2005, graças a várias inovações médicas e nutricionais, bem como as novas políticas de saúde do Níger, o número de crianças com desnutrição aguda grave tratadas no país não parou de crescer – foram mais de 360 mil em 2014. Esses números elevados não indicam necessariamente que as crianças desnutridas são mais numerosas, mas, sim, que a cobertura nacional melhorou. Em 2013, havia mais de 800 instalações oferecendo tratamento para desnutrição no Níger. Além disso, a adoção de novas medidas antropométricas para definir a desnutrição, mais inclusivas, levaram a um aumento automático do número de crianças consideradas desnutridas. Enquanto isso, também houve progresso significativo no combate a importantes doenças da infância, como a malária, que ataca essas crianças desnutridas agressivamente.

Nines retornou ao Níger no último ano. “O ótimo progresso alcançado com a malária nos últimos anos é relativo à implementação da quimioprevenção sazonal da malária, que oferece tratamento preventivo a crianças com idades entre três meses e cinco anos durante os meses de maior incidência da doença”, explica Nines. “Além disso, trabalhamos para tornar possível o diagnóstico e o tratamento da malária simples dentro das comunidades, por meio de pessoal minimamente treinado, o que melhorou o acesso e a prevenção do desenvolvimento da malária grave”, adiciona.

Crianças nos centros de saúde

As autoridades de saúde no Níger também trabalharam na mesma direção, treinando profissionais de saúde para que eles possam responder às principais causas de morte no país: malária, pneumonia, diarreia e desnutrição. Essa estratégia tem o objetivo de aliviar um dos principais problemas do sistema de saúde nigerino, que consiste na escassez de médicos e enfermeiros, principalmente em áreas rurais.

“A desnutrição continua sendo uma realidade no Níger e deveria ser tratada a partir de um ponto de vista de saúde pública”, ressalta Luis Encinas, coordenador geral dos projetos de MSF no Níger. “Para combater a doença, precisamos trabalhar na estruturação de medidas básicas de saúde voltadas para as crianças mais novas, como estamos fazendo agora em Tama com o programa PPCSI, para ajudar crianças a crescerem saudáveis.”

 

Lições aprendidas na última década

1) A desnutrição aguda grave pode ser tratada em massa.

Até 2005, crianças foram admitidas sistematicamente para tratamento com duração de um mês. A introdução de alimentos terapêuticos prontos para o uso simplificou o tratamento e permitiu que fosse domiciliar. Em 2005, 300 mil tratamentos foram vendidos no mundo inteiro; em 2013, o número foi de cerca de 3 milhões.

2) Critérios mais inclusivos para definir a desnutrição

Após avaliar o crescimento das crianças em oito países dos cinco continentes, a Organização Mundial da Saúde publicou novas curvas antropométricas para responder à desnutrição. Assim, muitas crianças que antes eram consideradas moderadamente desnutridas – mas em risco de mortalidade – se tornaram severamente desnutridas e recebem tratamento, o que facilita a cura.

3) A desnutrição aguda grave afeta principalmente os mais novos

Entre crianças com menos de cinco anos de idade, crianças com idades entre seis e 23 meses são as mais afetadas pela desnutrição aguda grave; cerca de 80% dos casos ocorrem nesse grupo etário. Com essa informação, os programas de redução da morbidade e da mortalidade passaram a concentrar cada vez mais esforços no tratamento de crianças mais novas.

4) Malária e desnutrição, uma combinação letal

A malária é uma das principais causas de morte em muitos países afetados pela desnutrição. Essa combinação ocorre durante o mesmo período do ano, levando a se pensar estratégias que respondam a ambos os problemas. Por exemplo: enquanto uma criança recebe a quimioprevenção para a malária, seu status nutricional é avaliado e ela é encaminhada para tratamento, se necessário.

5) Tratar todas as doenças que a criança apresente

Crianças desnutridas têm sistemas imunológicos enfraquecidos e são menos capazes de combater doenças como a malária, a diarreia e as infecções respiratórias. Ao mesmo tempo, crianças com essas doenças estão mais sujeitas à desnutrição. Cada vez mais programas tentam responder a essa questão de forma integrada para atender a todas as necessidades das crianças.

6) Descentralizar e simplificar o tratamento

Simplificar a abordagem para as principais doenças da infância permite aos profissionais de saúde minimamente treinados diagnosticar e tratar as crianças na instalação de saúde mais próxima a elas. Assim, apenas os casos mais graves precisam ser transferidos.